Efigênia Ramos Rolim
A destruidora de
limites
Onde muitos vêem lixo,
a mineira Efigênia Ramos Rolim vê a matéria-prima para
construir bonecos, carros, casais prontos para ir ao altar ou
imagens fantasiosas, que, em seu falar repleto de rimas,
transformam-se em objetos artísticos que conquistam o observador
pela capacidade de introduzir o fantástico no cotidiano.
Para essa arte popular,
não há limites. Os limites entre o real e o imaginário –
geralmente tênues – diluem-se completamente, num jogo que
elimina totalmente aquilo que vemos daquilo que é possível ver
com mente e olhos livres. Efigênia não conhece barreiras. Sua
vida está em deglutir limiares com entusiasmo.
Nascida em Abre Campos,
MG, em 1931, ela se mudou para Curitiba, PR, e teve a vida típica
de migrante: pobreza, dor, mendicância, marginalidade e
sofrimento. No entanto, um dia, quando estava na Praça Tiradentes
viu um objeto luminoso que parecia um lingote de ouro.
Aproximou-se, repleta
de ilusão, olhou com mais atenção e verificou que se tratava de
um papel laminado de bombom. Era, de fato, o envoltório de um
Sonho de Valsa, amassado e jogado na rua por algum transeunte. Foi
nesse momento que a vida de Efigênia mudou. Percebeu que era
possível transformar aqueles e outros restos que encontrava na
rua em objetos de arte.
Paralelamente,
desenvolveu uma habilidade ímpar para contar histórias e para
falar em versos. É o que ela mesma nos conta em seus versos: “Pelas
ruas isoladas/ ninguém me conhecia/ sentei lá na calçada/ e
declamei poesia”. Sua habilidade como repentista, somada ao
talento para trabalhar com objetos recolhidos na rua, levou-a a
participar da feira de artes que se realiza no centro histórico
de Curitiba. Em sua barraquinha, todo domingo, encanta os que
visitam o local. Ela cria narrativas a partir dos objetos que
vende e fala como a vida moderna e a tecnologia afastam o homem da
pureza da existência.
Efigênia já publicou
diversos livros repletos de poemas, que funcionam como autêntica
literatura de cordel. Num deles, O que é ser poeta, define como
é o seu trabalho com a palavra. Se acompanharmos as suas
definições, podemos entender como, a partir de papéis de bala,
bonecas velhas e retalhos, surgem objetos dos mais diversos
tamanhos e formas.
Para Efigênia, que já
esteve no Senado Federal, mostrando seu trabalho durante as
celebrações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, “ser
poeta é viver com alegria”. Por isso, cada visitante que se
aproxima é tratado como um ser único, que merece um atendimento
diferenciado.
Ser poeta também “é
ter amor no coração”. Baseada nessa afirmação, Efigênia
ironiza ainda o fato de ser constantemente considerada louca.
Contra essas críticas, que desvalorizam e rotulam o trabalho que
realiza, apresenta um discurso que gira em torno da intuição e
do amor. Suas roupas rasgadas, repletas de papel de bala e outras
bugigangas são o componente lúdico de quem não se preocupa com
a aparência, mas somente com a essência do ser humano.
Para Efigênia, ser
poeta significa “viver com simplicidade”, tendo, acima de
tudo, “amor pela vida” e sendo “livre do cativeiro”. Essa
prisão instituída pela sociedade é justamente o universo do
qual Efigênia tenta – e consegue – escapar. Sua resposta ao
mundo está em tomar tudo aquilo que é excluído – o lixo –
dando-lhe nova vida.
Viver a “vida de um
santo” é outra das definições que Efigênia dá ao trabalho
do poeta. Isso inclui o sofrimento e a luta para sobreviver.
Também engloba ter um algo a mais, um quê, um diferencial que
leve o artista a desempenhar a importante função social do
outsider, aquele que não se ajusta por ter uma visão de mundo
diferenciada.
Efigênia, enquanto
poeta, de acordo com suas próprias palavras, deveria “viver em
comunhão”, o que significa, provavelmente, estar em harmonia
com o mundo, com outras pessoas e com si mesma. A arte, para ela,
é uma maneira de enfrentar as dificuldades que passou.
Isso não significa que
Efigênia sairá se impondo agressivamente sobre os outros, mas
sim que construirá seu caminho a partir do próprio esforço,
como ela mesma aponta: “Um dia corri disparada/ não parava de
correr/ Correndo atrás de um nada/ o que ia acontecer/ Quanto
mais eu corria/ com grande imaginação/ Era minha alegria/ e
morria de emoção”.
Por oposição,
Efigênia, no livro citado, revela aquilo que não considera
próprio dos poetas, como “falar de poesia” (é muito melhor
fazer!), “chamar a atenção e ser reconhecida” (melhor é ter
amor pela vida!), “ter dinheiro ou pão, rezar em demasia (em
vez de praticar!), saber se calar ou viver entre glória”.
A simplicidade surge
então como a resposta mais plausível nesse universo em que a
criação artística é um momento de total liberdade. Efigênia
diz que ser “poeta é ter força para no alto chegar” e “sempre
lutar, saber levar a cruz e vencer com Jesus”. Nessa linha de
pensamento, “ser poeta é morrer e descansar” de um mundo que
parece não receber bem a arte ou tudo aquilo que é diferente ao
formalmente constituído.
Aquele que destoa da
chamada normalidade não poderia, no entanto, ser marginalizado,
pois, como escreve Efigênia, “Somos páginas fechadas/ que
devem ser abertas/ mesmo as coisas erradas/ muitos dizem que
estão certas”, ou ainda “Às vezes penso que o amor/ não
deixa eu morrer/ mesmo que eu sinta dor/ eu quero sempre viver”.
A arte de Efigênia se
dá por duas vias. Seus objetos, criados a partir do lixo,
desafiam a imaginação logo no primeiro contato, mas, quando
acompanhados pelos comentários em versos da repentista, ganham
nova dimensão. Ao conjugar esses dois fatores, a sucata e o papel
de bala tornam-se únicos, seja pela riqueza visual, pelas
conotações que propicia ou pela forma absolutamente original que
Efigênia encontra de trabalhar restos da realidade.
Efigênia não conhece
limites. É no sonho e na imaginação que se coloca seu
pensamento, muitas vezes confundido com loucura, poucas vezes
apontado como um caminho para uma nova forma de conhecimento. Cada
obra que realiza com sucata é uma reação ao mundo, uma resposta
ao que sofreu, um caminho para a extrema sabedoria.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).