por Oscar D'Ambrosio


 

 


Eila

 

A pintora de tapeçarias

 

artistas que encantam pelo trabalho excepcional. Outros fascinam pela personalidade poderosa, que supera até os aspectos formais do que produzem. Poucos, no entanto, unem um trabalho de grande qualidade a autênticas lições de vida. A finlandesa Eila, falecida em 20 de novembro de 2008 e radicada no Brasil desde 1929, está nesse seleto último grupo.

Obra consistente e vida exemplar se mesclam e entrelaçam. Respeitada como criadora de coloridas tapeçarias, principalmente no Brasil e em seu país natal, Eila é, na verdade, uma artista completa, que realiza, em seus quadros, pouco conhecidos, plenos de características da arte naïf, trabalhos de intensa poeticidade, em que se destaca a facilidade de trabalhar com as cores e com as linhas.

Ao não vender os quadros que começou a realizar na década de 1960, em tinta a óleo, ela abandonou essa técnica, passando a se dedicar à tapeçaria, que logo teve grande aceitação. Nesse suporte, realizava os desenhos e marca com quais tecidos eles devem ser preenchidos pelos funcionários especializados em trabalhar com tecelagem. Assim, ganhou certo renome e deixou esquecida a pintura, onde revela características fascinantes, principalmente naquelas que retrata cenas da própria família e que se nega a vender.

Esse diálogo, nem sempre harmonioso entre tapeçarias e quadros, é mais um episódio de uma vida repleta de aventuras. Nascida em Tampere, sudoeste da Finlândia, hoje com cerca de 170 mil habitantes, em 6 de julho de 1916, Eila Helena Ampula, de sua infância, lembra do avô paterno, sapateiro, e do bom-humor do avô materno.

Do primeiro, recorda os momentos que passava brincando entre sapatos; e, do segundo, puxou uma inesgotável capacidade de ver o lado engraçado das mais diversas situações, como o hábito finlandês de tomar apenas um banho por semana ou ainda a tradicional sauna, em que homens, mulheres e crianças compartilhavam, sem nenhum tipo de censura, o mesmo ambiente. “Recordo que queria ser bailarina clássica, mas nunca demonstrei grande entusiasmo para seguir a carreira”, conta.

Quanto ao pai de Eila, trabalhava como sapateiro e construtor de casas de madeira, dançava, fazia versos, era ginasta e ator amador; enquanto a mãe era aprendiz numa padaria. A futura artista confessa ainda que foi uma aluna medíocre. “Não me interessava pelos assuntos ensinados”, afirma. Quando não passou para o quarto ano, decepcionou a família que, envergonhada, encontrou mais um motivo para o existente desejo de buscar desafios e escapar do inclemente frio finlandês.

O fracasso de Eila na escola coincidiu com as promessas de mundo melhor feitas pelo casal  naturalista finlandês Toivo e Liisa Uuskallio, imigrantes que buscavam uma terra no Brasil para fundar uma colônia em que predominasse o trabalho na lavoura e a filosofia vegetariana, pois ele havia se curado de uma tuberculose graças a um rígido regime alimentar que excluía a carne.

Os finlandeses compraram então a fazenda Penedo, distrito de Itatiaia, Rio de Janeiro, mas o líder, dentro de sua filosofia vegetariana, abriu mão do gado, apesar de ele estar incluído no preço. Para imigrar, era preciso dinheiro para pagar um lote de terra. O pai de Eila vendeu então as casas que construía na Finlândia, começando a aventura da imigração para família.

Em 1929, após 18 dias de viagem de Helsinque ao Rio de Janeiro, Eila, então com 13 anos, acompanhada dos pais e de um primo com a respectiva esposa, integrava um grupo de sete imigrantes que iria se juntar aos existentes na região. Ao chegar ao porto, eles foram levados para a Ilha das Flores, onde foram vacinados contra doenças tropicais e dormiram num recinto com camas de beliche, com colchão e travesseiros, sem lençol ou fronha, comendo arroz e feijão misturados, com colher.

Chegando a Penedo, uma decepção. Os imigrantes encontraram uma terra empobrecida pelo café, vazia, sem árvores; somente com capim e formigas. Com a escassez de recursos, sacos vazios de trigo eram transformados em vestidos, camisas, calças, cuecas e pijamas.

O trabalho na lavoura, dentro dos princípios naturalistas do grupo, era pouco produtivo, mas rendeu a Eila o primeiro desejo de pintar. “Era uma cena hilariante. As mulheres trabalhavam nuas de chapéu de palha, catando ervas daninhas, enfrentando formigas, moscas e pernilongos. Depois, quando perceberam as dificuldades, passaram para o extremo oposto, vestindo meias, sapatos e calça e blusa de manga comprida”, afirma.

Nessa situação de comida difícil, insatisfação com a moradia e com o ambiente, muitos finlandeses abandonaram a região e outros voltaram para o país natal. Algumas famílias passaram então a hospedar visitantes, iniciando a tradição do turismo na região de Penedo.

 O pai de Eila, porém, decidiu permanecer e pediu a Uuskallio emprego para a filha. Uma vaga foi conseguida, como faxineira, em São Conrado, no Rio de Janeiro. A idéia era facilitar a aprendizagem de português, o que não aconteceu, pois a casa tinha patrões ingleses, governanta francesa e jardineiro luso. Em seguida, trabalhou numa casa da alta sociedade, no bairro de Laranjeiras; e , logo depois, atuou como cozinheira, em Barra do Piraí, onde fazia pão e seguia receitas de um livro em inglês, idioma que aprendeu nessa circunstância.

Foi, contudo, na Cinelândia, no Rio de Janeiro, que o destino de Eila mudou. Havia ali um instituto de massagem e ginástica, em que a adolescente limpava, arrumava, encerava, lavava, fazia café, servia, atendia e fazia compras para a dona. Pela dedicação, acabou recebendo o diploma de massagista sem ter assistido a uma aula sequer e se iniciou na profissão, por necessidade, num dia em que não havia outra pessoa para fazer o serviço, preferindo fazê-lo ela mesma a perder o cliente.

Enquanto isso, na Fazenda Penedo, comprada por Uuskallio para ser loteada entre os colonos, a terra se negava a dar frutas ou verduras. Muitos se reuniam ás escondidas para tomar café e cachaça, proibido pelo líder dessa comunidade espiritual-vegetariana. Em 1938, o pai de Eila, perante essa situação, voltou para a Finlândia, vendeu a última casa que havia construído e comprou um sítio em Campo Belo, numa estrada que ia da cidade à serra. “Escolheu esse lugar, porque, segundo a convicção religiosa de meu primeiro marido, com quem casei em 1935, na hora do fim do mundo, os fiéis se salvariam indo para as montanhas”, conta a artista. “Posteriormente, ele passou a acreditar que a salvação viria com discos voadores.”

O casamento não foi o que Eila imaginava. A mãe fazia pão e Eila vendia de porta em porta. “Vendia pouco. Foi o pior serviço de minha vida”, diz. Carlos, o marido, foi contratado para administrar as fazendas de uma usina de açúcar e álcool em Cambaíba, em Campos, RJ. , conviveu com calor, mosquitos e sem divertimento algum, pois até o rádio o marido via como uma manifestação do mal, um pecado. Além disso, ele se apaixonou por outra mulher

A separação, proposta por Elia, foi prontamente aceita e a futura artista plástica conseguiu emprego como duchista nas Termas do Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro; mas, com a roupa sempre molhada, vivia resfriada. Além disso, podia visitar os filhos no fim de semana. Carlos, enquanto isso, levara a amante para Vitória, ES, com quem se reencontraria 14 anos depois, largou o emprego e trabalhou como taxista, no Rio, e como motorista de caminhão de um sítio em Campo Grande, onde se plantavam tomates. Por amor aos filhos, Eila voltou a morar com o marido e, em 1950, quando ele conseguiu emprego como administrador de plantações de cana-de-açúcar, na Usina Porto Real, perto de Resende, todos se mudaram.

Enquanto tudo isso acontecia na vida pessoal de Eila, a colônia finlandesa de Penedo naufragava. Até 1939, a região se sustentava com a venda de cerca de cem mil mudas anuais de laranjeiras enxertadas; mas, com a Segunda Guerra, esse comércio acabou e a opção foi a criação de galinhas e o artesanato de chapéus e chinelos. As imagens desse trabalho permanecem cristalizadas em quadros como Enxertando laranjeiras, de 1966, em que salta aos olhos um traço fino e preciso, principalmente na figura da direita, que dobra a cintura de maneira que a ortopedia não permite, mas perfeitamente plausível dentro da ótica naïf da artista.

Para reunir a comunidade, nasceu, em 1943, o Clube Finlândia, que os pais de Eila administraram de 1950 a 1959. Justamente, em 1950, Eila finalmente não suportou mais aquela vida regrada, imposta pela religião do marido, cujos pais eram Testemunhas de Jeová, e fugiu para o Rio de Janeiro, ser massagista. “Do lado da cama dele, no chão, havia uma capa, que ele rapidamente vestiria, quando o disco voador viesse buscá-lo. Por tudo o que vi e passei, sou alérgica a  religiões em geral”, declara. “Diabo ou Deus, Céu ou Inferno, são apenas palavras. Nada disto existe. São coisas inventadas pelos homens. Naturalmente, há mistérios, mas não esquento a cabeça com coisas tão difíceis”.

            Mas a mesma indiferença não acontecia com a arte. Incentivada pelo marido da professora Toivo Suni, desenvolveu um talento inato para a pintura e chegou a participar, no início daquela década, do Salão de Primavera, em Resende, RJ, com quatro telas. Aqueles anos 1950 foram, de fato, bastante agitados.

            Nos primeiros sete anos dessa década, Eila dedicou-se intensamente à profissão de massagista para sobreviver. Em 1955, uma cliente, a sra. Poupon Proença apresentou Eila ao pintor Portinari. "Levei quatro pinturas. Ele me incentivou a pintar e disse que eu não precisava de cursos para aprender a pintar. Iria aprender sozinha", diz a artista em seu livro Eila: memórias da imigrante, editado em 1997. "Agora sei que uma cor destrói outra. Eu sempre achava e continuo a achar que eu aprendo a fazer as coisas, que me interessam, sem ninguém me ensinar. Esse encontro foi o passo mais importante da minha vida. Mostrou a direção a seguir."

            Ainda nos anos 1950, Eila chegou a fazer massagem em Darcy Vargas, esposa do presidente Getúlio. “Não consegui ver o presidente. Depois de um mês, ela me dispensou. Não gostou de mim, nem eu dela. Não vi o Getúlio nem uma vez, de modo que não pôde seduzi-lo. Nem tentar”, afirma a ex-massagista, com seu tradicional bom-humor.

Quando morava no Rio de Janeiro, Eila também conheceu um médico e pintor, que assinava suas obras como Sócrates. “Fiz 30 quadros e ele vendeu oito, mas, na hora de pagar, sumiu”, lembra. Também nessa época realizou algumas viagens pelo Brasil, ampliadas posteriormente, que a levaram a conhecer locais com Salvador e Ouro Preto e Tiriós, PA, quase fronteira com o Suriname, que serviram de matéria-prima para seus trabalhos, como o de aves amazônicas ou imagens do Nordeste ou do interior do Estado de Minas.

Em 1957, Eila conheceu seu segundo marido, Martti. Ela voltara a morar em Penedo, numa casa sem luz elétrica, água encanada ou banheiro interno. Era, porém, feita com o próprio dinheiro, obtido como massagista. “Houve épocas em que, como tinha muitos clientes, cheguei a marcar, no Rio de Janeiro, as primeiras sessões às 5h30”, conta.

A artista tentou viver de pintura, mas, como ninguém comprava os quadros que pintava, ela desistiu de trabalhar com tintas a óleo. “Comecei a realizar, com colher de pedreiro, alto-relevos em tela de arame, com massa de concreto. O resultado era muito pesado e não teve boa aceitação. Martti ia e voltava do Rio com aquele peso todo”, afirma.

Em 1964, surgiu um novo caminho. Eila começou a fazer desenhos para serem usados em tapeçarias. “Comprei um tear e cortava os tecidos de roupas velhas. Passei a elaborar tapeçarias pequenas, que logo foram vendidas. Dediquei-me então a essa atividade e cheguei a trabalhar com 19 funcionários na tecelagem”, conta.

No ano seguinte, Eila expôs na Casa da Suíça, no Rio de Janeiro. Em 1968, com as vendas realizadas no Wenner Gren Center, de Estocolmo, Suécia, conseguiu pagar metade de um apartamento em Copacabana. Enquanto a esposa criava, Martti ficou como gerente, coordenando a compra de tecidos, as exposições e as vendas dos trabalhos, em Penedo e no Rio de Janeiro.

            Em 1968, Eila voltou à Finlândia e à sua cidade natal, Tampere, após 39 anos de ausência. Confessa que não sentiu grande emoção, a não ser pelas bonitas pinturas do artista Hugo Simberg, na igreja local. Na década seguinte, recebeu sucessivas homenagens. Foi nomeada, em 1971, cidadã de Resende; e no ano seguinte, cidadã fluminense.

            Em 1977, comprou uma casa de 750 m2 , em Penedo. "Sem contrair dívidas", ressalta. Seu casamento com Martti, porém, devido a problemas legais para o reconhecimento da separação com o primeiro marido, só ocorreu em 1986, com 70 anos, em uma festa que contou com a presença do escritor mineiro França Júnior, autor de Jorge, um brasileiro. "É bom mesmo, usa poucos adjetivos e frases curtas", avalia a pintora.

Um outro episódio marcante na vida de Eila ocorreu em 1980, quando o Brasil era presidido pelo general João Batista de Oliveira Figueiredo, conhecido pela sua admiração por cavalos.

A artista assistiu, em Resende, a um desfile do célebre regimento a cavalo Dragões da Independência. Fez então uma tapeçaria com um soldado, conhecido como “dragão”, montado e uma bandeira. O trabalho agradou e foi solicitado um maior, para decorar o regimento em Brasília, DF. Ela fez um com nove cavalos, nove homens e as  nove bandeiras históricas do País.

O resultado estimulou o presidente Figueiredo a convidar a artista para almoçar. Pensando que beber o mesmo número de caipirinhas do mandatário seria educado, Eila ficou bêbada na ocasião e disse que adorava montar. Foi então convidada para visitar a Granja do Torto, onde passou o maior vexame, pois conseguiu subir num cavalo, pouco maior que um cachorro, amparada por dois soldados.

Quanto ao seu talento para as artes plásticas, Eila é objetiva. “Tenho um pouco, talvez 5%. Sobre isto, tenho que trabalhar, explorar o máximo. Uns 95% de trabalho sobre os 5% de dom, dá bons resultados. Estes cálculos não são meus, mas de artistas maiores, como Picasso e Portinari”, diagnostica. “Esse negócio de esperar a chegada da tal inspiração, espera-se sentado. É amadorismo, um profissional de pintura é como um trabalhador qualquer. São oito horas diárias. É assim que se aprende, o resto é conversa. Infelizmente, nunca pude me dedicar ao meu trabalho como devia. Mas também não me considero artista com letra maiúscula. Produzo artigos para decoração, nada mais”.

A arte de Eila mostra o contrário. As tapeçarias que desenha receberam elogios do conceituado crítico de arte Walmir Ayala: “Eila é um patrimônio da nossa arte, coisa inteiramente nossa, por opção pessoal dela, e pela alegria que acrescentou ao nosso cotidiano”.

No entanto, o melhor de Eila está em sua pintura, principalmente naqueles quadros que não coloca à venda por representarem cenas de sua família. Uma dessas cenas ocorreu no Clube Finlandês. “Erkki Nori tinha enchido a cara e, deitado no chão do clube, fez xixi. Armas Viitaniemi, que era policial na Finlândia, o botou para fora. Começou uma confusão. Retratei isso no quadro”, conta. “Comigo é assim, não sei inventar nada, é preciso ver a cena”.

Após três filhos, dois netos, três cirurgias plásticas, uma tapeçaria na embaixada da Finlândia em Brasília e outra no altar da Igreja Escandinava de São Paulo, SP, e uma exposição, em 1997, em Haapajärvi, Finlândia, realizada em homenagem ao segundo marido, em que vendeu mais da metade das obras e recebeu encomendas, Eila continuou realizando trabalhos de grande vigor. Naquele mesmo ano, também se mudou para Paracucu, CE, onde, sozinha, longe da família e dos companheiros de colônia, agüentou apenas um mês. Decidiu voltar a Penedo, onde seu ateliê era atração turística. 

Nas tapeçarias, que enfocam as 14 estações da Via Sacra; cidades como Olinda, Angra dos Reis e Ouro Preto; santos; crianças brincando ou flores, destacam-se as cores fortes, a harmônica combinação de imagens e a variedade de tecidos, com temas que vão de tucanos da floresta amazônica a uma tapeçaria de grandes proporções sobre trabalhos rurais na Finlândia do Século XIX.

Acima de tudo, Eila, embora negasse, continuou pintora. Realizava, como vimos, os esboços de suas tapeçarias e marcava, com precisão e paciência, as cores e o tipo de tecido a ser usado. Não tece, portanto, mas pinta. Suas telas de imagens de empregados tecendo, penduradas em seu ateliê, são arte naïf de primeira, tanto pela precisa simplicidade dos traços como pela economia de recursos. O mesmo ocorre quando retrata, com poucas e precisas linhas, pessoas nas plantações de laranjeiras ou um baobá.

No Clube Finlândia de Penedo, há dois painéis de Eila. Ambos retratam o próprio clube e a atmosfera dos bailes que ali se realizam até hoje, com as pessoas dançando músicas típicas da Finlândia. São seguramente dois dos melhores trabalhos da artista, que se encaminhou para a tecelagem, mas que tem na pintura sua vocação.

Autodidata, exímia no ato de retratar cenas de sua família, como parentes em situações cotidianas, Eila trabalha a tinta a óleo bem diluída, dando-lhe uma aparência praticamente de guache. Outro fator que desperta a curiosidade dos brasileiros sobre seu trabalho, mas que é visto sem susto na Finlândia, é a liberdade como enfoca a genitália. Em seu livro de memórias, por exemplo, mostra pênis desproporcionais de companheiros finlandeses em privadas coletivas ou em saunas – prática comum naquele país –  públicas.

Isso é feito sem pudor, com total naturalidade, como ocorre com um de seus trabalhos mais recentes, Adão e Eva. Os dois aparecem nus, no Paraíso, e a serpente, à direita, oferece à primeira mulher do mundo, o fruto proibido. Ao observar o trabalho, a própria Eila se pergunta se os retratados teriam umbigos, pois não nasceram de parto natural. Segundo a Bíblia, Adão provém do barro modelado por Deus, que lhe deu o sopro divino da vida; e ela, da costela de seu companheiro.

Intrigada com a questão, Eila mandou uma carta aos jornais da região, aguardando o posicionamento dos leitores. Isso sem mencionar que um médico, ao contemplar a obra, observou que a proporção do desenho do pênis e o posicionamento da bolsa escrotal de Adão estaria longe da realidade. Essas polêmicas identificam bem a vitalidade da artista e da sua obra. “Gosto de voar alto, sobressair da massa, ser notada, ser alguém”, auto-define.

Criadora de desenhos de tapeçarias para viver e artista das cores e tintas por vocação, Eila não pode ser vista apenas como produtora de aves típicas brasileiras ou imagens de trabalhadores da Finlândia. Quando ela se voltava para as imagens oriundas de sua rica experiência pessoal, seu trabalho como pintora era de altíssimo nível.

Eila tinha o talento de saber fixar na tela imagens perdidas no tempo que seu talento resgatava com engenho, arte e pitadas de bom-humor, marca principal da cativante  personalidade de uma artista que, neste século que se inicia, poderia voltar às tintas, abandonadas, nas ultimas décadas, em função da arte de desenhar para a elaboração de tapeçarias, uma arte mais comercial e lucrativa, mas, não por isso, menos digna.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

 

 

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  Pulando corda número 7
óleo sobre tela 60x80 cm sem data

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