Dulcinéa
Brito
Um Brasil brasileiro
A multiplicidade do Brasil
é um desafio. Um caleidoscópio de imagens é oferecido ao
artista plástico que deseja conhecer melhor o País. Retirantes
nordestinos, maravilhosas praias tropicais e o cotidiano de
trabalhadores rurais são um rico universo de imagens prontas a
chamar a atenção do pintor que se proponha a utilizar as suas
telas, pincéis, formas e cores para redescobrir a Nação.
A artista baiana Dulcinéa
Brito está enfrentando esse desafio com muito talento. Seus traços
simples e seguros compõem imagens que são pequenas sínteses da
grandiosidade das paisagens e dos homens e mulheres brasileiros.
Reduzindo o desenho aos seus atributos mais indispensáveis, ela
consegue mostrar um Brasil que muitos fingem não existir,
ensimesmados com a fascinação da cidade grande.
Nascida
em 10 de fevereiro de 1954 em Alagoinhas, BA, neta da mãe-de-santo
"Siana", Dulcinéa começou a pintar aos dez anos.
"Por paixão e também para poder arrecadar o dinheiro necessário
à compra de material didático", afirma. Em 1972, Dulcinéa
foi para o Rio de Janeiro, onde conheceu a pintora Anna Maria
Maiolino. "Foi ela quem disse que meus desenhos não eram
‘rabiscos’ como eu os chamava, mas ‘arte pura", conta a
artista baiana.
Percebendo
o talento natural da jovem nordestina, Maiolino a convidou para
freqüentar um curso de pintura e litografia em seu ateliê e,
posteriormente, a contrata para trabalhar ali mesmo. Dulcinéa
permanece nessa atividade até 1976, quando viaja para a Itália.
Permanece dois anos e retorna ao seu trabalho com Maiolino.
Seguindo
os conselhos da mestra, Dulcinéa participou, em 1979, da sua
primeira exposição coletiva, organizada pela Associação
Brasileira de Desenho e de Imprensa, ganhando o terceiro lugar do
prêmio especial. "Devo muito a Anna e ao Rio de
Janeiro", agradece.
Ainda em 1979, a artista
baiana se transfere definitivamente para a Itália e, dois anos
depois, matricula-se na Academia de Belas Artes de Roma, onde freqüenta
a Escola Livre do Nu até 1983. Dois anos depois, casa-se na Itália
e continua sua atividade artística, participando de diversas
exposições coletivas e individuais, principalmente na Itália,
onde recebeu, em 1980, o Prêmio Internacional "Il Cenacolo",
da Galeria de Arte Moderna de Florença, e , em 1981, o Primeiro
Prêmio para o Naïf da ARCAR, em Roma.
Em 2000, a artista
realizou, com o tema "Brasil 500 anos", quatro exposições
individuais na Dinamarca, em cidades como Copenhague e Naestved.
“O prefeito desta última me deu os parabéns pelos trabalhos
sobre os 500 anos de Brasil e por ter pintado tão bem a minha
terra", relata a artista.
Embora Dulcinéa tenha essa
vivência européia, ela concebe a sua arte como algo simples e
puro. "Julgo a minha criatividade instintiva", afirma.
"A minha inspiração nasce das recordações da infância e
da adolescência e das minhas origens – o continente africano
– e da vida do povo brasileiro – suas alegrias, ‘suor e lágrimas."
As cores, as paisagens e a
luminosidade do Brasil são os focos do trabalho de Dulcinéa.
"Meus planos consistem em continuar pintando o meu ‘Brasil
brasileiro". Suas telas comportam justamente essa leitura
pelos temas escolhidos, que vão do carnaval do Rio de Janeiro aos
índios amazônicos.
A cultura afro-brasileira
também se faz presente no trabalho. "Sinto uma profunda atração
pelas suas paisagens, pela sua luz incandescente e pelo seu
povo", comenta. Essas temáticas são tratadas com diversas técnicas,
como tinta a óleo, acrílica, estamparia, nanquim e lápis de cor
e, atualmente, cerâmica e madeira.
Quanto ao seu estilo,
Dulcinéa conta que, em 1982, um crítico de arte, ao ver seus
quadros em uma coletiva lhe disse que ela era uma "falsa naïf",
argumentando que o seu trabalho na tela era naïf, mas isso não
se mantinha naqueles que tinham o papel como suporte.
Discussões
teóricas à parte, o traço da artista revela sempre uma grande
dose de simplicidade, optando sempre por soluções formais
características da arte ingênua quanto à presença de desproporções
e do escasso uso da perspectiva.
A
arte de Dulcinéa apresenta soluções aparentemente simples, mas
muito eficazes, para realizar denúncias. É o caso da tela
Amazonas, em que um índio com o corpo pintado observa dezenas de
troncos de árvores cortados. A imagem é clara e pungente, numa
bem realizada economia formal.
Outro
exemplo nesse sentido é Camponeses. Uma família de quatro
retirantes atravessa o quadro. Uma árvore à direita e outra à
esquerda dão um equilíbrio maior à tela que evocas cenas
brilhantemente descritas por Graciliano Ramos, em Vidas secas. Os
dois homens e as duas mulheres carregam seus poucos pertences em
meio ao sol inclemente. Sozinhos na tela, em que não há ponto de
partida ou de chegada, parecem caminhar de um grande vazio
existencial para um destino igualmente incerto.
A imagem do quadro
Lavadeira com criança se insere nesse mesmo conceito de um retrato em poucas
linhas do Brasil. A trabalhadora carrega a trouxa na cabeça e conduz o filho
pela mão, enquanto, ao fundo, a grande cidade é vislumbrada pela presença de
uma silhueta de edifícios.
Imagens de um
lavrador e de um pescador também integram o universo pictórico de Dulcinéa
Brito. Em ambos, predomina a simplicidade de traços. O primeiro é mostrado com
uma plantação ao fundo delineada com extrema singeleza; e o segundo é
reduzido a um homem atento com sua vara de pescar.
Cenas de Parati, no
Rio de Janeiro, de praias tropicais paradisíacas, do colorido folclore do
bumba-meu-boi e de fantasias de carnaval também integram a temática de Dulcinéa
Brito. Seu trabalho oferece assim uma síntese do País. Contemplar suas telas
é vislumbrar as numerosas facetas do "Brasil brasileiro" que ela
tanto gosta de retratar.
Oscar D’Ambrosio
é jornalista, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)
e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp).