por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Emmanuel Nassar

 

            A instauração do equilíbrio

 

            O artista plástico Emmanuel Nassar, em cada novo trabalho, traz questionamentos sobre a realidade circundante não só na esfera artística, mas principalmente, na existencial. Sua pesquisa visual é um discurso poético marcado pela constituição de um cosmos, de uma ordem muito pessoal, num mundo caótico.

            A instalação Instabile 2008, na Galeria Millan, é mais um degrau nesse percurso. É evidente que cabe ao observador fornecer a sua leitura dessa realidade que o artista instaura. Se a construção proposta por Nassar, surge como diálogo com o artista plástico Alexander Calder, também é o seu oposto.

            O paradoxo e o lirismo de Nassar residem nesse jogo. Aos dinâmicos móbiles e escultóricos estábiles, o artista contrapõe uma instabilidade estável. Barras de ferro azuis e vermelhas interligadas por parafusos e sustentadas por roldanas e cabos de aço estabelecem a conquista do espaço.

            Ao centro da engenhoca, rodeada pelas paredes pretas, um saco de plástico fechado com terra, criando fungos, e uma serra ameaçadora. Uma interpretação rápida traz à memória a Amazônia destruída, mas por que não pensar na nossa vida cotidiana serrada ao meio e pelas laterais, sem tempo ou sensibilidade para olhar a flor que insiste em nascer em meio ao árido cimento, que também comporta a sua poética.

            O uso da letra “E”, inicial do nome do artista, no começo da instalação, leva ao reflexo condicionado, dentro de nossa lógica oriunda do racionalismo provindo de Descartes, a buscar o “N” ao final da composição apresentada no espaço. Assim, o olhar é levado a um buraco cavado no chão da galeria, de onde saiu a terra que está no centro da sala.

            No entanto, essa maneira lógica de conceber a instabilidade é talvez a maior armadilha da instalação de Nassar. Seu fascínio está no desafio que estabelece ao olhar, não da sua explicação por meio de uma bula acadêmica. O desequilíbrio, afinal, não surge para ser decodificado com facilidade, mas para perpetrar a dúvida como alimento da própria vida.

            Do “E” de “espaço” para o chão, passando pela composição aérea, há, talvez, uma única certeza: o impacto visual deve ser considerado como elemento fundamental da criação do artista paraense. Para que ela não morra como conceito ou como pretexto de uma discussão arquitetônica, precisa ser muito mais que um exibicionismo de geometria construtiva.

            O sucesso evidencia-se  pelo impacto plástico. As barras de ferro ganham  o ar como traços de desenho ou de pintura perante um fundo de tela ou de papel preto. As roldanas e parafusos fazem o papel das sucessivas camadas de material. Aqui, são responsáveis por criar os planos que permitem ao conjunto fluir com naturalidade.

            O artista funde o que há de melhor em Calder com uma pitada pessoal. Vale-se de bem acabadas estruturadas para ser o demiurgo de um conjunto que encanta pela solidez que guarda em sua aparente fragilidade. Nada pode ser tirado ou incluído da atmosfera realizada sob pena de derrubar o que foi difícil construir enquanto conceito. Caso contrário, a serra pode girar, a terra ensacada pode cair e a fragilidade escondida pode ser desnudada, rompendo a harmonia divina que Instabile 2008 gera no público.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 Instabile 2008
instalação Galeria Millan São Paulo, 2008

Emanuel Nassar

 

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