por Oscar D'Ambrosio


 


Edson Lima

Os cajueiros que gritam

 

Há pintores que se consagram por trabalhar a partir de certos motes. Cezanne, por exemplo, pintou inúmeras vezes a colina de Sainte Victoire e Degas não se cansava de recriar bailarinas. Essa máxima não vale somente para a arte européia. O baiano Edson Lima faz o mesmo com suas inconfundíveis telas sobre cajueiros.

As árvores ocupam geralmente o centro da composição e, com suas raízes enormes e voluptuosas, parecem serpentes que saem da terra, deixando os seres humanos como meros coadjuvantes, numa escala de tamanho infinitamente menor perante a força existencial que emana dessas imagens que envolvem o leitor.

Os frutos, por sua vez, são grandes e coloridos, dando alegria e vivacidade aos quadros. Essas mesmas cores vibrantes e plenas aparecem em outros trabalhos do pintor que enfocam colheitas, festas populares e ingênuas corridas a cavalo no interior do País . Essa espontaneidade deve-se, em boa parte, ao fato de Edson não fazer esboços.

O artista pinta direto na tela e a preenche de acordo com a sua intuição e sensibilidade. De fato, o trabalho de Edson é bem artesanal, já que prefere comprar os tecidos e esticar as próprias telas, obtendo assim o suporte que julga mais adequado para suas cores e pinceladas que, em seus melhores cajueiros, aproximam-se das explosões expressionistas de um Van Gogh tropical.

Os temas de Edson (cajueiros, paisagens, boiadas, rios ou cachoeiras) são realistas, mas ganham, pelas mãos do artista, uma perspectiva lírica. Isso não significa que a alegria de seus quadros seja um espelho de sua biografia. As raízes retorcidas dos cajueiros, embora plenos de cores, denunciam um espírito que já passou por inúmeras dificuldades.

Nascido em Boa Nova, em 1936, numa família com 13 irmãos, e falecido, em 22 de agosto de 2000, Edson passou boa parte da infância na região fronteiriça entre os Estados de Espírito Santo e Minas Gerais, em cidades, respectivamente, como Montanha e Nanuque. Filho de agricultores, catou caroços de café, na Bahia, e, mais tarde, trabalhou em lavouras de feijão, milho e arroz, além de cuidar de porcos e carneiros.

Por volta de 1956, levado pelo sonho de guiar um trator e de melhorar de vida, conseguiu trabalhar como assistente de motorista numa empresa que cortava árvores de grande porte, como mogno, e abria estradas na região de Nanuque. Habituou-se então a carregar toras de madeira e aprendeu a realizar a conservação mecânica do trator. Não gostava, porém, daquela vida cheia de perigos de acidentes e até de picadas de cobra.

Ficou no emprego por dois anos. Depois, ao aprender o ofício de marceneiro, mostrou habilidade ao lidar com o serrote e ao aplainar madeira. Conseguiu assim, no Espírito Santo, trabalhar por conta própria e até hoje se orgulha de ter vendido alguns dos móveis que fez para outros Estados, como o Pará.

Mas, assim como muitos nordestinos nesse período, Edson não resistiu ao chamamento de São Paulo. Chegou à metrópole em 1963 e conseguiu emprego na Toshiba, trabalhando dois anos como lixador e marceneiro, sendo responsável pelo acabamento das caixas de televisores que começavam a se tornar um produto de consumo cada vez mais comum nos grandes centros brasileiros.

Ainda como marceneiro, obteve depois emprego na fábrica de móveis Artécnica. O proprietário, o espanhol José María Poller, era admirador de arte e mantinha uma galeria no centro da cidade. Essa foi a grande sorte de Edson. Seu destino mudaria a partir daí, deixando as madeiras para fazer arte com os pincéis.

Quando ia ao almoxarifado da empresa pegar materiais, como parafusos e pregos, Edson ficava contemplando os quadros com curiosidade, o que despertou a atenção da secretária da seção. Perguntou se ele era artista e se gostaria de levar os seus trabalhos para serem vistos pelos importantes críticos de arte que visitavam a galeria da empresa.

Até então, Edson tinha rabiscado no chão quando criança, feito desenhos em carvão e a lápis, além de ter trabalhado com nanquim e guache sobre cartolinas e panos brancos. Também esculpia estatuetas, mas não se considerava um artista. Entre seus temas, imagens de festas populares, paisagens, vaquejadas e cenas de roça.

Foi na galeria Artécnica que Edson Lima conheceu o professor da USP, político e crítico de arte Mário Schemberg. Ele logo reconheceu o talento do artista baiano. Disse-lhe que era um “primitivo autêntico” e que o Brasil precisava de pintores assim. Sob a orientação daquele que era conhecido como “professor dos professores”, o jovem artista comprou tintas e foi à luta, contando com o apoio, por exemplo, do jornalista e crítico de arte Quirino da Silva, do extinto periódico paulista Diário da Noite.

Edson, que chegou a morar em favelas, lembra até hoje como pintou sua primeira tela. Logo na primeira vez que lidou com óleo, tinta que utiliza até hoje, à luz de um candeeiro, num quarto apertado, criou uma igreja, com flores e pessoas em volta. Levou a tela à galeria Artécnica e, para sua alegria, ela foi colocada na vitrine e vendida para um cliente francês.

O mundo parecia estar à disposição do artista, então com aproximadamente 30 anos, mas a vida preparou surpresas. A Artécnica faliu e o artista baiano ficou à deriva. Seu refúgio estava na pessoa de Mário Schemberg, que havia prometido lançá-lo no mercado das artes, como fizera com um conterrâneo de Edson, o pintor Waldomiro de Deus.

Sem um endereço ou telefone de Schemberg, com a cara e a coragem, Edson Lima foi até o Palácio das Indústrias, no Parque Dom Pedro, onde então funcionava a Assembléia Legislativa Paulista. A busca foi árdua e lhe valeu uma indicação para tentar realizar uma exposição na galeria que a Folha de S. Paulo mantinha na sua sede, na Alameda Barão de Limeira.

Edson levou os trabalhos, que agradaram. Conseguiu então sua primeira individual. Era 1967, ano que marcava o início de uma carreira de mais de uma centena de exposições no Brasil, como uma individual, em 1988, na Sala do Artista Popular, do Instituto Nacional de Folclore, no Rio de Janeiro e, no exterior, onde participou, com grande sucesso, no mesmo ano, da “Primeira Exposição Contemporânea de Arte Primitiva”, em Tóquio, recebendo o Prêmio Bola de Cristal, concedido pela Princesa Michiko, no Palácio Imperial.

A carreira promissora, no entanto, enfrentou reveses. Um sério acidente de carro, um assalto traumatizante que o deixou entre a vida e a morte e um derrame, além de problemas de hipertensão da esposa e de um assalto sofrido pela filha em São Paulo, deixaram marcas e o levaram a escrever textos sobre essas experiências.

Edson chegou a sair de São Paulo. Voltou ao Espírito Santo para tentar a sorte como comerciante, mas não obteve sucesso. Seu negócio era a pintura e, por isso, retornou à capital paulista, pintando seus alegres cajueiros retorcidos, cenas de vida rural, bois, festas, frutos e raízes.

Dessas idas e vindas, ele conserva duas certezas: na casa de um autêntico pintor nunca podem faltar telas prontas para uma exposição e tintas. Mesmo quando estas endurecem, pela ação do tempo e da temperatura, Edson não se acanha. Com paciência e perseverança, vai desmanchando as tintas com suas pinceladas firmes e grossas.

O crítico Joseph Luyten já comparou Edson Lima a Waldomiro de Deus e a José Antônio da Silva, dois dos melhores naïfs nacionais, dizendo que sua obra será “tomada como referência de nossa época”. Exagero? Não, os girassóis e os ciprestes de Van Gogh e as mulheres de Picasso encontram seu correspondente nacional nos cajueiros de Edson Lima, que gritam, com cores felizes e dor retorcida, um hino à vida.



O autor é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP, 1999).

 

 

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