por Oscar D'Ambrosio


 

 


Encontro de latitudes de Adriana Zudin

 

            Urbe provém do latim urbis, sendo sinônimo de cidade, entendendo-se esta como um complexo demográfico, social e econômico formado por uma concentração populacional não agrícola dedicada principalmente a atividades industriais e terciárias de comércio e serviços. Ali se concentram também equipamentos destinados à moradia, trabalho e circulação, como habitações, edifícios e ruas.

            No entanto, além dessa fria descrição, que lida com questões geográficas e históricas, em suas múltiplas vertentes, as urbes são autênticos fenômenos sociológicos de facetas quase infinitas e, acima de tudo, dinâmicas, pois, se há algo que caracteriza as cidades na sua essência, esse fator é o movimento, presente tanto nos conjuntos de prédios, como nos detalhes arquitetônicos ou nas belezas dos parques.

            A exposição Calendário Urbano, da artista plástica Adriana Zudin, busca justamente o que existe de essencial no turbilhão de imagens de uma urbe. Não se trata de desafio fácil, já que o tema permite as mais diversas e mesmo inusitadas abordagens, indo desde a expressão mais figurativa de uma cidade a imagens próximas da abstração.

O segredo para tornar esse caminho diferenciado está na forma de apreender as imagens. O que está em jogo não é uma cidade específica e os seus personagens, mas os instantes de uma urbe. Ela pode ser Amsterdam, Buenos Aires, Ilha Bela, Moscou, São Paulo, São Petersburgo, Veneza ou Verona.

            O fundamental não é o referente concreto, mas a busca de atmosferas proporcionada pelo ato de pintar. Assim, cada quadro, com uma latitude e uma estação definidas, oferece ao observador a oportunidade de ver como a artista encara o elemento urbano, seja num parque numa colina, num palácio ou simplesmente num sentimento.

O linguajar pictórico de cada cidade é instaurado em trabalhos em que a cor tem um papel primordial no ato de desnudar atmosferas. Mais importante do que identificar uma localidade e captar um estado de espírito, de ser e sentir perante o mundo circundante.

Nessa busca por uma expressão visual autêntica do que significa ser urbano no século XXI, além da metáfora das estações do ano, foi utilizada a das latitudes. Friamente, em termos geográficos, um grau de latitude corresponde à distância, medida em graus, a partir do equador terrestre até o paralelo do observador, na direção Norte ou na Sul.

Sua criação data de aproximadamente 150 d.C., mas seu desenvolvimento e ampla utilização só ocorreu na época das grandes navegações. Os quadros desta exposição, ao terem apenas indicada a latitude, determinam somente uma região horizontal acima ou abaixo da linha do Equador.

Ao não se dar a longitude, que tem como referência o Leste e Oeste do meridiano de Greenwich, é oferecida a cada um que estiver na exposição o estímulo de decodificar a região representada. Tal jogo, muito menos que um enigma, pode ser lido como uma homenagem às infinitas possibilidades da arte de tomar a realidade e desdobrá-la em consistentes jogos visuais como os que Adriana Zudin oferece de maneira sóbria, multifacetada e competente, criando seus universos urbanos com cores de todas as latitudes.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).

 

 

 

 

 



 

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