por Oscar D'Ambrosio


 

 


   Eddy Tricerri: diálogo com Morandi

 

            Com um estilo depurado que o levou a desenvolver um estilo de sutis e infinitas variações de formas, cores e luzes a partir das imagens de garrafas e jarros, Giorgio Morandi (Bolonha, 20/07/1890 –18/06/1964) é um mestre na arte de retirar o máximo de um tema em busca do aprimoramento estético.

            Suas naturezas-mortas são marcos da história da arte pela coerência de tomar um assunto e explorá-lo às máximas conseqüências, visualizando nos detalhes a possibilidade de um aperfeiçoamento contínuo, que a arte se apresenta como um exercício sem limites.

            Ao realizar a exposição Meus objetos com Morandi, em 2008, no Circolo Italiano, em São Paulo, SP, a aquarelista Eddy Tricerri revisita objetos que lhe são caros, frutos de suas memórias íntimas, sob a óptica do artista italiano. Isso significa, no mínimo, duas releituras simultâneas que dialogam de modo a criar enigmas para o observador atento.

            Por um lado, existe a seleção das imagens feitas pela artista. Ela toma, por exemplo, o universo de seu ateliê, uma Madonna, um bule da tia, um pedaço de pão, uma cadeira de balanço ou um violino, mundo de lembranças pessoais muito peculiar, repleto de lembranças afetivas.

Por outro, há o processo de mergulhar no universo criativo de Morandi, marcado pela técnica aprimorada, pelos conjuntos tonais diferenciados e, em geral, pela verticalização. Eddy encontra nesses patamares plásticos a oportunidade de rever o próprio trabalho, de modo que suas lembranças se tornem uma pesquisa estética.

Os objetos pessoais da aquarelista são sim lidos pelos olhos de Morandi, mas com a pincelada de uma artista que tem na passagem da memória e na prática de se alimentar dela a matriz de seu processo poético. A principal marca dessa jornada é a delicadeza e a convicção de que sempre existe algo melhor a realizar.

            A pintura metafísica de Morandi, que tem parentesco com Giorgio de Cjirico e Carlo Carrà, recebem, com Eddy Tricerri, uma nova visão: a do lirismo e a da retomada de objetos por um viés delicado, íntimo e feminino. Cada imagem, em síntese, traz em si uma história.

            Além do exercício plástico, existe o contar de uma vida. Ela pode ser retomada na visão dos objetos de toucador, como frascos de perfume, ou em garrafas de vinho que não se esgotam no sentido meramente estético de cores e formas, mas portam uma narrativa leve, repleta de transparências, como a aquarela deve ser.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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