D’Solrac
A poética do
movimento
O personagem Biron,
no ato I de Trabalhos
de amor perdidos, de Shakespeare, diz “A luz, buscando a luz,
desvia a luz da luz”. A frase, aparentemente enigmática,
transportada à pintura, permite entender melhor como a luz se torna
um elemento fundamental na construção de um quadro.
Um exemplo
está nas telas de D’Solrac. Nascido em
Colina, interior do Estado de São Paulo, suas pinturas se
caracterizam pela capacidade de criar realidades pictóricas em que a
cor e a luz são utilizadas de maneira nunca permitir a estaticidade
de suas imagens. Isso significa o domínio de recursos pictóricos em
que o movimento se faça presente ou, pelo menos sugerido.
O uso, por
exemplo, de zonas mais claras na parte superior central dos quadros
auxilia a criar esse efeito. Tal resultado surge do conhecimento de técnicas
de pintura e da busca de soluções para que seus trabalhos possam, de
uma maneira ou de outra, ser agradáveis ao público, mas sem perder
de vista que são objetos de arte, ou seja, demandam contínuo aperfeiçoamento
técnico.
Capas de
pintar as mais variadas temáticas, como carnaval, carros de competição,
esportes como futebol e surf, cenas de folclore, paisagens e retratos,
D’Solrac cria atmosferas marcadas por
uma estética que combina a luz e o uso da cor para a construção de
massas de tinta compactas e equilibradas.
Geralmente,
uma figura central determina a temática da tela, sendo, em seguida,
qualitativamente acrescida pelo movimento da pincelada. Principalmente
nos melhores trabalhos, ocorre a progressiva diluição das formas que
estão ao redor da figura principal, gerando-se assim um efeito de
sugestão de movimento.
Luz, cor e
movimento são associados por D’Solrac
numa linguagem própria e bem definida. Quanto mais o referente
concreto se dilui, mais a imagem ganha força e conquista o
observador. Surge, nesse processo, a participação do público que,
ao ver a tela, completa, na sua imaginação, o movimento sugerido
pelo artista paulista.
D’Solrac,
como apontava Shakespeare, vale-se da luz como um dos elementos a
descortinar o mundo. É justamente na capacidade de criar o dinamismo
em suas telas que o seu trabalho se destaca. Assim, as imagens de
carnaval que estabelece no universo de sua pintura ganham mais vida e
a riqueza de interpretações de cada imagem se multiplica.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da
UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo).