Urbe
provém do latim urbis, sendo sinônimo de cidade,
entendendo-se esta como um complexo demográfico, social e econômico
formado por uma concentração populacional não agrícola dedicada
principalmente a atividades industriais e terciárias de comércio e
serviços. Ali se concentram também equipamentos destinados à
moradia, trabalho e circulação, como habitações, edifícios e
ruas.
No
entanto, além dessa fria descrição, que lida com questões geográficas
e históricas, em suas múltiplas vertentes, as urbes são autênticos
fenômenos sociológicos de facetas quase infinitas e, acima de
tudo, dinâmicas, pois, se há algo que caracteriza as cidades na
sua essência, esse fator é o movimento, presente tanto nos
conjuntos de prédios, como nos detalhes arquitetônicos ou nas
belezas dos parques.
A exposição
Calendário Urbano, da artista plástica Adriana Zudin, busca
justamente o que existe de essencial no turbilhão de imagens de uma
urbe. Não se trata de desafio fácil, já que o tema permite as
mais diversas e mesmo inusitadas abordagens, indo desde a expressão
mais figurativa de uma cidade a imagens próximas da abstração.
O
segredo para tornar esse caminho diferenciado está na forma de
apreender as imagens. O que está em jogo não é uma cidade específica
e os seus personagens, mas os instantes de uma urbe. Ela pode ser
Amsterdam, Buenos Aires, Ilha Bela, Moscou, São Paulo, São
Petersburgo, Veneza ou Verona.
O
fundamental não é o referente concreto, mas a busca de atmosferas
proporcionada pelo ato de pintar. Assim, cada quadro, com uma
latitude e uma estação definidas, oferece ao observador a
oportunidade de ver como a artista encara o elemento urbano, seja
num parque numa colina, num palácio ou simplesmente num sentimento.
O
linguajar pictórico de cada cidade é instaurado em trabalhos em
que a cor tem um papel primordial no ato de desnudar atmosferas.
Mais importante do que identificar uma localidade e captar um estado
de espírito, de ser e sentir perante o mundo circundante.
Nessa
busca por uma expressão visual autêntica do que significa ser
urbano no século XXI, além da metáfora das estações do ano, foi
utilizada a das latitudes. Friamente, em termos geográficos, um
grau de latitude corresponde à distância, medida em graus, a
partir do equador terrestre até o paralelo do observador, na direção
Norte ou na Sul.
Sua
criação data de aproximadamente 150 d.C., mas seu desenvolvimento
e ampla utilização só ocorreu na época das grandes navegações.
Os quadros desta exposição, ao terem apenas indicada a latitude,
determinam somente uma região horizontal acima ou abaixo da linha
do Equador.
Ao
não se dar a longitude, que tem como referência o Leste e Oeste do
meridiano de Greenwich, é oferecida a cada um que estiver na exposição
o estímulo de decodificar a região representada. Tal jogo, muito
menos que um enigma, pode ser lido como uma homenagem às infinitas
possibilidades da arte de tomar a realidade e desdobrá-la em
consistentes jogos visuais como os que Adriana Zudin oferece de
maneira sóbria, multifacetada e competente, criando seus universos
urbanos com cores de todas as latitudes.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes
Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).