Edu Cardoso
Festa de imagens
O circo é umas mais espontâneas e fascinantes manifestações
culturais. Arte que ultrapassa os séculos, tem a capacidade de
desafiar as fronteiras entre a realidade e a fantasia, tornando
adultos em crianças e transportando a todos para um mundo mágico
em que toda ruptura é permitida em nome da instauração de um
clima fantástico.
Talvez
seja justamente pela capacidade de transcender as fronteiras do
real, que o universo do circo apaixona o pintor Edu Cardoso.
Nascido em 30 de dezembro de 1981, na Estância Turística de Avaré,
em São Paulo, ele pintou a sua primeira tela aos 9 anos e, desde
então, não parou de aprimorar a sua técnica, tendo realizado
alguns trabalhos acadêmicos e se aproximado, a partir de 2000, do
surrealismo.
A
riqueza das telas de Cardoso pode ser vislumbrada no todo ou no
detalhe. Se pensarmos sob o primeiro aspecto, contemplamos belas
imagens em que figuras circenses aparecem em ambientes inusitados,
permeados pelo sonho e pela busca de formas de expressão em que
elementos cotidianos, como gavetas, colocados em novos contextos,
repletas de água ou em proporções inusitadas.
Quando
deparamos com os detalhes de cada tela, as surpresas aumentam. É
possível vislumbrar, por exemplo, a bandeira do alto da tenda de
um circo dependurada de uma nuvem. No âmbito da técnica, o
trabalho com sombras e reflexos na água apresenta um
aprimoramento crescente.
Os
rostos, geralmente tristes, de figuras às vezes solitárias,
indicam como os personagens retratados estão sempre em busca de
algo – seja de gerar um sorriso no espectador, seja de conseguir
aquilo que elas almejam em telas onde os espaços vazios
desempenham um papel fundamental para criar a atmosfera solitária
dos retratados.
Em
imagens como a de um palhaço contemplando uma caravela em meio à
bruma por meio de uma gigante fechadura, Cardoso comprova a sua
capacidade de sugerir estados de espírito. O curioso é que uma
gaivota é pintada no mesmo movimento de contemplação – à
busca de algo que se perde na linha do horizonte.
O
artista alcança as suas melhores soluções estéticas quando
trabalha com a verticalidade. É o caso de figuras de palhaços
que têm velas nas pontas dos sapatos. Atinge-se assim um
resultado estético que cativa à primeira vista pela capacidade
de transportar o observador a novos mundos.
A
busca por uma diferenciação está inclusive na assinatura de Edu
Cardoso. Seu “E” reduzido a três traços horizontais, um
colocado sobre o outro, aponta justamente para a pesquisa estética
constante. Mesmo algumas imagens do jovem artista já presentes na
história da arte, como as mencionadas gavetas, usadas por
Salvador Dalí, entre outros, surgem nele de maneira renovada, em
novos contextos.
Embora
o circo esteja muito presente no trabalho de Edu Cardoso, os seus
personagens não são aqueles palhaços comuns. Reúnem diversos
aspectos da commedia dell’arte, forma de teatro que se
originou na Renascença e floresceu entre os séculos XVI e XVIII
e se caracterizava pelo uso de máscaras de figuras-padrão –
como Arlequim Pantaleão, Brigulema e o Doutor – e mesmo do clown,
tipo de palhaço que trabalha com poucos elementos de caracterização,
tanto de maquiagem como de vestimenta.
Autodidata,
Edu Cardoso apresenta diversos elementos da arte intuitiva,
principalmente pela criação de universos oníricos. A sua temática
circense, com a presença de bobos da corte, ganha ainda mais mistério
com o uso de cartas de baralho que ao serem disseminadas pelas
telas, comprovam que a arte é, acima de um todo, um jogo criativo
em que o único limite é o talento.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é
autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).