A
nova
série de
trabalhos do
artista
plástico João Gerodetti é
um mergulho no
passado
sob uma
visão
contemporânea.
Isso ocorre
pelo
desenvolvimento de
um
pensamento crítico
sobre
aquilo
que
vê, num
processo
criativo
que ultrapassa o
fazer e mobiliza
um
refletir
sobre a
nossa
época.
As
obras têm
como
ponto de
partida
igrejas de
São Paulo,
Minas
Gerais e Pernambuco. A
técnica, o
nanquim,
com
efeitos de
aguada e a
cor
sépia, utilizada
para
dar
um
tom envelhecido
em algumas
imagens,
cria uma
atmosfera
aparentemente
fantasmagórica, numa
visão
apressada,
mas
essencialmente
lúdica.
A
questão discutida nas
telas das
lembranças daquilo
que
não existe
mais e das
lembranças do
que
já passou,
ou seja,
pedaços do
passado
que insistem
em
permanecer no
presente.
São uma
espécie de
alerta
para
atestar
como
igrejas e
cidades
vão se transformando
cada
vez
mais rapidamente.
As
igrejas de Gerodetti têm uma
personalidade
própria. Os
elementos arquitetônicos das
fachadas constituem
espécies de
rostos,
com
olhos e
boca.
Não se
trata de
ver
esses
elementos da
face nas
imagens da
exposição,
mas de
sentir
cada
arquitetura
sagrada de uma
maneira bem-humorada e humanizada.
A
exposição
não tem
como
objetivo a
devoção
religiosa,
mas a
discussão do
elemento
urbano.
Pessoas aparecem
em
número reduzido e
são
geralmente
beatas
ou freqüentadoras das
igrejas. O entorno
também
ganha
relevância, seja
pela enigmática
lua no
céu
ou
pela
presença de
vegetação
em angulações diferenciadas.
Os
restos do
passado e os
elementos desaparecidos, retratados
em sépia e
invasores das
imagens
atuais, revelam
que
cidades
como São Paulo estão
cada
vez
mais emparedadas
por
blocos de edifícios de
concreto. As
igrejas, apertadas, não têm
como
respirar e,
tal
qual
pessoas num
quarto fechado, têm dificuldades de
sobreviver.
João Gerodetti,
com esta
mostra de
trabalhos, aponta
para questões urbanísticas. Vê as
igrejas
como
seres
com
dramas
pessoais a
reger a própria
existência,
em
labirintos de
difícil
saída
perante
sociedades
cada
vez
mais
dinâmicas
onde o
espaço de
reflexão
que a boa
pintura propicia
infelizmente é quase
nulo.
Oscar
D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da Unesp, integra a
Associação
Internacional de Críticos
de
Arte (AICA -
Seção Brasil).