E. Capobianco
O mistério das casas
Uma casa é muito mais do que uma mera
moradia em que uma pessoa mora sozinha ou com a família. Ela se
constitui um universo simbólico de segurança, sendo o local em
que cada um de nós passa grande parte de sua vida. É na casa que
recebemos amigos e é nela que numerosas experiências nos marcam
para sempre.
Nascido em São Paulo, em 1918, o artista
plástico Ernesto Capobianco é um mestre em retratar diversos
tipos de casas, tanto favelas nos arredores da metrópole
paulistana quanto residências rurais semi-abandonadas. Nos dois
casos, verifica-se uma técnica apurada, em que logo chama a
atenção o realismo das imagens e o extremo cuidado nos detalhes.
Um ingrediente especial das telas de
Capobianco é o céu. Geralmente com nuvens entremeadas com um
azul delicado, dá um certo tom diáfano às telas. As imagens
precisas ganham uma dimensão poética, quase etérea, como se
fossem residências do espírito, dignas de seres habitadas apenas
por aqueles com alma pura.
O ser humano fica em segundo plano
perante a arquitetura. Isso não significa que o artista despreze
a humanidade, mas que a coloca como coadjuvante das mais diversas
moradas. Uma parede mal caiada ou um caminho de terra que conduz
ao morro merecem maior atenção por também denunciarem modos e
condições de vida.
Há no trabalho de Capobianco um fundo
sociológico e mesmo documental que pode passar despercebido num
primeiro olhar. A observação atenta de uma casa é um caminho
para conhecer parte da vida do morador. Marcas de umidade na
parede, por exemplo, denunciam antigüidade ou falta de dinheiro
para realizar uma reforma.
As telas de Capobianco conduzem a todas
essas indagações sobre o significado de uma casa como espaço de
indagações sobre a vida e mesmo sobre a morte. A imagem de uma
favela ilustra bem esse aspecto. Se existe uma faceta documental
no ato de mostrar barracos sobrepostos na encosta de um morro, há
também uma excelente oportunidade para o artista utilizar o seu
domínio técnico.
Os tons suaves, com predominância do
marrom da madeira dos barracos, misturam-se com os da terra batida
dos labirintos que levam de uma casa para outra, em composições
bem idealizadas. Ao fundo, a silhueta de São Paulo, com seus
principais edifícios, alerta para a diferença social que aumenta
dia a dia entre o capital financeiro administrado na avenida
paulista e no Centro Velho e a vida dos trabalhadores braçais e
dos desempregados.
Essas indagações não são colocadas
por Capobianco como um discurso artístico vinculado ao realismo
socialista, mas como retratos de uma época, de um momento
histórico delicado em que imagens de contraste social, quando bem
realizadas, são mais eloqüentes do que horas de inóquo discurso
político.
Se a temática é um casebre isolado em
meio ao mato, abandonado e carcomido pelo tempo, as reflexões
suscitadas pela tela não se alteram muito em seu conteúdo
fundamental. A casa é a história de uma pessoa e o retrato de
uma sociedade. Indicia como vive uma família e o lugar que ocupa
na escala social.
E. Capobianco tem o raro talento de
tornar cada casa um misterioso universo de conotações. Esmerada
técnica, pincelada precisa, amor ao detalhe e extrema
sensibilidade para cada aspecto dão a cada quadro um ar muito
especial, numa mescla de realismo e simbolismo, em que a sugestão
e o escondido predominam sobre o explícito e visível num
instante inicial.
Telas dessa qualidade dizem muito mais do
que aparentam numa olhada apressada. Se bem observadas, despertam
um rio de reflexões sobre as denotações e conotações das
casas que nos cercam, desde aquela em que moramos até aquelas que
somente conhecemos pelas telas refinadas do artista paulista.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)
e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp).