Elza
Oda
A liberdade dos trípticos
A palavra tríptico
vem do latim trptykos e significa “dobrado em três”. O termo
é livremente utilizado para conjuntos de três trabalhos, sejam fixos
ou móveis, que apresentam elementos comuns, seja em termos temáticos
ou técnicos. O mais importante é que dialoguem entre si, integrando-se
em nome de uma unidade plástica.
Elza Oda
domina a linguagem dos trípticos pela capacidade de desenvolver um
assunto com profundidade e riqueza de recursos. Seja algum elemento da
natureza, um conjunto de paisagens, flagrantes da cidade de São Paulo
ou a paz mundial, a pintura e suas potencialidades consegue ser sempre o
principal tema tratado pela artista.
Filha de
lavradores, nasceu em
Presidente Prudente, SP, em 29 de junho de 1941, e radicou-se em São
Paulo, SP, em 1960. Sonhava em ser pintora desde os quatro anos de idade
e foi como professora de desenho e outras atividades artísticas que
passou a dominar e a praticar as mais diversas técnicas com os mais
diferentes materiais, como desenho a carvão, lápis, pastel, óleo
sobre tela, aquarela e aerografia.
Pedagoga,
com especialização em História da Arte, licenciada em Educação Artística,
em Desenho e Plástica, com especialização em Desenho Geral e Pedagógico,
por mais de 35 anos, Elza concentrou sua carreira na educação de crianças,
adolescentes e adultos, lecionando desenho, geometria plana descritiva,
perspectiva e artes plásticas.
Nunca, porém,
deixou de lado o sonho de criança de ser artista e, em 1997, ao se
aposentar como diretora de escola, passou a dedicar-se integralmente à
pintura, voltando-se para várias temáticas. Uma das principais é a
natureza, vista sempre com imensa liberdade, principalmente nas cores.
A
habilidade de combinar o realismo e o detalhismo das figuras com a
maneira absolutamente pessoal e emotiva de trabalhar as cores dão o
diferencial da pintura de Elza . Assim ela obteve numerosas premiações,
com destaque no 1º e no 2º Salão de Pintura Figurativa Bunkyo,
promovido pela Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, respectivamente
com imagens de bananeiras e alcachofras.
A
grande questão colocada pela artista é que as suas bananeiras,
alcachofras ou paisagens são muito mais do que parecem em uma olhada
apressada. Há nelas bem mais do que técnica acadêmica cuidadosamente
estudada e desenvolvida ao longo de anos.
O
que existe de especial na pintura absoluta é um amplo exercício de
liberdade técnica. Ela sabe como pintar, mas se pergunta e nos indaga
plasticamente por que as cores do mundo não podem ser outras. As cores
que ela vê são próprias, oriundas da mescla entre o conhecimento técnico
e o sentimento vivido.
Elza
Oda encontra na cor a liberdade maior de sua criação. Seus trípticos
são questionamentos constantes ao nosso hábito de ver o mundo sempre
do mesmo modo. Assim, bananeiras e alcachofras surgem com uma
intensidade ímpar e as paisagens rurais e urbanas que vê estão longe
do lugar comum.
Caracterizados
pela humanidade e pelo talento, os trípticos da pintora paulista
oferecem, com seus traços delicadamente expressivos e cores quentes e
significativas, uma visão de mundo lírica e densa, marcada pela
liberdade de dizer aquilo que deseja com os pincéis. Por isso, ela se
adapta bem à linguagem regida por conjuntos ternários que desafiam a
artista a transformar em tintas uma mensagem íntegra e plena.
O
olhar de Elza sobre os mais diversos temas ilumina a alma dos
observadores e da própria artista. Eles percebem a intrínseca
humanidade do trabalho, enquanto ela tem um processo de evolução
pessoal e artístico ao realizar cada nova tela, que representa um
prazeroso desafio em busca de um conhecimento cada vez maior de si mesma
e da técnica que domina.
A
artista faz isso com a
naturalidade de quem domina a arte do desenho e da pintura. Seu desafio
em cada novo trabalho, graças à liberdade empregada no ato de fazer
artístico, é superar o anterior, sempre movida pela certeza de que a
prática constante é a melhor maneira de tornar cada tríptico um
conjunto que constitui, em si mesmo, uma aula de arte e um desafio a
qualquer tipo de comodismo, seja intelectual ou pictórico.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).