por Oscar D'Ambrosio


 

 


João Gerodetti: e por falar em igrejas...


            A nova série de trabalhos do artista plástico João Gerodetti é um mergulho no passado sob uma visão contemporânea. Isso ocorre pelo desenvolvimento de um pensamento crí­tico sobre aquilo que , num processo criativo que ultrapassa o fazer e mobiliza um refletir sobre a nossa época.

As obras têm como ponto de partida igrejas de São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. A técnica, o nanquim, com efeitos de aguada e a cor sépia, utilizada para dar um tom envelhecido em algumas imagens, cria uma atmosfera aparentemente fantasmagórica, numa visão apressada, mas essencialmente lúdica.

A questão discutida nas telas das lembranças daquilo que não existe mais e das lembranças do que passou, ou seja, pedaços do passado que insistem em permanecer no presente. São uma espécie de alerta para atestar como igrejas e cidades vão se transformando cada vez mais rapidamente.

As igrejas de Gerodetti têm uma personalidade própria. Os elementos arquitetônicos das fachadas constituem espécies de rostos, com olhos e boca. Não se trata de ver esses elementos da face nas imagens da exposiçãomas de sentir cada arquitetura sagrada de uma maneira bem-humorada e humanizada.

A exposição não tem como objetivo a devoção religiosa, mas a discussão do elemento urbano. Pessoas aparecem em número reduzido e são geralmente beatas ou freqüentadoras das igrejas. O entorno também ganha relevância, seja pela enigmática lua no céu ou pela presença de vegetação em angulações diferenciadas.

Os restos do passado e os elementos desaparecidos, retratados em sépia e invasores das imagens atuais, revelam que cidades como São Paulo estão cada vez mais emparedadas por blocos de edifícios de concreto. As igrejas, apertadas, não têm como respirar e, tal qual pessoas num quarto fechado, têm dificuldades de sobreviver.
            João Gerodetti, com esta mostra de trabalhos, aponta para questões urbanísticas. Vê as igrejas como seres com dramas pessoais a reger a própria existência, em labirintos de difícil saída perante sociedades cada vez mais dinâmicas onde o espaço de reflexão que a boa pintura propicia infelizmente é quase nulo.


            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Crí­ticos de Arte (AICA - Seção Brasil).

 

 



 

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