por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Elias dos Bonecos

 

            À margem do rio

 

            O escritor francês Chateaubriand (1768-1848) afirmou que “Aquiles existe graças a Homero”. Alertava nesse trecho para a relação indissolúvel entre certas criaturas literárias e seus criadores. A máxima se aplica bem ao trabalho com bonecos feitos a partir de sucata por Elias Rocha, conhecido como Elias dos Bonecos, falecido dia 1º de abril de 2008.

            É impossível pensar no seu trabalho sem situá-lo no local em que foi produzido e onde está permanentemente montado: o rio Piracicaba, no Interior de São Paulo. Com seus 330 km, o rio, formado pela reunião do Atibaia e do Jaguari, abriga a usina hidrelétrica de Sá Carvalho e forma o salto de Piracicaba, junto à cidade homônima.

            Outrora um dos mais piscosos do Estado de São Paulo, o curso da água vem sofrendo com a degradação ambiental e encontra em Elias um de seus maiores defensores, com um trabalho estético e plástico que vem se cristalizando ao longo dos anos e já teve reconhecimento internacional.

Nascido em 3 de agosto de 1931, na chácara Morato, próximo à Rua do Porto, às margens do Rio de Piracicaba, Elias, quando criança, cursava o primário de manhã e, à tarde, trabalhava numa olaria, ajudando a fazer tijolos e telhas. Fazia bonecos à semelhança de amigos como gozação e, mais velho, começou a construir alguns para a festa de malhação do Judas, tornando-se, desde os anos 1960, o responsável “oficial” pela fabricação da imagem do traidor de Cristo a ser destruído na Semana Santa.

A argila e o barro foram, portanto, os primeiros materiais que dominou. Aos 14 anos, ingressou no curso de mecânico ajustador do Serviço Nacional da Indústria (Senai) e, com o diploma, passou a atuar em diversas oficinas metalúrgicas da cidade de Piracicaba. Em 1975, por aderir a uma greve que reivindicava melhores condições de trabalho e aumento salarial, é despedido da empresa metalúrgica, onde estanhava barras de cobre e manipulava o perigoso ácido sulfúrico. 

Mesmo aposentado, Elias não podia ficar sem ganhar um dinheiro extra para sobreviver. Passou então a executar diversos trabalhos, como limpar terrenos e catar ferro-velho e papelão. Dirigindo a carroça puxada pelo cavalo Lontra – curiosamente um nome que vem de um ser que habita a água – desempenha essas atividades e, paralelamente, dedicou parte de tempo e energia para criar e conservar os seus bonecos que povoam as margens do rio Piracicaba.

Feitos com galhos de árvores, pedaços de arame, borracha de pneu, restos de tapeçaria, madeira, roupas velhas, jornais e trapos, e outros materiais retirados do próprio rio, num processo contínuo de reaproveitamento, reciclagem e ressignificação, os bonecos de Elias não são realistas – e muito menos tem um acabamento cuidadoso.

Há neles muitos elementos cenográficos, pois, à distância, dão a plena sensação de serem pessoas pescando ou se divertindo junto ao rio. Observados mais de perto, porém, revelam a magia do processo criativo de Elias, principalmente pelos seus rostos característicos, sem nenhuma pretensão realista.

Se os homens destruíram o rio, os bonecos procuram lhe dar nova vida. As temáticas de Elias, como não poderia deixar de ser num artista de profundas raízes populares, estão no cotidiano, como procissões do Divino Espírito Santo, jogos de truco, pescadores, operários, camponeses, mulheres trabalhando ou com criança no colo, Judas no pau-de-sebo, bêbados, casais dançando ou amigos abraçados.

Estima-se que Elias já tenha feito mais de 3 mil bonecos com essas características. Além de ficarem à beira do rio, próximo à rua do Porto, onde ele passou a maior parte da vida, e a um trajeto de 3 km, próximo ao qual o artista desenvolve a sua existência, eles estão em escolas, museus, espaços culturais, lojas e coleções particulares de amantes da chamada arte popular.

O local mais adequado, porém, dessas obras é que permaneçam próximas ao rio, pois foram concebidas para ficar perto dele e fazer-lhe companhia em seu gradual e constante processo de destruição pela industrialização da região. O curso da água ganha, com os bonecos de Elias, nova vida. Se as suas águas não são mais as mesmas do passado, ao menos as suas margens ganharam uma nova dimensão – mais humana.

Os trabalhos de Elias também participaram de diversas exposições, principalmente em São Paulo, sendo uma das mais importantes a mostra Pop Brasil – a arte popular e o popular na arte. Seu trabalho foi objeto de dissertações de mestrado e de um vídeo, Os bonecos de Elias dos Bonecos, de Nordahl C. Neptune, além de uma pesquisa de Bile Zampaulo, arte-educador e mestre em Artes Visuais no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP), câmpus de São Paulo.

 A partir de 1989, a Casa do Povoador de Piracicaba monta um acervo de aproximadamente 42 bonecos de Elias, fato que consolida a aceitação de sua obra na cidade, na região e mesmo em outros Estados, pois o Museu de Folclore de Curitiba, PR, e instituições do Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte contam com bonecos do artista em seu acervo.

As obras criadas por Elias já ultrapassaram fronteiras, chegando aos EUA e, principalmente, sendo expostos, em 1999, no Teatro Comunale di Teseto, em Trento, graças a um intercâmbio de Piracicaba com o Centro de Pesquisas Non Solo Danza. Além disso, Reinaldo Santiago, professor de Artes Cênicas da Unicamp, escreveu um texto teatral sobre a vida do artista, que resultou no espetáculo Beira Rio.

Elias, que participa ativamente, às vezes como festeiro oficial nomeado pela comunidade, da Festa do Divino Espírito Santo, celebrada num grande palco do Rio Piracicaba, realiza, para o Natal, presépios inusitados com seus bonecos, fazendo com que eles interajam com o rio e com a comunidade.

Se, com Chateaubriand, aprendemos que um artista, como Elias, não pode ser, em certos casos, afastado da matriz de sua obra, no caso o rio Piracicaba, com um de seus compatriotas, o matemático e filósofo Pascal, recebemos outra lição. Ele aponta, em Pensamentos, que “os rios são caminhos que andam e que nos levam aonde queremos ir”.    De fato, Elias dos Bonecos é esse homem e artista vinculado visceralmente ao rio. Após a morte da mãe, que criou sete filhos perto do curso da água, e da mulher, dedicou-se integralmente a ele, pois quem dá alma a suas criações é justamente o ambiente que as rodeia.

O rio, Elias e os bonecos são hoje uma coisa só. Impossível separar um do outro. Estão intrinsicamente ligados numa tríade que tem como elemento aglutinante a arte, o processo criador que estreita laços entre elementos da natureza, pessoas e criações do imaginário. Assim, Elias dos Bonecos se torna Elias de Piracicaba e o rio Piracicaba, com muita propriedade, transforma-se no Rio de Elias dos Bonecos.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 
 
 

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Detalhe de um boneco (rosto) - técnica mista sem data

Elias dos Bonecos 

 

 

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