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Edna de Araraquara
Os campos do Alentejo
Localizado ao sul de Portugal, o Alentejo, berço de poetas e
cantores, e possuidor de uma gastronomia muito rica e especial, é
uma vasta área de planícies com solo fértil, cuja economia se
baseia na produção de cereais, girassóis, frutas, vegetais,
azeitonas, cortiça e eucalipto, além da criação de ovelhas e
suínos. Ironicamente, porém, sua expressão mais bela na pintura
foi atingida por uma brasileira, a artista plástica Edna de
Araraquara.
Tendo como principais cidades Beja, no Baixo Alentejo, e Évora,
no Alto, a região se caracteriza pela sua riqueza em ruínas e
prédios históricos, que testemunharam invasões e ocupações
romanas e mouras, além de conflitos entre as casas reais
portuguesas. No entanto, a pintora brasileira, radicada em
Portugal, prefere concentrar o olhar sobre as paisagens da
região.
Em quadros como Seara alentejana e Seara mostra, geralmente em
telas em que predomina a horizontalidade, campos de trigo em cores
vibrantes, céus em vários tons de azul e casas com chaminés. Os
quadros retratam justamente as casas alentejanas típicas da
exploração agrícola, ou seja, alojamentos que concentram
trabalhadores, utensílios para uso no campo e produtos
armazenados.
Essas casas, baixas, geralmente de tijolos ou pedra depois caiadas
de branco, com piso ladrilhado, incluem cozinha e, no centro, uma
lareira ou fornalha, que origina chaminés muito grandes e largas,
ora circulares, ora poligonais, que enriquecem esse tipo de
composição arquitetônica. Mostradas de longe nos quadros de
Edna, essas imagens são marcas registradas de suas telas.
Mas Edna não se detém apenas nas paisagens. Também realiza
trabalhos sobre os jarros alentejanos, ricamente decorados com
paisagens ao fundo; ou ainda, como em Sinfonia Alentejana, realiza
uma síntese do que a região tem de melhor: plantações, casas e
barcos, que lançam sobre as águas uma esteira primaveril de
flores.
Outro tema de agrado da pintora são os barcos de flores. Eles
surgem espalhando uma colcha de cores quentes em diversas
situações, seja no Alentejo ou, como ocorre em A chegada de
Cabral ao Brasil, numa paisagem repleta de coqueiros e bananeiras,
de tucanos e araras, com caravelas ao fundo.
Nascida em 1955, em Araraquara, Interior do Estado de São Paulo,
Brasil, Edna, que tem nacionalidade portuguesa, teve o seu
primeiro contato com a arte, aos 17 anos, quando, ao trabalhar em
um escritório no antigo Prédio Martinelli, no centro velho de
São Paulo, visitou o ateliê de pintura do artista Zé Cordeiro,
que ficava em frente ao dela. "Era um local muito
freqüentado e um dia fui espreitar os quadros e conhecer o
pintor", conta. "A partir daquele momento, a minha vida
se transformou e passei a me interessar muito pelas artes
plásticas."
Edna passou então a freqüentar um ambiente totalmente voltado à
pintura popular e naïf. Os dois se apaixonaram e vivem juntos
até hoje, em Carcavelos, Portugal. Primeiro, os dois esse mudaram
para o Rio de Janeiro "Fui estimulada a pintar pelo meu
então marido Zé Cordeiro, e, em 1974, formos residir em
Salvador, BA, no bairro da Saúde, onde meus dias eram dedicados
inteiramente aos exercícios de desenho e aos pincéis",
afirma.
Em 1976, o casal de muda para São Paulo, SP, próximo ao Largo do
Arouche, e monta um ateliê de pintores, onde recebe visitas de
artistas, como o catalão Miguel Abelá, Josinaldo, Waldomiro de
Deus e o surrealista Walter Levy. Críticos de arte, poetas,
jornalistas, políticos e ativistas de esquerda também
freqüentavam essa casa.
Edna expõe pela primeira vez, no ano seguinte, a convite de João
Delijacoiv Filho, assessor de cultura da prefeitura de São
Bernardo do Campo - SP, na exposição coletiva "Mitos e
Lendas do Brasil". Em 1979, muda-se para Santos, SP. O casal
monta então um ateliê na Praia do José Menino, onde é
"descoberta" pelo marchand e empresário Nilon
Schiavinato, então proprietário da Bima Galeria de Arte.
A carreira internacional ocorreria na década de 1980. Em 1982,
participa da primeira exposição na Europa, Mito e Magia del
Colore, em Castel dell'Ovo, Nápoli, Itália. No ano seguinte, o
casal se muda para Campinas, SP, onde abre um ateliê no Aeroporto
Internacional de Viracopos, onde pintam os quadros que vendem logo
em seguida.
Em 1984, Zé Cordeiro e Edna inauguram a Casa de Arte Brasileira,
um misto de casa, ateliê, escola de arte e galeria de arte, que
funcionou até 1990, trazendo grande vitalidade para arte da
região de Campinas com numerosos encontros, palestras e
atividades artísticas das mais variadas.
Novas exposições no exterior se sucedem, na Itália e no
Canadá. Em 1987, vem um importante reconhecimento. A empresa
estatal Infraero, levando em conta o destacado serviço de
Cordeiro e Edna à cultura nacional, convida o casal a abrir a
Casa de Arte Brasileira II, na sala VIP do Aeroporto de São
Paulo, o maior da América Latina.
A convite da Unesco, em 1990, Edna viaja para Paris, junto com o
marido Zé Cordeiro, para exporem na Maison da Unesco. Começa
então um amplo período internacional, que inclui a residência
em Roma, na capital francesa e exposições na Alemanha. No
entanto, a paixão da artista recaiu sobre as paisagens do Minho e
do Alentejo.
O amor a Portugal foi tão grande que inclui a doação de quadros
para a esposa do então presidente Mario Soares, para que fossem
leiloadas em eventos oficiais com renda dedicada a obras
beneméritas. Paralelamente, novas conquistas, todas ao lado do
marido, como a gerência, em 1992, da Galeria da Caixa da Arte, no
Porto, e, no ano seguinte de um local próprio, a Galeria de Arte
245, além do lançamento do livro de Infante do Carmo, Aspectos
das Artes Plásticas em Portugal.
Em 1996, representa Portugal na III Exposição de Mulheres
Pintoras, em Estocolmo, Suécia, , recebendo o prêmio de menção
especial, justamente com uma paisagem do Alentejo, tema em que
Edna mostra suas maiores qualidades no domínio de tonalidades e
harmonia de seus trabalhos. Consegue assim transmitir estados de
intensa calma e equilíbrio, que são transferidos para quem olha
seus quadros.
Em 1997, em Londres, ao expor junto com Zé Cordeiro, na
Thompson's Art Gallery, a pintura de Edna foi denominada de Arte
Ideossincrática, nome que até hoje a artista utiliza. No evento,
ela vendeu todos os quadros, e ainda recebeu encomendas do
príncipe árabe Ali Khan.
A arte de Edna ganhou, a partir desse momento, maior visibilidade
internacional. Uma prova foi a sua seleção, em 1998, para expor
na Lisboa Expo 98, em Individual a Dois, com o marido Zé
Cordeiro, na galeria de Arte Pomar dos Artistas, mostra que
divulgou muito o trabalho, pois recebeu grande atenção da
mídia.
Em 2000, Edna recebeu o honroso convite para participar do I
Fórum Internacional para a Cultura da Paz de Mulheres Criadoras
do Mediterrâneo, realizado na Ilha de Rodes, na Grécia. Ela
representou Portugal, sendo que 25 países participaram.
"Cada um levou cinco mulheres, nas área de
pintura,escultura, literatura, cinema e fotografia", conta.
"Durante dez dias, houve conferências, debates e intensa
troca de informações. Foi, sem dúvida, uma das experiências
mais gratificantes que tive como artista."
Após participar de mais de 200 exposições, entre coletivas e
individuais no Brasil, Portugal, Itália, França, Canadá, EUA,
Suécia, Espanha, Inglaterra, Cabo Verde e Grécia, Edna de
Araraquara já é um nome reconhecido. Mais do que isso, possui o
poder de encantar pela forma como trabalha as cores. Suas telas,
geralmente marcadas pela horizontalidade constroem paisagens
plásticas que se aproximam do realismo fantástico pela
inexistência, na maior parte dos casos, de figuras humanas.
O crítico Paulo Alarcão destacou, na obra de Edna, "a
ênfase ao calor da paisagem", enquanto N. Lima de Carvalho
ressalta o "encantamento e a singeleza". Ambos acentuam
a riqueza cromática das paisagens da artista, em que amplas
áreas vazias, casas alentejanas diminutas e a ausência de nuvens
se articulam com centenas de flores diminutas, que dão vida aos
seus trabalhos.
Há, em Edna, delicadeza, serenidade e poesia. Suas imagens do
Alentejo colocam-se fora do tempo e num espaço onírico
encantador. Os barcos com esteiras de flores, os campos de trigo
do Alentejo e o predomínio da natureza conquistam desde o
primeiro momento pela atmosfera criada, com amarelos quentes e
diversas tonalidades de verde.
Para quem conhece o Alentejo, o trabalho de Edna é uma doce
evocação. Para quem deseja visitar Portugal, é um convite
irrecusável, uma porta de entrada para uma das regiões mais
belas da península ibérica. Cada grão de trigo, flor sobre
água ou casinha alentejana ganha, em suas telas novas dimensões
plásticas.
Com sua arte diferenciada, seja pelo tema ou pelo colorido, Edna
de Araraquara mostra que seu coração nasceu no Brasil, mas sua
alma, cada vez mais portuguesa, está imersa nas inigualáveis
paisagens que o Alentejo oferece aos seus moradores e visitantes.
Esse ambiente privilegiado, nos pincéis de Edna, raia o conceito
do divino, aquele patamar que todo ser humano sonha, mas só os
verdadeiros artistas conseguem atingir.
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Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).
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