por Oscar D'Ambrosio


 

 


Eduardo Schamó

 

            Jogos possíveis

 

            O poeta inglês Lord Byron (1788-1824), em Don Juan, XIV, 12, escreveu “No jogo, você tem dois prazeres a sua escolha:/Um é ganhar, o outro é perder”. As pinturas e esculturas do artista Eduardo Schamó introduzem nessa afirmação um terceiro e fundamental elemento: o próprio prazer de jogar.

            Arquiteto argentino radicado no Brasil, Schamó tem como principais características de seu trabalho o ludismo e a criatividade. Suas obras não são feitas para ficar passivamente na parede em busca do olhar contemplativo do observador. Pelo contrário, ganham interesse justamente por exigir a participação de cada um que aceita entrar no jogo.

            O melhor é que as regras dessa mágica estética são livres. Suas pinturas, preferencialmente em negro, branco ou tons terrosos, trabalham texturas e elementos geométricos de modo a construir desafios visuais. Formas retangulares e círculos são articulados em composições volumétricas em que sempre se faz presente a idéia de alternar a posição dos elementos.

            Quando o artista cria trípticos, por exemplo, dá a sua sugestão de montagem, mas está implícito nas regras do jogo que cada um pode remontar o conjunto de acordo com o seu gosto e prazer. A grande norma onipresente é que não há limite nas possibilidades interpretativas e de intervenção em cada trabalho.

            Nas esculturas, feitas em boa parte a partir de objetos de isopor utilizados em embalagens de produtos de porte médio, como eletrodomésticos, surgem novos jogos. Entram elementos de pinturas, de colagem e de interferência, mas, acima de tudo, prevalece a capacidade de surpreender e de ironizar constantemente.

            Um dado fundamental é o contraponto entre o pesado e o leve. As peças, pelo processo de pintura e coloração, muitas vezes com um aparente envelhecimento fossilizador e com tons ferrugem, parecem pesadas, mas mantém a leveza do isopor. Além disso, elas podem ser tocadas e, nessa descoberta de texturas, instaura-se uma nova questão: a da dessacralização da arte e do artista.

            Obra e criador deixam de ser intocáveis e divinos para, assumidamente, apropriar-se do cotidiano e estabelecer, dentro do possível, situações inusitadas, novos desafios e possibilidades lúdicas de interação, como uma bolinha de gude prestes a escorregar pela empunhadura de uma colher.

            Marcel Duchamp, com seus ready-mades e sua postura de questionar o papel dos museus; Tapies, com sua eterna pesquisa com materiais; e Miró, com a busca pela liberdade de pintar com a ingenuidade de uma criança ou de um louco, são referenciais evidenciados nas pesquisas estéticas de Schamó.

            Quando elabora esculturas de parede, brinquedos a partir de sucata ou embalagens, objetos de uso cotidiano em situações insólitas ou pinturas em que não há um assunto figurativo – mas um outro grande tema: a própria arte de pintar e construir formas e texturas com os mais diversos materiais, desde a tinta acrílica a parafina, terra e outros elementos – o artista discute, com ludismo e sem sisudez,  a importância do próprio ato de criar.

            O jogo de possibilidades de Schamó, seja no trabalho pictórico ou na reutilização de sucata, começa no processo de criação, ganha força na obra em si mesma e se amplia infinitamente na recepção. O artista, de fato, não pertence à família daqueles que se contentam em concentrar energia para ver o quadro realizado. Seu grupo é outro.

Schamó se insere entre aqueles que só consideram a obra, de fato, funcionando quando o observador é mobilizado internamente a participar, seja pensando sobre ela ou colocando efetivamente a mão. A partir de suas pinturas e esculturas engenhosamente arquitetadas e construídas com o ludismo como pressuposto estético e a criatividade como força motriz, tudo é possível. O observador só não pode ficar estático ou indiferente. Ninguém perde ou ganha. No jogo proposto, o prazer está em jogar.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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 Strips 
83 cm x 55,5 cm Técnica mista. Massa corrida aplicada sobre um poster (chassi de madeira com placa de eucatex) e aplicações de fitas antiderrapantes (lixa) e papelão; pintado com tinta crílica e esmalte sintético de base de água 1998

Eduardo Schamó

 

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