por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

E. Capobianco

O mistério das casas

Uma casa é muito mais do que uma mera moradia em que uma pessoa mora sozinha ou com a família. Ela se constitui um universo simbólico de segurança, sendo o local em que cada um de nós passa grande parte de sua vida. É na casa que recebemos amigos e é nela que numerosas experiências nos marcam para sempre.

Nascido em São Paulo, em 1918, o artista plástico Ernesto Capobianco é um mestre em retratar diversos tipos de casas, tanto favelas nos arredores da metrópole paulistana quanto residências rurais semi-abandonadas. Nos dois casos, verifica-se uma técnica apurada, em que logo chama a atenção o realismo das imagens e o extremo cuidado nos detalhes.

Um ingrediente especial das telas de Capobianco é o céu. Geralmente com nuvens entremeadas com um azul delicado, dá um certo tom diáfano às telas. As imagens precisas ganham uma dimensão poética, quase etérea, como se fossem residências do espírito, dignas de seres habitadas apenas por aqueles com alma pura.

O ser humano fica em segundo plano perante a arquitetura. Isso não significa que o artista despreze a humanidade, mas que a coloca como coadjuvante das mais diversas moradas. Uma parede mal caiada ou um caminho de terra que conduz ao morro merecem maior atenção por também denunciarem modos e condições de vida.

Há no trabalho de Capobianco um fundo sociológico e mesmo documental que pode passar despercebido num primeiro olhar. A observação atenta de uma casa é um caminho para conhecer parte da vida do morador. Marcas de umidade na parede, por exemplo, denunciam antigüidade ou falta de dinheiro para realizar uma reforma.

As telas de Capobianco conduzem a todas essas indagações sobre o significado de uma casa como espaço de indagações sobre a vida e mesmo sobre a morte. A imagem de uma favela ilustra bem esse aspecto. Se existe uma faceta documental no ato de mostrar barracos sobrepostos na encosta de um morro, há também uma excelente oportunidade para o artista utilizar o seu domínio técnico.

Os tons suaves, com predominância do marrom da madeira dos barracos, misturam-se com os da terra batida dos labirintos que levam de uma casa para outra, em composições bem idealizadas. Ao fundo, a silhueta de São Paulo, com seus principais edifícios, alerta para a diferença social que aumenta dia a dia entre o capital financeiro administrado na avenida paulista e no Centro Velho e a vida dos trabalhadores braçais e dos desempregados.

Essas indagações não são colocadas por Capobianco como um discurso artístico vinculado ao realismo socialista, mas como retratos de uma época, de um momento histórico delicado em que imagens de contraste social, quando bem realizadas, são mais eloqüentes do que horas de inóquo discurso político.

Se a temática é um casebre isolado em meio ao mato, abandonado e carcomido pelo tempo, as reflexões suscitadas pela tela não se alteram muito em seu conteúdo fundamental. A casa é a história de uma pessoa e o retrato de uma sociedade. Indicia como vive uma família e o lugar que ocupa na escala social.

E. Capobianco tem o raro talento de tornar cada casa um misterioso universo de conotações. Esmerada técnica, pincelada precisa, amor ao detalhe e extrema sensibilidade para cada aspecto dão a cada quadro um ar muito especial, numa mescla de realismo e simbolismo, em que a sugestão e o escondido predominam sobre o explícito e visível num instante inicial.

Telas dessa qualidade dizem muito mais do que aparentam numa olhada apressada. Se bem observadas, despertam um rio de reflexões sobre as denotações e conotações das casas que nos cercam, desde aquela em que moramos até aquelas que somente conhecemos pelas telas refinadas do artista paulista.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 


  

 

 

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