Emanoel
Araujo
As dimensões dos portais
Buffon (1707-1788), em seu Discurso
sobre o estilo, diz que “o estilo é apenas a ordem e o movimento
que aplicamos às nossas idéias”. Sendo assim, o estilo revela uma
faceta de cada ser humano, e a obra de um artista plástico, portador de
características intrínsecas, ensina muito sobre a forma como um
pintor, escultor ou escritor vê o mundo.
Na exposição
Tribute to Louise e outros relevos, na Galeria Nara Roesler, em
dezembro de 2005, o artista plástico Emanoel Araujo oferece, a partir
do contato com a obra da russa naturalizada norte-americana Louise
Nelverson, a criação de três estantes de cedro com elementos de
outras madeiras dos séculos XVIII e XIX.
Se Louise
criou espécies de portais com madeira entalhada que lhe deram
notoriedade e colocaram o seu trabalho em alguns dos principais museus
norte-americanos, Araújo, em sua leitura e releitura da obra da artista
estabelece um mundo de relações com o material e com a idéia de espaço.
O teatrólogo
Mateo Alemán (1547-1614) dizia que, ao se bater numa porta, não se
deve esperar mais de duas vezes, pois, passado esse limite, ou a pessoa
não está ou ela não quer atender. Analogamente, a obra de Emanoel
Araujo abre-se para a mente do observador em, no máximo duas olhadas.
Se isso não
acontece, é porque o receptor olhou, mas não viu o trabalho ou
simplesmente não estava preparado, sabe-se lá por que motivo, para
penetrar naquele universo. As entrâncias e espaços criados pelo
escultor baiano, nascido em 15 de novembro de 1940, em Santo Amaro da
Purificação, Estado da Bahia, são justamente um convite a um mergulho
em um mundo em que há caminho para entrar, mas não para sair.
Cada um dos
três portais possibilita conhecer uma dimensão de madeiras e de passos
pela nossa própria mente. Além do prazer de se contemplar a obra, a
observação atenta de cada tipo de madeira e a sua estética seleção
permite uma nova visão da própria matéria usada e das suas múltiplas
combinações.
Portas podem
estar abertas, fechadas ou entreabertas. Analogamente, as estantes de
cedro apresentadas por Araujo jogam com essas possibilidades visuais. Há
nelas o potencial de desvendar o primeiro passo para conhecer melhor
cada objeto estético e as suas variedades, como a interação entre
formas variadas, estruturas helicoidais e transversais, incluindo ângulos
retos e diversas possibilidades de diálogo entre espaços fechados e
abertos.
Maturados
durante sete anos, os portais do artista são ilusórias estantes de
cedro inspirados no trabalho de Louise. Constituem a continuidade de um
trabalho que revela uma artisticamente invejável coerência. Os
“outros relevos” dez relevos presentes na exposição e oito
monotipias provam ainda mais que a arte de Araújo se alimenta de raízes
africanas de uma maneira saudavelmente antropofágica.
A deglutição
da cultura afro feita por Emanoel Araújo ocorre sem dor, mas com paixão.
O tributo a Louise Nelverson, nessa óptica, é uma homenagem às
diversas facetas do chamado continente negro na África, nos EUA, na
Bahia e em todo lugar onde existe a capacidade humana de criar e
recriar.
Seu
alimento e fascinação está na possibilidade e talento de renovar a
sua leitura do mundo e oferecê-la, como apontava Buffon, com o seu
estilo, ou seja, com uma ordem peculiar e um movimento característico,
que nos faz respirar muito das madeiras da Bahia, da arte dos melhores
escultores e marceneiros e da possibilidade de cada portal nos levar
para novas dimensões.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).