Eli
Lima
O poder da cor
O domínio da cor é um
grande desafio nas artes plásticas. Trata-se de um instrumento
poderoso para definir uma poética visual e uma linguagem diferenciada
que torne a obra reconhecível pelo trabalho pictórico realizado e
pela sua identificação como marca registrada de um artista.
Pintora
baiana radicada em São Paulo, Eli Lima tem no uso de cores primárias
e quentes uma forte característica. Pinta desde os oito anos de idade
e se aprofundou no domínio do óleo sobre tela com o artista plástico
Lanzieri. Sua carreira inclui mostras individuais e coletivas na
Argentina, Brasil e Espanha, marcadas pela presença da temática da
brasilidade.
Em obras
como Tropical I e Bahia do mar, por exemplo, contornos
negros bem marcados delimitam as áreas de cor, gerando jogos
multifacetados, próximos aos de mosaicos, em que as formas vão
surgindo com forte apelo lúdico. Pelo uso da cor, são criadas situações
em que um intenso dinamismo visual se faz presente, estimulando o
observador a participar mais intensamente do quadro com releituras
constantes.
Processo
semelhante ocorre em Urbanos, só que nesta obra predomina a
verticalidade, tanto do formato do suporte como no uso das linhas. O
resultado é bastante intenso. O trabalho revela o potencial da
artistas de criar climas de grande densidade com o uso de cores
predominantemente quentes.
Um lirismo
maior surge quando as tonalidades são atenuadas e a reflexão crítica
sobre a sociedade ganha espaço. Manifesto urbano apresenta o mérito
de criar uma atmosfera questionadora da vida nas metrópoles, onde a
grandiosidade dos edifícios é colocada ao lado de uma figura
masculina sutilmente geometrizada, permitindo o estabelecimento de
elos entre as capacidades humana de construir e de pensar.
Quando o
fundo passa a ter cores mais escuras, surgem manchas quentes e
cinzentas em composições abstratas de grande expressividade. Elementos
revela as intensas possibilidades da construção de uma manifestação
artística sem a presença de referenciais concretos, mas com a criação
de climas misteriosos.
As imagens
plenas de brasilidade, as criações de questionamentos da
desumanidade urbana e o desafio de compor abstrações plasticamente
bem resolvidas em termos de formas e estruturas apontam três
possibilidades plásticas da obra de Eli Lima. O ato de trabalhar em
cada uma delas exige a perseverança de mergulhar em cada um desses
caminhos para atingir um resultado cada vez mais expressivo, onde a
presença e a ausência da cor ocupam, sem dúvida, um papel
fundamental.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra
a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio
Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do
pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo).