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Arte no Egito
Ao influenciar outras
civilizações e ter aceito pouco em troca, a não ser em sua
decadência, poucos países conservaram durante milênios uma
tradição artística tão original quanto o Egito. Vários
fatores contribuíram para isso: a situação do país, isolado
pelos desertos, uma população relativamente homogênea e, acima
de tudo, um forte conservadorismo cultural altamente impregnado de
religiosidade. Métodos primitivos de agricultura bastaram para
cultivar um solo que devia sua grande fertilidade ao lodo
depositado pelas cheias anuais do rio Nilo. Este irrigava,
fertilizava e se constituía na principal via de comunicação
entre as diferentes partes do país. Acrescente-se ainda que as
cheias do Nilo faziam desaparecer os limites dos campos, obrigando
a criação de uma legislação para regularizar litígios de
terra. Em termos geográficos, os rochedos forneciam pedras para
monumentos de grande envergadura, residências e sepulturas
praticamente indestrutíveis e inalteráveis para divindades
imortais. O tijolo, por sua vez, era utilizado na construção de
habitações de caráter temporário, inclusive palácios reais,
casas comuns ou túmulos das sepulturas de classes inferiores. O
faraó ("grande casa") era o chefe político e religioso
do Estado. Representante de Deus na Terra era divinizado,
inicialmente após o seu falecimento e, posteriormente, ainda em
vida. Por isso, suas estátuas são idealizadas, de grandes
proporções e com materiais altamente resistentes (basalto e
granito), indicando sua imortalidade. Mesmo assim, na prática, o
faraó não passava de um fantoche nas mãos do clero. Em termos
religiosos, a base da concepção egípcia é a crença na vida
futura. O ser humano seria dividido em quatro partes : ka
(réplica imaterial do corpo), ba (ou bai), equivalente à alma
cristã, khu (chispa de fogo divino) e corpo. Todas deveriam ser
conservadas após a morte. Bha e ku o eram por intermédio de
orações, e o corpo era mumificado e depois cuidadosamente
protegido. O maior problema era o ka. Habitava as sepulturas, pois
o túmulo era considerada a autêntica casa do morto. Como o
corpo, mesmo mumificado, estragava-se ao longo de muito tempo, o
ka poderia penetrar em alguma das réplicas ou retratos do
falecido pintados com esse fim nas câmaras mortuárias egípcias.
O ka também precisava ser alimentado. Inicialmente, eram-lhe
trazidas oferendas, mas, como a própria família do morto, com o
passar dos anos, deixava de lado o hábito, passou-se a retratar a
produção e o preparo de comida para que o ka soubesse como agir.
Os túmulos tornaram-se autênticos livros de imagens de
atividades do cotidiano. Incluíam retratos do defunto com a
mulher, os filhos, criados, animais como bois e burros e outros
bens que possuísse em vida. Desse modo, desde as primeiras
dinastias, os princípios fundamentais do estilo egípcio já
foram claramente definidos, havendo uma tendência em direção ao
geométrico, ao monumental e ao estático. No que diz respeito à
arquitetura, caracteriza-se pela existência de três tipos de
capitéis: lotiforme (flores de lótus fechadas sobre os caules da
coluna em feixe), campaniforme (flor aberta de lótus) e
palmiforme (ornado de folhas que se afastam da coluna). Como foi
dito, os edifícios para os vivos eram feitos com materiais
sensíveis e efêmeros. Em contrapartida, as sepulturas foram
construídas com enormes pedras maciças e sólidas ou foram
escavadas em plena rocha. As mesmas leis de solidez e de
monumentalidade regem os templos. Os hieróglifos são abundantes
e, além de sua função decorativa e religiosa, têm servido para
estudar a história do povo egípcio. As representações
pictóricas e os relevos são executados com as seguintes
convenções: cabeças, braços e pernas são mostrados de perfil,
enquanto olhos. tórax e ombros são representados de frente. A
combinação facilita a clareza de exposição das narrativas. O
pé esquerdo costuma estar à frente, enquanto o peso é
igualmente distribuído pelos dois pés, as pernas se mantém
rígidas e as ancas estreitas permitem a queda vertical dos
braços. Os ombros largos e a ausência de pormenores reforçam a
estilização. Quanto às cores, a pele é vermelha, os olhos são
incrustados em branco; e as pupilas e íris, negras. Outras
posições comuns, além de figuras em pé, são as de homens
sentados sobre um bloco de pedra ou no solo, de joelhos ou com as
pernas cruzadas. A lei da frontalidade predomina, sendo
representados corpos rígidos sem flexão lateral ou qualquer
espécie de dinamismo. As pinturas não conhecem sombras ou
perspectiva e também tem convenções bem definidas: vermelho
tijolo para os homens, ocre amarelo para as mulheres, negro para
cavalos, pupilas e íris; e verde e azul para pormenores de
colares e cores de pássaros, animais, árvores e água. A escala
é feita de modo a chamar a atenção para a principal figura da
cena retratada. Por isso, os senhores são maiores em relação
aos escravos, e o mesmo acontece com os maridos em comparação
com as esposas. Os relevos costumam ser muito planos, com no
máximo 5 cm de destaque. A maioria das figuras era total ou
parcialmente pintada, excetuando-se às realizadas em pedras mais
duras, que eram polidas. As cores eram bastante utilizadas em
escalas cromáticas harmônicas com fundos de tonalidades vivas.
Os móveis dos membros das dinastias eram feitos de materiais
requintados, como madeiras raras, marfim e bronze, sendo
revestidos ou cobertos com tecidos ou almofadas coloridas. Durante
os três milênios da história egípcia, houve a ascensão e o
declínio de quatro regimes políticos fortes e com intensa
atividade artística, conseqüência de regimes contínuos e
estáveis. Decoração Pré-histórica A cerâmica, bastante
desenvolvida, caracteriza-se por linhas limpas e técnica de
grande maestria mesmo sem o conhecimento do torno. Há vasilhas de
barro com ricas representações figurativas vermelhas, além de
cerâmicas com verniz e vasos feitos de pedra. Decoração
artística (3300 a. C. a 2778 a.C.) - I e II dinastias São apenas
conhecidas tumbas desse período. Consistem em geral de um espaço
retangular construído com argila e revestido interiormente com
madeira. As tumbas reais costumam ter mais de um andar e vários
cômodos. As paredes apresentam sua decoração baseada em nichos
e reentrâncias. A pedra era usada na construção de escadas e
batentes de portas. Antigo Império (2778 a. C. a 2423 a.C.) - III
e VI dinastias A capital é Mênfis. Caracteriza-se pela
construção das pirâmides, túmulos de reis. A pedra passa a ser
o material mais utilizado nessas construções monumentais,
principalmente as de Guizé, realizada na dinastia IV. A forma
triangular foi escolhida, ao que tudo indica, por ser mais
resistente ao vento e à areia. A câmara funerária ficava no
centro do edifício e acredita-se que cerca de dez mil homens
trabalharam aproximadamente 2O anos em sua construção. O mesmo
material predomina na célebre esfinge estilizada do faraó
Kefren. Os relevos e a pintura alcançam, na V dinastia, uma
perfeição jamais superada na arte egípcia. Um bom exemplo são
os relevos do túmulo de Ti, em Sakkara. Os nobres, eram
enterrados em mastabas, túmulos com 4 a 5 m de altura e 3 a 9 m
de comprimento. Esses monumentos tinham quatro faces e uma
profundidade de 40 m, local em que o sarcófago era guardado, o
mais longe possível de eventuais ladrões de tumbas. Primeiro
Período Intermediário (2423 a. C. a 2150 a.C.) - VII a IX
dinastias É um período de revoluções internas e de invasões
externas com pouco interesse pelas artes. os túmulos são
escassos e não existem relevos. Médio Império (2150 a. C. a
1785 a.C.) - X a XII dinastias Instaura-se o sistema feudal sob o
domínio dos reis de Tebas, que preferem ser sepultados nas
falésias ao longo do rio Nilo com grandes pinturas murais, como
é o caso de Beni-Hazan. As esculturas tendem a ser mais
estilizadas e convencionais. O Império atinge seu apogeu de poder
na XII dinastia, sendo desenvolvido um grande trabalho
construtivo. Cristaliza-se a utilização do símbolo do
escaravelho com entalhes de hieróglifos. Segundo Período
Intermediário (1785 a. C. a 580 a.C.) - XIII a XVII dinastias
Ocorre a invasão dos hicsos. Trata-se de um período turbulento
em que as artes sofrem um grande retrocesso. Novo Império (1580
a. C. a 1085 a.C.) - XVIII a XX dinastias Restabelecido o poder
real, a arte volta a ter vigor. Os templos são construídos
geometricamente fechados, como os de Karnak e Luxor. No final da
XVIII dinastia, o faraó Amenofis IV tentou substituir o
politeísmo pelo culto monoteísta, gerando uma extraordinária
revolução política e religiosa, com repercussão na
ornamentação egípcia. Houve a breve florescência de um estilo
que desafiava a norma da frontalidade em busca de uma elegância
mais rebuscada e caricatural. Porém, essa efervescência teve
curta duração. Morto o faraó, o estilo egípcio retomou sua
ortodoxia com cenas religiosas e de guerra nos templos, enquanto
os túmulos das pessoas ricas e poderosas tematizavam episódios
do Livro dos mortos e cenas da vida cotidiana. Durante a XIX
dinastia, houve a conquista da Núbia e da Mesopotâmia.
Reconhecendo a existência e o sucesso dos ladrões de túmulos,
ávidos pelos tesouros enterrados junto com os mortos, os faraós
passaram a escolher o Vale dos Reis, perto de Tebas, como local de
sua última morada. Após 3 mil anos de busca, foi encontrado
nessa região o célebre túmulo de Tutankhamon. A XX dinastia
preocupou-se com guerras defensivas e conheceu numerosas derrotas,
sucumbindo à dominação síria. Somente na XXVI dinastia (663-
525 a.C.), a capital foi instaurada em Saís, dando origem ao
Império Saíta. Com a expulsão dos sírios, a arte voltou
novamente a ser tipicamente egípcia, sacrificando a observação
e os pormenores em nome do conservantismo.
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Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).
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