por Oscar D'Ambrosio


 

 


Edu Cardoso

 

            Festa de imagens

 

            O circo é umas mais espontâneas e fascinantes manifestações culturais. Arte que ultrapassa os séculos, tem a capacidade de desafiar as fronteiras entre a realidade e a fantasia, tornando adultos em crianças e transportando a todos para um mundo mágico em que toda ruptura é permitida em nome da instauração de um clima fantástico.

Talvez seja justamente pela capacidade de transcender as fronteiras do real, que o universo do circo apaixona o pintor Edu Cardoso. Nascido em 30 de dezembro de 1981, na Estância Turística de Avaré, em São Paulo, ele pintou a sua primeira tela aos 9 anos e, desde então, não parou de aprimorar a sua técnica, tendo realizado alguns trabalhos acadêmicos e se aproximado, a partir de 2000, do surrealismo.

A riqueza das telas de Cardoso pode ser vislumbrada no todo ou no detalhe. Se pensarmos sob o primeiro aspecto, contemplamos belas imagens em que figuras circenses aparecem em ambientes inusitados, permeados pelo sonho e pela busca de formas de expressão em que elementos cotidianos, como gavetas, colocados em novos contextos, repletas de água ou em proporções inusitadas.

Quando deparamos com os detalhes de cada tela, as surpresas aumentam. É possível vislumbrar, por exemplo, a bandeira do alto da tenda de um circo dependurada de uma nuvem. No âmbito da técnica, o trabalho com sombras e reflexos na água apresenta um aprimoramento crescente.

Os rostos, geralmente tristes, de figuras às vezes solitárias, indicam como os personagens retratados estão sempre em busca de algo – seja de gerar um sorriso no espectador, seja de conseguir aquilo que elas almejam em telas onde os espaços vazios desempenham um papel fundamental para criar a atmosfera solitária dos retratados.  

Em imagens como a de um palhaço contemplando uma caravela em meio à bruma por meio de uma gigante fechadura, Cardoso comprova a sua capacidade de sugerir estados de espírito. O curioso é que uma gaivota é pintada no mesmo movimento de contemplação – à busca de algo que se perde na linha do horizonte.

 O artista alcança as suas melhores soluções estéticas quando trabalha com a verticalidade. É o caso de figuras de palhaços que têm velas nas pontas dos sapatos. Atinge-se assim um resultado estético que cativa à primeira vista pela capacidade de transportar o observador a novos mundos.

A busca por uma diferenciação está inclusive na assinatura de Edu Cardoso. Seu “E” reduzido a três traços horizontais, um colocado sobre o outro, aponta justamente para a pesquisa estética constante. Mesmo algumas imagens do jovem artista já presentes na história da arte, como as mencionadas gavetas, usadas por Salvador Dalí, entre outros, surgem nele de maneira renovada, em novos contextos.

Embora o circo esteja muito presente no trabalho de Edu Cardoso, os seus personagens não são aqueles palhaços comuns. Reúnem diversos aspectos da commedia dell’arte, forma de teatro que se originou na Renascença e floresceu entre os séculos XVI e XVIII e se caracterizava pelo uso de máscaras de figuras-padrão – como Arlequim Pantaleão, Brigulema e o Doutor – e mesmo do clown, tipo de palhaço que trabalha com poucos elementos de caracterização, tanto de maquiagem como de vestimenta.

            Autodidata, Edu Cardoso apresenta diversos elementos da arte intuitiva, principalmente pela criação de universos oníricos. A sua temática circense, com a presença de bobos da corte, ganha ainda mais mistério com o uso de cartas de baralho que ao serem disseminadas pelas telas, comprovam que a arte é, acima de um todo, um jogo criativo em que o único limite é o talento.   

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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óleo sobre tela - 80x100 cm -  2003

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