por Oscar D'Ambrosio


 

 


Eleuza de Morais

Heróis chaplinianos 

               

        Muitos acreditam que todo artista naïf seja autodidata, muitas vezes semi-analfabeto e que retrate apenas cenas do cotidiano rural, festas populares e personagens do folclore. Isso se aplica na grande maioria dos artistas que provém do campo, mas, nas grandes cidades, como São Paulo ou Buenos Aires, os naïfs assumem outra natureza, sendo muitas vezes chamados de artistas de domingo, porque tem curso superior, trabalham às vezes em grandes empresas e se dedicam à arte apenas nos finais de semana.

        A pintora gaúcha Eleuza de Morais é um exemplo disso. Sua vida e obra mostram que o essencial para ser naïf é a simplicidade dos traços e a objetividade temática. Trata-se, portanto de uma atitude perante a vida marcada por uma postura simples, sem grandiloqüência, muitas vezes comovente, somada a traços simples, quase infantis, que denunciam uma postura franca perante o mundo, seja exaltando suas belezas ou criticando mazelas sociais.

        Nascida em Pelotas, interior do Estado do Rio Grande do Sul, em 8 de agosto de 1950, ela se mudou para Porto Alegre aos nove anos, mas seu amor pela arte já tinha brotado. “Desde os sete anos, eu desenhava todos os dias. Coloria, recortava, escrevia histórias infantis e as ilustrava. Também fazia bonecas de papel e colocava muitos vestidos coloridos do mesmo material”, lembra.

        Em 1973, Eleuza se formou em Odontologia, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Cinco anos depois, começou a pintar, mas, só em 1986, já casada, a arte brotou com mais força. “Ela se tornou uma fonte regeneradora e vitalizante da minha vida”, conta. “Descobri que era naïf quando entrei num curso de pintura do Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre.”

A experiência, como ocorre com a maioria dos naïf, não foi das melhores. “Não me adaptei, porque a pintura que fazia há tanto tempo era puramente emocional. Não pude me submeter  a regras”, conta Eleuza. O fato é que a crítica tradicional ou despreparada não sabe lidar bem com os primitivos. “A professora, formada em Artes Plásticas, costumava fazer um mural com os trabalhos dos participantes do curso e os ridicularizava, colocando mil defeitos. Algumas pessoas até tinham desistido de freqüentar as aulas após passar por aquilo.”

Quando chegou a vez da professora comentar o trabalho de Eleuza, a ascendência espanhola da artista veio à tona. “Ela disse que o meu trabalho era ingênuo, simples demais, que precisava esquecer disso e começar tudo de novo. Respondi que eu não ia mudar o meu estilo. Se ela não o entendia, tinha que se informar mais ou procurar oura coisa para fazer ao invés de usar sua profissão para desestimular as pessoas”, recorda.

O resultado foi o esperado. Eleuza foi mais uma a abandonar o curso. Posteriormente, ainda estudou, no mesmo Atelier, um pouco de litogravura e cerâmica. Nessas oficinas, ao mostrar seus desenhos, começou a ouvir, cada vez com mais freqüência, exclamações de surpresa e admiração: “Nossa, tu és naïf”. A partir daí, a artista gaúcha começou a mandar trabalhos para salões nacionais, principalmente fora do Rio Grande do Sul, onde ninguém a conhecia e as avaliações podiam ser mais isentas.  “Queria saber se as pessoas me aceitariam. Era uma festa interna cada vez que vinham os certificados e catálogos. Assim, os trabalhos cumprem seu papel “, avalia.

Nessa fase, as duas filhas da artista foram fundamentais, estimulando-a em seu trabalho. “Muitas vezes me deram tintas e pincéis como presente de Natal ou de aniversário”, agradece. “Como não gosto de ver televisão, trabalhava, para ficar perto delas, sentada no chão, desenhando numa mesa pequena, daquelas de centro da sala.”

Outros incentivos vieram de artistas de Porto Alegre, como Danubio Gonçalves, Clébio Sória e Fernando Baril, além da jornalista Lola Rodrigues e de uma amiga, a arquiteta Jussara Barbosa. “Eles foram responsáveis por eu querer me expor mais, fazendo exposições e divulgando meu trabalho. Senti que ele tinha algo a dizer e que fazia bem ouvi-lo”.

        Com essa convicção, Eleuza passou a trocar muitos passeios de fim de semana pelo contato com as telas. “Pintar e escrever são atividades vitais para mim. Embora tenha amigos e parentes que reclamam minha companhia, o país da arte é minha pousada preferida”, afirma. Aposentada, ela vai hoje ao consultório apenas duas vezes por semana. No resto do tempo, sou mãe e artista. Isso é maravilhoso.”

        Essa declaração coloca decididamente Eleuza no reino dos naïfs. Não bastasse essa postura existencial, sua temática, com ampla presença de imagens ligadas ao universo feminino, relacionamentos  afetivos entre casais e paisagens de campos oferecem um painel de uma artista vinculada à estética naïf, que se entrega à sua arte sem planejamento prévio cerceadores. “Quando pinto, não penso. Deixo fluir um mix de emoções internas e externas. É quase como um transe energético. Não programo nada”, explica.

A própria artista define seu trabalho como “vivo, colorido, forte e instigante”, mas aponta que ele pode ser irônico, intimista ou debochado, quando se trata de representar pessoas, ou lírico, romântico e repousante, ao enfocar cenas de plantas. “Meu radar está sempre ligado. Fico observando, interpretando cenas, captando matizes, percebendo situações”, conta..

        Eleuza observa ainda alterações em seu trabalho. “Inicialmente, pintava um mundo idealizado e feliz. Depois, passei a retratar sentimentos pessoais de sofrimentos, perdas e desafios interiores. Atualmente, estou mais focada para o social”, diz. “Meus planos são pintar uma série sobre animais e flora, para chamar a atenção das pessoas sobre eles, que são agredidos e não conseguem se defender, além de expor em São Paulo e publicar um livro de poemas com minhas ilustrações.”

        A participação de Eleuza em cerca de 27 exposições coletivas, a realização de oito exposições individuais e a presença em nove salões de arte nacionais vão dando consistência ao trabalho da artista gaúcha, que tem sua tela A mulher e o vaso de flores incluída no Museu Internacional de Arte Naïf no Rio de Janeiro, além de ter recebido três prêmios, sendo o mais importante a Menção Honrosa na Bienal Naïf de Piracicaba de 1998, com o quadro Tempo de homens.

O quadro, pintado em forma de relógio, tem 70 cm de diâmetro e mostra um casal bem vestido. Ela, de rosa, cor tradicionalmente ligada à delicadeza; e ele, de terno, alinhado. Ambos estão bem penteados e o colar de pérolas dela, tradicional símbolo da pureza dialoga com o vestido que mostra delicadamente o colo. O casal se posiciona no centro de um círculo amarelo, rodeado por um outro, azul. Há ainda os doze números indicando as horas e igual número de corações distribuídos pelas beiradas da tela.

        O curioso é verificar que o casal não olha um para o outro, mas sim para fora do círculo. Estariam preocupados com as horas? Mas seria isso possível sem a existência de ponteiros? Brigados apesar da aparência de harmonia e do equilíbrio das cores? Enfim, o quadro faz pensar e isso valoriza a arte de Eleuza, revelando que a aclamada ingenuidade naïf pode – e precisa – ser um ponto de partida para a reflexão, como ocorre com toda arte digna desse nome.

        Na mesma Bienal de Piracicaba de 1998, Eleuza apresentou Relógio do sol, que repete a estrutura do quadro premiado em termos de formato. Só que agora duas folhas servem de ponteiros e doze flores acompanham os números que indicam as horas. O impacto visual impressiona, sendo o tipo de obra que chama a atenção de todos pelo resultado, principalmente pela grande flor amarela no centro da composição, cercada pelo verdade da natureza e por flores azuis, vermelhas, amarelas e brancas, numa explosão de cores.

Além dos relógios floridos ou com casais, a arte de Eleuza de Morais apresenta imagens indagadoras, como campos em que flores imensas dialogam com imagens bem menores ao fundo. O contraste provoca estranhamento e convida o espectador a uma visão mais atenta. Quando se trata de passagens em planos mais abertos, pode-se até evocar a escola impressionista quanto à perspectiva, mas os traços e as cores se inserem dentro do universo naïf.

O que há de melhor, porém, em Eleuza é o tratamento que dá à figura humana. Seus casais se abraçando ou se beijando de olhos fechados obrigam a repensar os mais diversos tipos de relacionamento entre homens e mulheres. Surge assim a indagação se dois corpos juntos são realmente almas que convivem em harmonia.

Ao se debruçar sobre a mulher, Eleuza cria mais um universo de conotações. Quando aparecem de perfil, tem geralmente lábios carnudos, sensuais, fortemente pintados de vermelho, elemento primordial de  sedução. No entanto, ao mostrar uma mulher no quarto, indecisa entre o vestido e os sapatos que vestirá, a artista pinta o sexo feminino numa situação que somente uma outra mulher poderia enfocar com tamanha precisão e simplicidade. O rosto de indecisão da retratada diz tudo o que se pode escrever sobre a relação de uma mulher com as roupas que usa e o que impressiona e como a artista gaúcha chega a essa solução com poucos e seguros traços.

Paralelamente a essa atividade pictórica, Eleuza tem uma estreita relação com a literatura, o que costuma ocorrer com diversos naïfs. “Meu pai trazia muitos livros da biblioteca e também assinava revistas infantis, como Nosso amiguinho”, puxa pela memória. Em sua formação intelectual,  os poetas acompanhavam os artistas plásticos. “Com 12 anos,  já havia lido e aprendido a admirar Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa. No final do anos 1980, enquanto pintava também continuava com as poesias, que enviava, assim como fazia com os quadros, para concursos fora do Estado. Assim, vários deles começaram a participar de Antologias.”

        Mas o universo de Eleuza é realmente a pintura. Suas telas penetram no universo feminino e da natureza com densidade. Não há desperdício de traços ou de formas. Fundo e forma se integram, chegando a um resultado bem definido, com um estilo reconhecível, principalmente ao enfocar pessoas, vistos quase como herdeiros diretos de Charles Chaplin, inadaptados ao mundo que os rodeia. Assim, ao dar vida pictórica a esses seres, a pintora os imortaliza como representantes imagéticos das indagações que permeiam todo ser humano.

        

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).

 
 

 

 

 

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