|
|
|
Eleuza de Morais Heróis chaplinianos
Muitos acreditam que todo artista naïf seja autodidata,
muitas vezes semi-analfabeto e que retrate apenas cenas do
cotidiano rural, festas populares e personagens do folclore. Isso
se aplica na grande maioria dos artistas que provém do campo,
mas, nas grandes cidades, como São Paulo ou Buenos Aires, os naïfs
assumem outra natureza, sendo muitas vezes chamados de artistas de
domingo, porque tem curso superior, trabalham às vezes em grandes
empresas e se dedicam à arte apenas nos finais de semana.
A pintora gaúcha
Eleuza de Morais é um exemplo disso. Sua vida e obra mostram que
o essencial para ser naïf é a simplicidade dos traços e a
objetividade temática. Trata-se, portanto de uma atitude perante
a vida marcada por uma postura simples, sem grandiloqüência,
muitas vezes comovente, somada a traços simples, quase infantis,
que denunciam uma postura franca perante o mundo, seja exaltando
suas belezas ou criticando mazelas sociais.
Nascida em Pelotas,
interior do Estado do Rio Grande do Sul, em 8 de agosto de 1950,
ela se mudou para Porto Alegre aos nove anos, mas seu amor pela
arte já tinha brotado. “Desde os sete anos, eu desenhava todos
os dias. Coloria, recortava, escrevia histórias infantis e as
ilustrava. Também fazia bonecas de papel e colocava muitos
vestidos coloridos do mesmo material”, lembra.
Em 1973, Eleuza se
formou em Odontologia, na Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Cinco anos depois, começou a pintar, mas, só em 1986, já
casada, a arte brotou com mais força. “Ela se tornou uma fonte
regeneradora e vitalizante da minha vida”, conta. “Descobri
que era naïf quando entrei num curso de pintura do Atelier Livre
da Prefeitura de Porto Alegre.” A experiência, como ocorre com a
maioria dos naïf, não foi das melhores. “Não me adaptei,
porque a pintura que fazia há tanto tempo era puramente
emocional. Não pude me submeter
a regras”, conta Eleuza. O fato é que a crítica
tradicional ou despreparada não sabe lidar bem com os primitivos.
“A professora, formada em Artes Plásticas, costumava fazer um
mural com os trabalhos dos participantes do curso e os
ridicularizava, colocando mil defeitos. Algumas pessoas até
tinham desistido de freqüentar as aulas após passar por
aquilo.” Quando chegou a vez da professora
comentar o trabalho de Eleuza, a ascendência espanhola da artista
veio à tona. “Ela disse que o meu trabalho era ingênuo,
simples demais, que precisava esquecer disso e começar tudo de
novo. Respondi que eu não ia mudar o meu estilo. Se ela não o
entendia, tinha que se informar mais ou procurar oura coisa para
fazer ao invés de usar sua profissão para desestimular as
pessoas”, recorda. O resultado foi o esperado. Eleuza
foi mais uma a abandonar o curso. Posteriormente, ainda estudou,
no mesmo Atelier, um pouco de litogravura e cerâmica. Nessas
oficinas, ao mostrar seus desenhos, começou a ouvir, cada vez com
mais freqüência, exclamações de surpresa e admiração:
“Nossa, tu és naïf”. A partir daí, a artista gaúcha começou
a mandar trabalhos para salões nacionais, principalmente fora do
Rio Grande do Sul, onde ninguém a conhecia e as avaliações
podiam ser mais isentas. “Queria saber se as pessoas me aceitariam. Era uma festa
interna cada vez que vinham os certificados e catálogos. Assim,
os trabalhos cumprem seu papel “, avalia. Nessa fase, as duas filhas da
artista foram fundamentais, estimulando-a em seu trabalho.
“Muitas vezes me deram tintas e pincéis como presente de Natal
ou de aniversário”, agradece. “Como não gosto de ver televisão,
trabalhava, para ficar perto delas, sentada no chão, desenhando
numa mesa pequena, daquelas de centro da sala.” Outros incentivos vieram de
artistas de Porto Alegre, como Danubio Gonçalves, Clébio Sória
e Fernando Baril, além da jornalista Lola Rodrigues e de uma
amiga, a arquiteta Jussara Barbosa. “Eles foram responsáveis
por eu querer me expor mais, fazendo exposições e divulgando meu
trabalho. Senti que ele tinha algo a dizer e que fazia bem
ouvi-lo”.
Com essa convicção,
Eleuza passou a trocar muitos passeios de fim de semana pelo
contato com as telas. “Pintar e escrever são atividades vitais
para mim. Embora tenha amigos e parentes que reclamam minha
companhia, o país da arte é minha pousada preferida”, afirma.
Aposentada, ela vai hoje ao consultório apenas duas vezes por
semana. No resto do tempo, sou mãe e artista. Isso é
maravilhoso.”
Essa declaração
coloca decididamente Eleuza no reino dos naïfs. Não bastasse
essa postura existencial, sua temática, com ampla presença de
imagens ligadas ao universo feminino, relacionamentos
afetivos entre casais e paisagens de campos oferecem um
painel de uma artista vinculada à estética naïf, que se entrega
à sua arte sem planejamento prévio cerceadores. “Quando pinto,
não penso. Deixo fluir um mix
de emoções internas e externas. É quase como um transe energético.
Não programo nada”, explica. A própria artista define seu
trabalho como “vivo, colorido, forte e instigante”, mas aponta
que ele pode ser irônico, intimista ou debochado, quando se trata
de representar pessoas, ou lírico, romântico e repousante, ao
enfocar cenas de plantas. “Meu radar está sempre ligado. Fico
observando, interpretando cenas, captando matizes, percebendo
situações”, conta..
Eleuza observa ainda
alterações em seu trabalho. “Inicialmente, pintava um mundo
idealizado e feliz. Depois, passei a retratar sentimentos pessoais
de sofrimentos, perdas e desafios interiores. Atualmente, estou
mais focada para o social”, diz. “Meus planos são pintar uma
série sobre animais e flora, para chamar a atenção das pessoas
sobre eles, que são agredidos e não conseguem se defender, além
de expor em São Paulo e publicar um livro de poemas com minhas
ilustrações.”
A participação de
Eleuza em cerca de 27 exposições coletivas, a realização de
oito exposições individuais e a presença em nove salões de
arte nacionais vão dando consistência ao trabalho da artista gaúcha,
que tem sua tela A mulher e
o vaso de flores incluída no Museu Internacional de Arte Naïf
no Rio de Janeiro, além de ter recebido três prêmios, sendo o
mais importante a Menção Honrosa na Bienal Naïf de Piracicaba
de 1998, com o quadro Tempo
de homens. O quadro, pintado em forma de relógio,
tem 70 cm de diâmetro e mostra um casal bem vestido. Ela, de
rosa, cor tradicionalmente ligada à delicadeza; e ele, de terno,
alinhado. Ambos estão bem penteados e o colar de pérolas dela,
tradicional símbolo da pureza dialoga com o vestido que mostra
delicadamente o colo. O casal se posiciona no centro de um círculo
amarelo, rodeado por um outro, azul. Há ainda os doze números
indicando as horas e igual número de corações distribuídos
pelas beiradas da tela.
O curioso é verificar
que o casal não olha um para o outro, mas sim para fora do círculo.
Estariam preocupados com as horas? Mas seria isso possível sem a
existência de ponteiros? Brigados apesar da aparência de
harmonia e do equilíbrio das cores? Enfim, o quadro faz pensar e
isso valoriza a arte de Eleuza, revelando que a aclamada
ingenuidade naïf pode – e precisa – ser um ponto de partida
para a reflexão, como ocorre com toda arte digna desse nome.
Na mesma Bienal de
Piracicaba de 1998, Eleuza apresentou Relógio do sol, que repete a estrutura do quadro premiado em termos
de formato. Só que agora duas folhas servem de ponteiros e doze
flores acompanham os números que indicam as horas. O impacto
visual impressiona, sendo o tipo de obra que chama a atenção de
todos pelo resultado, principalmente pela grande flor amarela no
centro da composição, cercada pelo verdade da natureza e por
flores azuis, vermelhas, amarelas e brancas, numa explosão de
cores. Além dos relógios floridos ou
com casais, a arte de Eleuza de Morais apresenta imagens
indagadoras, como campos em que flores imensas dialogam com
imagens bem menores ao fundo. O contraste provoca estranhamento e
convida o espectador a uma visão mais atenta. Quando se trata de
passagens em planos mais abertos, pode-se até evocar a escola
impressionista quanto à perspectiva, mas os traços e as cores se
inserem dentro do universo naïf. O que há de melhor, porém, em
Eleuza é o tratamento que dá à figura humana. Seus casais se
abraçando ou se beijando de olhos fechados obrigam a repensar os
mais diversos tipos de relacionamento entre homens e mulheres.
Surge assim a indagação se dois corpos juntos são realmente
almas que convivem em harmonia. Ao se debruçar sobre a mulher,
Eleuza cria mais um universo de conotações. Quando aparecem de
perfil, tem geralmente lábios carnudos, sensuais, fortemente
pintados de vermelho, elemento primordial de
sedução. No entanto, ao mostrar uma mulher no quarto,
indecisa entre o vestido e os sapatos que vestirá, a artista
pinta o sexo feminino numa situação que somente uma outra mulher
poderia enfocar com tamanha precisão e simplicidade. O rosto de
indecisão da retratada diz tudo o que se pode escrever sobre a
relação de uma mulher com as roupas que usa e o que impressiona
e como a artista gaúcha chega a essa solução com poucos e
seguros traços. Paralelamente a essa atividade
pictórica, Eleuza tem uma estreita relação com a literatura, o
que costuma ocorrer com diversos naïfs. “Meu pai trazia muitos
livros da biblioteca e também assinava revistas infantis, como Nosso
amiguinho”, puxa pela memória. Em sua formação
intelectual, os
poetas acompanhavam os artistas plásticos. “Com 12 anos,
já havia lido e aprendido a admirar Edgar Allan Poe e
Fernando Pessoa. No final do anos 1980, enquanto pintava também
continuava com as poesias, que enviava, assim como fazia com os
quadros, para concursos fora do Estado. Assim, vários deles começaram
a participar de Antologias.”
Mas o universo de
Eleuza é realmente a pintura. Suas telas penetram no universo
feminino e da natureza com densidade. Não há desperdício de traços
ou de formas. Fundo e forma se integram, chegando a um resultado
bem definido, com um estilo reconhecível, principalmente ao
enfocar pessoas, vistos quase como herdeiros diretos de Charles
Chaplin, inadaptados ao mundo que os rodeia. Assim, ao dar vida
pictórica a esses seres, a pintora os imortaliza como
representantes imagéticos das indagações que permeiam todo ser
humano.
|
||