por Oscar D'Ambrosio


 

 



Edna de Araraquara

Os campos do Alentejo

Localizado ao sul de Portugal, o Alentejo, berço de poetas e cantores, e possuidor de uma gastronomia muito rica e especial, é uma vasta área de planícies com solo fértil, cuja economia se baseia na produção de cereais, girassóis, frutas, vegetais, azeitonas, cortiça e eucalipto, além da criação de ovelhas e suínos. Ironicamente, porém, sua expressão mais bela na pintura foi atingida por uma brasileira, a artista plástica Edna de Araraquara.
Tendo como principais cidades Beja, no Baixo Alentejo, e Évora, no Alto, a região se caracteriza pela sua riqueza em ruínas e prédios históricos, que testemunharam invasões e ocupações romanas e mouras, além de conflitos entre as casas reais portuguesas. No entanto, a pintora brasileira, radicada em Portugal, prefere concentrar o olhar sobre as paisagens da região.
Em quadros como Seara alentejana e Seara mostra, geralmente em telas em que predomina a horizontalidade, campos de trigo em cores vibrantes, céus em vários tons de azul e casas com chaminés. Os quadros retratam justamente as casas alentejanas típicas da exploração agrícola, ou seja, alojamentos que concentram trabalhadores, utensílios para uso no campo e produtos armazenados.
Essas casas, baixas, geralmente de tijolos ou pedra depois caiadas de branco, com piso ladrilhado, incluem cozinha e, no centro, uma lareira ou fornalha, que origina chaminés muito grandes e largas, ora circulares, ora poligonais, que enriquecem esse tipo de composição arquitetônica. Mostradas de longe nos quadros de Edna, essas imagens são marcas registradas de suas telas.
Mas Edna não se detém apenas nas paisagens. Também realiza trabalhos sobre os jarros alentejanos, ricamente decorados com paisagens ao fundo; ou ainda, como em Sinfonia Alentejana, realiza uma síntese do que a região tem de melhor: plantações, casas e barcos, que lançam sobre as águas uma esteira primaveril de flores.
Outro tema de agrado da pintora são os barcos de flores. Eles surgem espalhando uma colcha de cores quentes em diversas situações, seja no Alentejo ou, como ocorre em A chegada de Cabral ao Brasil, numa paisagem repleta de coqueiros e bananeiras, de tucanos e araras, com caravelas ao fundo.
Nascida em 1955, em Araraquara, Interior do Estado de São Paulo, Brasil, Edna, que tem nacionalidade portuguesa, teve o seu primeiro contato com a arte, aos 17 anos, quando, ao trabalhar em um escritório no antigo Prédio Martinelli, no centro velho de São Paulo, visitou o ateliê de pintura do artista Zé Cordeiro, que ficava em frente ao dela. "Era um local muito freqüentado e um dia fui espreitar os quadros e conhecer o pintor", conta. "A partir daquele momento, a minha vida se transformou e passei a me interessar muito pelas artes plásticas."
Edna passou então a freqüentar um ambiente totalmente voltado à pintura popular e naïf. Os dois se apaixonaram e vivem juntos até hoje, em Carcavelos, Portugal. Primeiro, os dois esse mudaram para o Rio de Janeiro "Fui estimulada a pintar pelo meu então marido Zé Cordeiro, e, em 1974, formos residir em Salvador, BA, no bairro da Saúde, onde meus dias eram dedicados inteiramente aos exercícios de desenho e aos pincéis", afirma.
Em 1976, o casal de muda para São Paulo, SP, próximo ao Largo do Arouche, e monta um ateliê de pintores, onde recebe visitas de artistas, como o catalão Miguel Abelá, Josinaldo, Waldomiro de Deus e o surrealista Walter Levy. Críticos de arte, poetas, jornalistas, políticos e ativistas de esquerda também freqüentavam essa casa.
Edna expõe pela primeira vez, no ano seguinte, a convite de João Delijacoiv Filho, assessor de cultura da prefeitura de São Bernardo do Campo - SP, na exposição coletiva "Mitos e Lendas do Brasil". Em 1979, muda-se para Santos, SP. O casal monta então um ateliê na Praia do José Menino, onde é "descoberta" pelo marchand e empresário Nilon Schiavinato, então proprietário da Bima Galeria de Arte.
A carreira internacional ocorreria na década de 1980. Em 1982, participa da primeira exposição na Europa, Mito e Magia del Colore, em Castel dell'Ovo, Nápoli, Itália. No ano seguinte, o casal se muda para Campinas, SP, onde abre um ateliê no Aeroporto Internacional de Viracopos, onde pintam os quadros que vendem logo em seguida.
Em 1984, Zé Cordeiro e Edna inauguram a Casa de Arte Brasileira, um misto de casa, ateliê, escola de arte e galeria de arte, que funcionou até 1990, trazendo grande vitalidade para arte da região de Campinas com numerosos encontros, palestras e atividades artísticas das mais variadas.
Novas exposições no exterior se sucedem, na Itália e no Canadá. Em 1987, vem um importante reconhecimento. A empresa estatal Infraero, levando em conta o destacado serviço de Cordeiro e Edna à cultura nacional, convida o casal a abrir a Casa de Arte Brasileira II, na sala VIP do Aeroporto de São Paulo, o maior da América Latina.
A convite da Unesco, em 1990, Edna viaja para Paris, junto com o marido Zé Cordeiro, para exporem na Maison da Unesco. Começa então um amplo período internacional, que inclui a residência em Roma, na capital francesa e exposições na Alemanha. No entanto, a paixão da artista recaiu sobre as paisagens do Minho e do Alentejo.
O amor a Portugal foi tão grande que inclui a doação de quadros para a esposa do então presidente Mario Soares, para que fossem leiloadas em eventos oficiais com renda dedicada a obras beneméritas. Paralelamente, novas conquistas, todas ao lado do marido, como a gerência, em 1992, da Galeria da Caixa da Arte, no Porto, e, no ano seguinte de um local próprio, a Galeria de Arte 245, além do lançamento do livro de Infante do Carmo, Aspectos das Artes Plásticas em Portugal.
Em 1996, representa Portugal na III Exposição de Mulheres Pintoras, em Estocolmo, Suécia, , recebendo o prêmio de menção especial, justamente com uma paisagem do Alentejo, tema em que Edna mostra suas maiores qualidades no domínio de tonalidades e harmonia de seus trabalhos. Consegue assim transmitir estados de intensa calma e equilíbrio, que são transferidos para quem olha seus quadros.
Em 1997, em Londres, ao expor junto com Zé Cordeiro, na Thompson's Art Gallery, a pintura de Edna foi denominada de Arte Ideossincrática, nome que até hoje a artista utiliza. No evento, ela vendeu todos os quadros, e ainda recebeu encomendas do príncipe árabe Ali Khan.
A arte de Edna ganhou, a partir desse momento, maior visibilidade internacional. Uma prova foi a sua seleção, em 1998, para expor na Lisboa Expo 98, em Individual a Dois, com o marido Zé Cordeiro, na galeria de Arte Pomar dos Artistas, mostra que divulgou muito o trabalho, pois recebeu grande atenção da mídia.
Em 2000, Edna recebeu o honroso convite para participar do I Fórum Internacional para a Cultura da Paz de Mulheres Criadoras do Mediterrâneo, realizado na Ilha de Rodes, na Grécia. Ela representou Portugal, sendo que 25 países participaram. "Cada um levou cinco mulheres, nas área de pintura,escultura, literatura, cinema e fotografia", conta. "Durante dez dias, houve conferências, debates e intensa troca de informações. Foi, sem dúvida, uma das experiências mais gratificantes que tive como artista."
Após participar de mais de 200 exposições, entre coletivas e individuais no Brasil, Portugal, Itália, França, Canadá, EUA, Suécia, Espanha, Inglaterra, Cabo Verde e Grécia, Edna de Araraquara já é um nome reconhecido. Mais do que isso, possui o poder de encantar pela forma como trabalha as cores. Suas telas, geralmente marcadas pela horizontalidade constroem paisagens plásticas que se aproximam do realismo fantástico pela inexistência, na maior parte dos casos, de figuras humanas.
O crítico Paulo Alarcão destacou, na obra de Edna, "a ênfase ao calor da paisagem", enquanto N. Lima de Carvalho ressalta o "encantamento e a singeleza". Ambos acentuam a riqueza cromática das paisagens da artista, em que amplas áreas vazias, casas alentejanas diminutas e a ausência de nuvens se articulam com centenas de flores diminutas, que dão vida aos seus trabalhos.
Há, em Edna, delicadeza, serenidade e poesia. Suas imagens do Alentejo colocam-se fora do tempo e num espaço onírico encantador. Os barcos com esteiras de flores, os campos de trigo do Alentejo e o predomínio da natureza conquistam desde o primeiro momento pela atmosfera criada, com amarelos quentes e diversas tonalidades de verde.
Para quem conhece o Alentejo, o trabalho de Edna é uma doce evocação. Para quem deseja visitar Portugal, é um convite irrecusável, uma porta de entrada para uma das regiões mais belas da península ibérica. Cada grão de trigo, flor sobre água ou casinha alentejana ganha, em suas telas novas dimensões plásticas.
Com sua arte diferenciada, seja pelo tema ou pelo colorido, Edna de Araraquara mostra que seu coração nasceu no Brasil, mas sua alma, cada vez mais portuguesa, está imersa nas inigualáveis paisagens que o Alentejo oferece aos seus moradores e visitantes. Esse ambiente privilegiado, nos pincéis de Edna, raia o conceito do divino, aquele patamar que todo ser humano sonha, mas só os verdadeiros artistas conseguem atingir.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio