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Eloise Franzine Miranda
A Arte espontânea
A maioria dos artistas gosta muito do seu trabalho e até sente
certo ciúme dele. Há aqueles que até se negam a vender certas
obras por considerá-las especiais. Não é o que ocorre com a
pintora Eloise Franzine Miranda. Ao observar seus trabalhos,
revela certa desconfiança e desconforto com a sua produção e
diz que deseja mudar de estilo. Enquanto isso, suas obras se
classificam para exposições importantes. "Quero mudar a
forma de pintar, mas ainda não sei exatamente em que
direção", afirma.
Nascida em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo, em 1971,
Eloise conta que seu amor pela pintura surgiu cedo. "No
jardim da infância, aos 5 anos, meus desenhos sempre eram os mais
elogiados e selecionados para exposições", lembra. Só
retomei, porém, para valer, a ligação com as artes plásticas
muito depois. "Foi em 1994. Trabalhava num escritório e
fiquei sabendo da existência de um ateliê. Quis logo conhecer o
responsável. E o encontrei tomando um cafezinho na padaria."
O ateliê pertencia ao pintor Nerival Rodrigues. "Ela logo me
impressionou pelo seu talento natural e espontâneo, assim como
pela empolgação com o ato de criar. Logo percebo isso", diz
o pintor. Estimulada, Eloise comprou o material que necessitava e
foi à luta. "Pintei inicialmente imagens de sítios, o
universo em que fui criada. Agora, estou morando na cidade e minha
temática começa a mudar", diz.
Embora não olhe para o próprio trabalho com prazer, os críticos
vêem em Eloise uma expressão do estilo naïf ou primitivista.
"Ela pode até mudar o que faz hoje, mas se adotar a
perspectiva e tentar se aproximar do academicismo vai perder o que
há nela de melhor: sua identidade de raízes primitivas",
avalia Nerival.
Dois quadros de Eloise foram selecionados, em 2000, para
participar da V Bienal Naïfs do Brasil, em Piracicaba, SP. Um
deles, A mãe natureza, teve ótima repercussão entre os
críticos presentes e, para alguns, merecia premiação. Trata-se
de um trabalho original, em que uma árvore, repleta de flores,
apresenta um arco-íris sobre a copa. Pássaros voando, um colibri
sugando o néctar de uma flor e abelhas em uma colméia completam
o panorama.
O detalhe mais especial, porém, são as margaridas, que sobem
pelo tronco, passam pela colméia e transformam a imagem numa
síntese do mundo natural, visto sob uma perspectiva harmoniosa e
otimista. A espontaneidade dessa criação conquistou os
entendidos e fascinou o público.
O outro quadro exibido na mostra de Piracicaba, SP, foi Almoço de
domingo. O foco da artista recai sobre uma família típica da
zona rural. Trata-se de uma obra em que predominam as linhas
retas. A família de seis pessoas reúne-se perante uma mesa feita
sem perspectiva. Completam o panorama pássaros voando, a própria
casa, toda arrumada, com cortina e tudo, e cavalos ao fundo.
Há em Eloise, estudante do quarto ano do curso de Psicologia, um
grande poder de síntese, já que suas imagens praticamente contam
uma história com intensa economia de meios. É o que ocorre, por
exemplo, no quadro em que mostra uma sala de aula em que pessoas
da raça negra tanto lecionam quanto são os alunos. As carteiras
são dispostas de forma triangular em direção ao professor e
frases alusivas ao tema da aula são escritas pela tela, dando-lhe
vivacidade, acentuada pelo uso de um amarelo forte, cor preferida
da artista.
Feira, exibido, em 2000, na XV Mostra Afro-brasileira Palmares, em
Londrina, PR, acentua essa característica. Três mulheres negras
surgem vendendo seus frutos atrás de suas barracas, todas
mostradas sem perspectiva. Ao fundo, realizada com o menor número
possível de traços, está o esboço de uma rua, com casas
coloridas, alinhadas uma ao lado da outra, em numerosas cores,
sendo que uma delas está identificada como bar.
Há, ainda, em Eloise, uma outra vertente. É a que busca
preencher toda a tela, com sucessivas imagens, que se espalham.
Isso ocorre em duas telas. Uma delas mostra uma praia em Ilha
Bela, SP, onde há de tudo, desde banhistas a vendedor de sorvete,
de um pára-sol a edifícios que fecham o fundo do quadro.
Situação semelhante ocorre numa tela em que é mostrada a zona
rural. A tela apresenta uma síntese do universo rural, deixando o
olhar do espectador perdido entre as múltiplas opções para
encaminhar sua visão. Essa tendência, presente na maioria dos
naïfs, revela justamente o desejo espontâneo de não deixar
espaços em branco.
Uma das telas mais bem realizadas da artista é a que mostra o
coreto da Praça do Bom Jesus. A luminosidade amarela que surge do
coreto indicia grande sensibilidade e revela uma grande talento
para trabalhar com cores e imagens, construindo conjuntos que
geram estranhamento e provocam o espectador.
Inquieta como todo artista, Eloise Franzine Miranda permanece em
busca de transformações. Diz não apreciar o que faz e isso a
motiva a encontrar novos caminhos para a sua arte. Enquanto não
altera sua obra, ela realiza um trabalho repleto de força vital.
Seus traços, simples e diretos, e suas cores, fortes e bem
definidas, indicam uma espontaneidade que, para o bem da arte
primitivista que ela própria produz, não deveriam ser perdidos.
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Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).
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