Edu
das Águas
As imagens do Tietê
O filósofo Pascal (1623-1662), em seus Pensamentos, dizia
que “os rios são caminhos que andam e que nos levam aonde queremos
ir”. A máxima ilustra bem o trabalho plástico do pintor Edu das Águas,
que desenvolve um intenso trabalho de pesquisa plástica e imagética do
rio Tietê e do seu entorno.
Há nos trabalhos do artista dois elementos fundamentais: de um
lado, o amor pela temática que abraça; por outro, o desejo de se
aprimorar tecnicamente, que o leva ao estudo constante e à realização
de séries nas quais pode pesquisar mais e melhor um determinado ponto
de vista artístico.
Nascido em 1938, Edu foi criado num orfanato. Desde
criança, manifestou facilidade para o desenho. Conseguiu assim
se desenvolver na área e obteve trabalho no ramo de publicidade, como
desenhista. Com o passar dos anos, o desejo de aprimoramento o levou a
buscar novas técnicas, como a tinta acrílica.
Ex-ilustrador, diretor de arte e chefe de criação em diversas
agências de publicidade, um de seus temas preferidos sempre foi a água,
responsável pelas mais variadas tonalidades e possibilidades de
trabalho com luzes e cores. Como numerosos pintores, fez marinhas e
outras composições, mas, no início da década de 1990, passou a se
perguntar por que não pintava algo que estava tão próximo dele, na
cidade de São Paulo, o rio Tietê.
Morador
do bairro do Imirim, começou a levar seu cavalete, pincéis e tintas
para locais próximos às pontes do rio Tietê. Viveu, nessa prática
artística, numerosas aventuras, como assaltos, e certa, vez, até caiu
nas águas poluídas. Mas nunca desistiu, chegando a andar num
barquinho, de máscara, para não se intoxicar, na busca de material
imagético como ponto de partida de sua pintura.
Sua
maneira de mostrar o rio é diferente. Primeiro, pelo uso de cores
bastante intensas, como verdes, azuis e violetas. Segundo, pela predileção
das pinceladas largas, muito utilizadas principalmente na confecção de
diferentes tonalidades de céu, que se alternam de acordo com a hora do
dia.
Se
há muito de impressionista no fato de Edu das Águas pintar com o
cavalete fora do ateliê, também há traços expressionistas,
principalmente na forma de comandar
as pinceladas e pela preferência com cores puras, nem sempre
misturadas. O resultado é um trabalho com personalidade, que tem como
marca registrada a busca de novas visões do rio Tietê.
As
obras que buscam a revitalização do rio estão entre
as suas mais recentes preocupações. Além de pintar o rio e as
flores que existem no local, nem sempre vistas pela população, os
olhos de Edu se concentram, por exemplo, nos pilares dos viadutos que
cruzam o Tietê, assim como nas máquinas utilizadas para limpar o
local.
Há
ainda os trabalhos de menores dimensões em que eterniza os grupos de
trabalhadores anônimos que desempenham as mais diferentes funções,
desde aquelas mais especializadas, na área de engenharia, como as mais
simples, que incluem a limpeza das margens.
O
rio, como dizia Pascal, é um caminho que leva cada um ao seu próprio
destino. O de Edu das Águas é o da jornada pela arte. As imagens que
retira do Tietê o conduziram a criar um estilo próprio. Ele vê o rio
de um jeito diferente, único, peculiar e, acima de tudo, muito pessoal.
Embora Edu já tenha feito as ruas de Paraty, tendo até sido
premiado por isso, e cantores da MPB, entre outros temas, foi no rio que
encontrou a luz própria do seu trabalho, inclusive como campo de
experimentação. A água é o seu universo. Estudioso da luz, busca
compreender e captar as suas nuances ao longo do dia, colocando nas
telas pilares, barcos e barcaças utilizadas no trabalho e os
mencionados operários.
As pinceladas largas, com as quais consegue efeitos
principalmente no que diz respeito às tonalidades do céu, ganham assim
uma nova dimensão. O filósofo grego Heráclito dizia que “não podes
entrar duas vezes no mesmo rio”, já que a pessoa e o rio estão
sempre mudando. Analogamente, as centenas de quadros de Edu das Águas
sobre o rio Tietê nunca são os mesmos, pois a luz do ambiente e o
estado de espírito do artista também estão em constante mutação.
Edu das Águas, com sua visão lírica e realista do rio Tietê
oferece um espetáculo visual ímpar. Se a intensidade de suas cores
cria campos únicos de reflexão sobre a beleza do Tietê em seu
processo para se tornar navegável e fonte de possibilidades para o
turismo, como o Tâmisa, em Londres, ou o Sena, de Paris; as imagens
daqueles que ali trabalham com os equipamentos para tornar isso possível
constitui um registro histórico e pictórico ímpar, seja pelo
ineditismo na abordagem do tema, seja pela qualidade técnica do
trabalho apresentado e construído em 50 anos de pintura e 12 de
mergulho existencial do mais importante e famoso rio do Estado de São
Paulo.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).