por Oscar D'Ambrosio


 

 


Elos entre arquitetura e arte

 

A importância dada por Mario Barata à arquitetura em seu texto “A arte no século XIX: do neoclassicismo e romantismo até o ecletismo”, em História geral da arte no Brasil, organizado por Walter Zanini, me leva a refletir sobre os novos elos que a arquitetura foi adquirindo em relação à arte no século XX.

Ao comentar brevemente obras como o Teatro Municipal de São Paulo, o Museu Paulista da USP, o Palácio Monroe, no Rio de Janeiro, o Teatro Amazonas, em Manaus, o Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, Barata mostra como os imponentes edifícios do fim do século XIX e início do XX trazem um conceito bem distinto daquele que utilizamos hoje.

O mais interessante é que a arquitetura passou progressivamente a ser vista cada vez menos como algo destinado a proteger o ser humano das intempéries e muito mais como uma forma de as pessoas se protegerem e se isolarem umas das outras. Nesse sentido, discutir arquitetura na contemporaneidade significa debater não apenas o que é e como é construído um edifício, mas discutir comportamento e qualidade de vida do homem em relação ao meio em que ele vive.

A arquitetura de um prédio ou de uma cidade, nessa concepção, demanda uma  revisão daquilo que se encontra na esfera urbana. O ambiente citadino ganha a dimensão de uma ruína histórica, no sentido que aponta para uma projeção do que possa vir a ser encontrado no futuro ou restos de uma civilização a ser melhor entendida e compreendida posteriormente.

Em termos de artes visuais, o diálogo entre escultura, arquitetura, política e instalações é cada vez mais forte. Num mundo cada vez mais objetivo, a arte, assim como qualquer outra forma de expressão, torna-se “intelectualizada”, no sentido de, por exemplo,  buscar entender o funcionamento de uma cidade para desenvolver mecanismos eficientes de comunicação com o público.

Um fato significativo, nesse sentido, é que a arquitetura dos EUA, em boa parte, tende a mitificar  conquistas formalistas e tecnológicas baseadas na arquitetura racionalista moderna, bem de acordo com sua visão do american way of life. Em paralelo, numerosos artistas contemporâneos se valem, em suas criações, de artefatos tecnológicos e da própria arquitetura de grandes centros urbanos, como superfícies e solos espelhados, catracas de metrô, escadas, bancos e música ambiente de aeroportos.

Há uma preocupação bem forte de verificar a experiência do sujeito nesses projetos modernos, estimulando os “corpos anestesiados” a vivenciarem de fato experiências de deslocamento. “Ver melhor”, nessa concepção, quer dizer restabelecer olhares mais conscientes e, portanto, menos ingênuos do mundo.

Cabe lembrar que a Europa tem como referência paradigmas  de criação vistos como modelares, como é o caso de Michelangelo, enquanto os EUA sentem-se mais à vontade com a idéia de realizar “cortes” de plantas de edifícios, por exemplo. Essa atitude lança um olhar irônico sobre a arquitetura e propicia ao fruidor novas maneiras de ver e pensar o espaço e a matéria.

A arquitetura contemporânea então parece estar engajada na busca de soluções para  problemas pós-modernos como superpopulação, a formação de ilhas marginais sem acesso a serviços básicos e a ausência de planificação social por parte de Estados com poder fragmentado.

Assim, o modernismo, tema não tratado no texto de Mario Barata, viveria um colapso em cidades paralelas e improvisadas em seu crescimento. A maior carência estaria no fato de uma sociedade que celebra o indivíduo não conseguir ainda solucionar o desafio da superposição de estéticas estabelecidas em função das necessidades e prioridades de cada cidadão.

As formulações ideais da arquitetura funcionalista moderna entram então em contradição por não conseguirem atender a diversidade dos indivíduos. Essa questão aproxima artistas e arquitetos na prática e reflexão de tópicos como criatividade, utopia, história e negociações político-econômicas.

Assim, arquitetos e artistas, ao lidar com o desafio da arquitetura, assumem papéis bem diferentes daqueles que tinham no século XIX. De meros construtores ou de criadores alienados da sociedade, ensimesmados em projetos mirabolantes, podem passar a ser teóricos, ensaístas ou projetistas de pequenas reformas que, se efetivamente introduzidas, ou pensadas, com senso prático, podem ser esperançosas alternativas para a melhor convivência nas sociedades humanas.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 



 

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