Eduardo
Haesbaert
Cidades com alma
O escritor
simbolista belga Georges Rodenbach (1855-1898), em Brugues,
a morta, afirmou que “as cidades, sobretudo, têm assim a
sua personalidade, um espírito autônomo, um caráter quase
exteriorizado que corresponde à alegria, ao amor novo, à renúncia,
à viuvez. Toda cidade é um estado de alma e basta demorar-se
nela um pouco para que esse estado de alma se comunique, se nos
propague num fluido que se inocula e se incorpora com a nuança
do ar.”
Essas
palavras têm uma forte relação com a obra do gravador e
pintor Eduardo Haesbaert. Nascido em Faxinal do Soturno, Rio
Grande do Sul, em 1968, o artista apresenta um trabalho
caracterizado pela construção, em suas telas, de cidades fantásticas,
que levam o observador a realizar reflexões existenciais sobre
o próprio significado de uma urbe e, acima de tudo, sobre a
forma como elas são retratadas em termos de composição de
formas e cores.
O
primeiro fator que chama a atenção nos trabalhos de Haesbaert,
que iniciou a sua formação artística em Santana do
Livramento, em 1982, é o fato de ele construir seus perfis de
cidades sem a presença humana. Os pináculos surgem como lápis
com as pontas bem afiadas em direção ao céu.
Ocorre
ainda a presença dos pináculos com as silhuetas diluídas,
recurso que presta leveza a algumas composições. A justaposição
de cores utilizada nos corpos dos edifícios também contribui
para a criação de uma atmosfera misteriosa, até meio
simbolista, pois as cores, principalmente as mais escuras,
articulam-se pictoricamente de modo a gerar no imaginário do
observador diferentes edifícios, como igrejas, prefeituras ou
teatros.
As
telas, em suas dimensões, são horizontais, mas a verticalidade
se faz presente pela distribuição das cúpulas. Mais
importante, porém, do que imaginar como são essas cidades
imaginárias sem pessoas é verificar a competência técnica do
artista em sua elaboração.
Haesbaert,
que trabalhou como assistente e impressor de Iberê Camargo de
1990 a 1994, tendo já recebido diversos prêmios, utiliza
vermelhos, ocres e azuis de modo a dar a suas pinturas um
dinamismo interno impressionante. Traços que podem ser
confundidos com avenidas e pontes se fazem presentes como
recursos prontos a encantar o observador.
O
uso de tons mais quentes ou mais escuros no fundo do quadro são
fundamentais para criar a idéia de dia ou de noite. Assim, as
cidades, mesmo sem habitantes, tornam-se vivas. Pulsa nelas o
fato de terem sido erguidas pela mão humana, tanto em seu
sentido realista (cidades são feitas a partir de projetos
arquitetônicos e urbanísticos) como artístico (os quadros de
Haesbaert são a prova do poder de lidar com pincéis e tintas).
O
escritor francês André Suares (1868-1948), em Valores,
apontava que “as cidades são as paisagens mais belas. Os
monumentos mais belos são obra do homem e não da natureza. As
florestas são bem menos ricas do que os parques. A natureza é
apenas um pretexto para poesia, uma ocasião para o gênio”.
Algo
análogo com as cidades de Haesbaert. Elas são uma densa e bela
manifestação humana em si mesmas. Elas são protagonistas de
sua própria história. Existem como obras de arte com
personalidade ímpar. Oferecem a quem as contempla riqueza de
composição e ampla expressividade.
Há,
em cada cidade, retratos de almas e temperamentos.
Observando-as, vemos muito mais que traços e cores.
Contemplamos isso
quando conhecemos algumas delas ou quando conhecemos o talento
de Eduardo Haesbert. Suas criações não são frias visões
arquitetônicas, mas ricas e expressivas imagens da capacidade e
do poder humanos de elaborar, das mais variadas maneiras,
diversas visões de mundo. As cidades por ele imaginadas são
prova disso. Não se esgotam no figurativo nem caem na abstração
formal. Têm corpo e cabe a cada observador, com a própria
sensibilidade, as preencher de alma.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da
UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte
(AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando
a arte de Peticov (Noovha América) e Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).