por Oscar D'Ambrosio


 

 



Arte no Egito

 

Ao influenciar outras civilizações e ter aceito pouco em troca, a não ser em sua decadência, poucos países conservaram durante milênios uma tradição artística tão original quanto o Egito. Vários fatores contribuíram para isso: a situação do país, isolado pelos desertos, uma população relativamente homogênea e, acima de tudo, um forte conservadorismo cultural altamente impregnado de religiosidade. Métodos primitivos de agricultura bastaram para cultivar um solo que devia sua grande fertilidade ao lodo depositado pelas cheias anuais do rio Nilo. Este irrigava, fertilizava e se constituía na principal via de comunicação entre as diferentes partes do país. Acrescente-se ainda que as cheias do Nilo faziam desaparecer os limites dos campos, obrigando a criação de uma legislação para regularizar litígios de terra. Em termos geográficos, os rochedos forneciam pedras para monumentos de grande envergadura, residências e sepulturas praticamente indestrutíveis e inalteráveis para divindades imortais. O tijolo, por sua vez, era utilizado na construção de habitações de caráter temporário, inclusive palácios reais, casas comuns ou túmulos das sepulturas de classes inferiores. O faraó ("grande casa") era o chefe político e religioso do Estado. Representante de Deus na Terra era divinizado, inicialmente após o seu falecimento e, posteriormente, ainda em vida. Por isso, suas estátuas são idealizadas, de grandes proporções e com materiais altamente resistentes (basalto e granito), indicando sua imortalidade. Mesmo assim, na prática, o faraó não passava de um fantoche nas mãos do clero. Em termos religiosos, a base da concepção egípcia é a crença na vida futura. O ser humano seria dividido em quatro partes : ka (réplica imaterial do corpo), ba (ou bai), equivalente à alma cristã, khu (chispa de fogo divino) e corpo. Todas deveriam ser conservadas após a morte. Bha e ku o eram por intermédio de orações, e o corpo era mumificado e depois cuidadosamente protegido. O maior problema era o ka. Habitava as sepulturas, pois o túmulo era considerada a autêntica casa do morto. Como o corpo, mesmo mumificado, estragava-se ao longo de muito tempo, o ka poderia penetrar em alguma das réplicas ou retratos do falecido pintados com esse fim nas câmaras mortuárias egípcias. O ka também precisava ser alimentado. Inicialmente, eram-lhe trazidas oferendas, mas, como a própria família do morto, com o passar dos anos, deixava de lado o hábito, passou-se a retratar a produção e o preparo de comida para que o ka soubesse como agir. Os túmulos tornaram-se autênticos livros de imagens de atividades do cotidiano. Incluíam retratos do defunto com a mulher, os filhos, criados, animais como bois e burros e outros bens que possuísse em vida. Desse modo, desde as primeiras dinastias, os princípios fundamentais do estilo egípcio já foram claramente definidos, havendo uma tendência em direção ao geométrico, ao monumental e ao estático. No que diz respeito à arquitetura, caracteriza-se pela existência de três tipos de capitéis: lotiforme (flores de lótus fechadas sobre os caules da coluna em feixe), campaniforme (flor aberta de lótus) e palmiforme (ornado de folhas que se afastam da coluna). Como foi dito, os edifícios para os vivos eram feitos com materiais sensíveis e efêmeros. Em contrapartida, as sepulturas foram construídas com enormes pedras maciças e sólidas ou foram escavadas em plena rocha. As mesmas leis de solidez e de monumentalidade regem os templos. Os hieróglifos são abundantes e, além de sua função decorativa e religiosa, têm servido para estudar a história do povo egípcio. As representações pictóricas e os relevos são executados com as seguintes convenções: cabeças, braços e pernas são mostrados de perfil, enquanto olhos. tórax e ombros são representados de frente. A combinação facilita a clareza de exposição das narrativas. O pé esquerdo costuma estar à frente, enquanto o peso é igualmente distribuído pelos dois pés, as pernas se mantém rígidas e as ancas estreitas permitem a queda vertical dos braços. Os ombros largos e a ausência de pormenores reforçam a estilização. Quanto às cores, a pele é vermelha, os olhos são incrustados em branco; e as pupilas e íris, negras. Outras posições comuns, além de figuras em pé, são as de homens sentados sobre um bloco de pedra ou no solo, de joelhos ou com as pernas cruzadas. A lei da frontalidade predomina, sendo representados corpos rígidos sem flexão lateral ou qualquer espécie de dinamismo. As pinturas não conhecem sombras ou perspectiva e também tem convenções bem definidas: vermelho tijolo para os homens, ocre amarelo para as mulheres, negro para cavalos, pupilas e íris; e verde e azul para pormenores de colares e cores de pássaros, animais, árvores e água. A escala é feita de modo a chamar a atenção para a principal figura da cena retratada. Por isso, os senhores são maiores em relação aos escravos, e o mesmo acontece com os maridos em comparação com as esposas. Os relevos costumam ser muito planos, com no máximo 5 cm de destaque. A maioria das figuras era total ou parcialmente pintada, excetuando-se às realizadas em pedras mais duras, que eram polidas. As cores eram bastante utilizadas em escalas cromáticas harmônicas com fundos de tonalidades vivas. Os móveis dos membros das dinastias eram feitos de materiais requintados, como madeiras raras, marfim e bronze, sendo revestidos ou cobertos com tecidos ou almofadas coloridas. Durante os três milênios da história egípcia, houve a ascensão e o declínio de quatro regimes políticos fortes e com intensa atividade artística, conseqüência de regimes contínuos e estáveis. Decoração Pré-histórica A cerâmica, bastante desenvolvida, caracteriza-se por linhas limpas e técnica de grande maestria mesmo sem o conhecimento do torno. Há vasilhas de barro com ricas representações figurativas vermelhas, além de cerâmicas com verniz e vasos feitos de pedra. Decoração artística (3300 a. C. a 2778 a.C.) - I e II dinastias São apenas conhecidas tumbas desse período. Consistem em geral de um espaço retangular construído com argila e revestido interiormente com madeira. As tumbas reais costumam ter mais de um andar e vários cômodos. As paredes apresentam sua decoração baseada em nichos e reentrâncias. A pedra era usada na construção de escadas e batentes de portas. Antigo Império (2778 a. C. a 2423 a.C.) - III e VI dinastias A capital é Mênfis. Caracteriza-se pela construção das pirâmides, túmulos de reis. A pedra passa a ser o material mais utilizado nessas construções monumentais, principalmente as de Guizé, realizada na dinastia IV. A forma triangular foi escolhida, ao que tudo indica, por ser mais resistente ao vento e à areia. A câmara funerária ficava no centro do edifício e acredita-se que cerca de dez mil homens trabalharam aproximadamente 2O anos em sua construção. O mesmo material predomina na célebre esfinge estilizada do faraó Kefren. Os relevos e a pintura alcançam, na V dinastia, uma perfeição jamais superada na arte egípcia. Um bom exemplo são os relevos do túmulo de Ti, em Sakkara. Os nobres, eram enterrados em mastabas, túmulos com 4 a 5 m de altura e 3 a 9 m de comprimento. Esses monumentos tinham quatro faces e uma profundidade de 40 m, local em que o sarcófago era guardado, o mais longe possível de eventuais ladrões de tumbas. Primeiro Período Intermediário (2423 a. C. a 2150 a.C.) - VII a IX dinastias É um período de revoluções internas e de invasões externas com pouco interesse pelas artes. os túmulos são escassos e não existem relevos. Médio Império (2150 a. C. a 1785 a.C.) - X a XII dinastias Instaura-se o sistema feudal sob o domínio dos reis de Tebas, que preferem ser sepultados nas falésias ao longo do rio Nilo com grandes pinturas murais, como é o caso de Beni-Hazan. As esculturas tendem a ser mais estilizadas e convencionais. O Império atinge seu apogeu de poder na XII dinastia, sendo desenvolvido um grande trabalho construtivo. Cristaliza-se a utilização do símbolo do escaravelho com entalhes de hieróglifos. Segundo Período Intermediário (1785 a. C. a 580 a.C.) - XIII a XVII dinastias Ocorre a invasão dos hicsos. Trata-se de um período turbulento em que as artes sofrem um grande retrocesso. Novo Império (1580 a. C. a 1085 a.C.) - XVIII a XX dinastias Restabelecido o poder real, a arte volta a ter vigor. Os templos são construídos geometricamente fechados, como os de Karnak e Luxor. No final da XVIII dinastia, o faraó Amenofis IV tentou substituir o politeísmo pelo culto monoteísta, gerando uma extraordinária revolução política e religiosa, com repercussão na ornamentação egípcia. Houve a breve florescência de um estilo que desafiava a norma da frontalidade em busca de uma elegância mais rebuscada e caricatural. Porém, essa efervescência teve curta duração. Morto o faraó, o estilo egípcio retomou sua ortodoxia com cenas religiosas e de guerra nos templos, enquanto os túmulos das pessoas ricas e poderosas tematizavam episódios do Livro dos mortos e cenas da vida cotidiana. Durante a XIX dinastia, houve a conquista da Núbia e da Mesopotâmia. Reconhecendo a existência e o sucesso dos ladrões de túmulos, ávidos pelos tesouros enterrados junto com os mortos, os faraós passaram a escolher o Vale dos Reis, perto de Tebas, como local de sua última morada. Após 3 mil anos de busca, foi encontrado nessa região o célebre túmulo de Tutankhamon. A XX dinastia preocupou-se com guerras defensivas e conheceu numerosas derrotas, sucumbindo à dominação síria. Somente na XXVI dinastia (663- 525 a.C.), a capital foi instaurada em Saís, dando origem ao Império Saíta. Com a expulsão dos sírios, a arte voltou novamente a ser tipicamente egípcia, sacrificando a observação e os pormenores em nome do conservantismo.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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