por Oscar D'Ambrosio


 

 


Efigênia Ramos Rolim

 

A destruidora de limites

 

Onde muitos vêem lixo, a mineira Efigênia Ramos Rolim vê a matéria-prima para construir bonecos, carros, casais prontos para ir ao altar ou imagens fantasiosas, que, em seu falar repleto de rimas, transformam-se em objetos artísticos que conquistam o observador pela capacidade de introduzir o fantástico no cotidiano.

Para essa arte popular, não há limites. Os limites entre o real e o imaginário – geralmente tênues – diluem-se completamente, num jogo que elimina totalmente aquilo que vemos daquilo que é possível ver com mente e olhos livres. Efigênia não conhece barreiras. Sua vida está em deglutir limiares com entusiasmo.

Nascida em Abre Campos, MG, em 1931, ela se mudou para Curitiba, PR, e teve a vida típica de migrante: pobreza, dor, mendicância, marginalidade e sofrimento. No entanto, um dia, quando estava na Praça Tiradentes viu um objeto luminoso que parecia um lingote de ouro.

Aproximou-se, repleta de ilusão, olhou com mais atenção e verificou que se tratava de um papel laminado de bombom. Era, de fato, o envoltório de um Sonho de Valsa, amassado e jogado na rua por algum transeunte. Foi nesse momento que a vida de Efigênia mudou. Percebeu que era possível transformar aqueles e outros restos que encontrava na rua em objetos de arte.

Paralelamente, desenvolveu uma habilidade ímpar para contar histórias e para falar em versos. É o que ela mesma nos conta em seus versos: “Pelas ruas isoladas/ ninguém me conhecia/ sentei lá na calçada/ e declamei poesia”. Sua habilidade como repentista, somada ao talento para trabalhar com objetos recolhidos na rua, levou-a a participar da feira de artes que se realiza no centro histórico de Curitiba. Em sua barraquinha, todo domingo, encanta os que visitam o local. Ela cria narrativas a partir dos objetos que vende e fala como a vida moderna e a tecnologia afastam o homem da pureza da existência.

Efigênia já publicou diversos livros repletos de poemas, que funcionam como autêntica literatura de cordel. Num deles, O que é ser poeta, define como é o seu trabalho com a palavra. Se acompanharmos as suas definições, podemos entender como, a partir de papéis de bala, bonecas velhas e retalhos, surgem objetos dos mais diversos tamanhos e formas.

Para Efigênia, que já esteve no Senado Federal, mostrando seu trabalho durante as celebrações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, “ser poeta é viver com alegria”. Por isso, cada visitante que se aproxima é tratado como um ser único, que merece um atendimento diferenciado.

Ser poeta também “é ter amor no coração”. Baseada nessa afirmação, Efigênia ironiza ainda o fato de ser constantemente considerada louca. Contra essas críticas, que desvalorizam e rotulam o trabalho que realiza, apresenta um discurso que gira em torno da intuição e do amor. Suas roupas rasgadas, repletas de papel de bala e outras bugigangas são o componente lúdico de quem não se preocupa com a aparência, mas somente com a essência do ser humano.

Para Efigênia, ser poeta significa “viver com simplicidade”, tendo, acima de tudo, “amor pela vida” e sendo “livre do cativeiro”. Essa prisão instituída pela sociedade é justamente o universo do qual Efigênia tenta – e consegue – escapar. Sua resposta ao mundo está em tomar tudo aquilo que é excluído – o lixo – dando-lhe nova vida.

Viver a “vida de um santo” é outra das definições que Efigênia dá ao trabalho do poeta. Isso inclui o sofrimento e a luta para sobreviver. Também engloba ter um algo a mais, um quê, um diferencial que leve o artista a desempenhar a importante função social do outsider, aquele que não se ajusta por ter uma visão de mundo diferenciada.

Efigênia, enquanto poeta, de acordo com suas próprias palavras, deveria “viver em comunhão”, o que significa, provavelmente, estar em harmonia com o mundo, com outras pessoas e com si mesma. A arte, para ela, é uma maneira de enfrentar as dificuldades que passou.

Isso não significa que Efigênia sairá se impondo agressivamente sobre os outros, mas sim que construirá seu caminho a partir do próprio esforço, como ela mesma aponta: “Um dia corri disparada/ não parava de correr/ Correndo atrás de um nada/ o que ia acontecer/ Quanto mais eu corria/ com grande imaginação/ Era minha alegria/ e morria de emoção”.

Por oposição, Efigênia, no livro citado, revela aquilo que não considera próprio dos poetas, como “falar de poesia” (é muito melhor fazer!), “chamar a atenção e ser reconhecida” (melhor é ter amor pela vida!), “ter dinheiro ou pão, rezar em demasia (em vez de praticar!), saber se calar ou viver entre glória”.

A simplicidade surge então como a resposta mais plausível nesse universo em que a criação artística é um momento de total liberdade. Efigênia diz que ser “poeta é ter força para no alto chegar” e “sempre lutar, saber levar a cruz e vencer com Jesus”. Nessa linha de pensamento, “ser poeta é morrer e descansar” de um mundo que parece não receber bem a arte ou tudo aquilo que é diferente ao formalmente constituído.

Aquele que destoa da chamada normalidade não poderia, no entanto, ser marginalizado, pois, como escreve Efigênia, “Somos páginas fechadas/ que devem ser abertas/ mesmo as coisas erradas/ muitos dizem que estão certas”, ou ainda “Às vezes penso que o amor/ não deixa eu morrer/ mesmo que eu sinta dor/ eu quero sempre viver”.

A arte de Efigênia se dá por duas vias. Seus objetos, criados a partir do lixo, desafiam a imaginação logo no primeiro contato, mas, quando acompanhados pelos comentários em versos da repentista, ganham nova dimensão. Ao conjugar esses dois fatores, a sucata e o papel de bala tornam-se únicos, seja pela riqueza visual, pelas conotações que propicia ou pela forma absolutamente original que Efigênia encontra de trabalhar restos da realidade.

Efigênia não conhece limites. É no sonho e na imaginação que se coloca seu pensamento, muitas vezes confundido com loucura, poucas vezes apontado como um caminho para uma nova forma de conhecimento. Cada obra que realiza com sucata é uma reação ao mundo, uma resposta ao que sofreu, um caminho para a extrema sabedoria.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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"O que é ser Poeta"

Questão de Opinião Editora - 1998

Efigênia Ramos Rolim

 

 

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