Douglas Drenkow
Estados da alma
Quando era criança, o menino Douglas
Drenkow tinha terríveis pesadelos. Os pais tentavam confortá-lo
e ele tinha dificuldade de expressar o que acontecia. Não sonhava
com monstros ou seres assustadores, mas via a si mesmo, deitado na
cama, dentro do quarto, sob novas perspectivas, escalas e
diferentes sensos de proporção.
Hoje, quando lembra disso, não só
aponta para a semelhança entre as cenas que via e Alice no país
das maravilhas, mas, principalmente, aponta que essa capacidade de
trabalhar com os mecanismos psicológicos da fantasia foi
fundamental em sua carreira de pintor.
Nascido em Lynwood, Califórnia, EUA,
em 1956, Douglas Drenkow estudou Ciências Biológicas na
Universidade da Califórnia e realizou infinitos estudos de formas
da natureza com macro e microscópios. Foi nesse período que
desenvolveu seu talento para a observação acurada e o desenho
cuidadoso.
Da fusão entre o pendor para a busca
de novas visões da realidade e o amor à ciência, nasceu a arte
de Drenkow, que ele mesmo classifica como neo-Barroca, o que
significa um trabalho muito consciente com as sombras, o que
permite criar uma forte tridimensionalidade, principalmente pelo
uso de linhas bem marcadas, que, embora inexistentes na natureza,
contribuem decisivamente para obter a sensação de profundidade.
Autodidata em pintura, Douglas chegou
ao atual domínio da tinta acrílica e do óleo pela leitura de
obras técnicas e por meio da experimentação. Confessa, no
entanto, que para lidar com a arte da linha, da forma, do espaço,
da cor e da composição seu caminho foi o estudo cuidadoso,
durante anos, dos Grandes Mestres da pintura, daqueles que os
influenciaram e daqueles que foram seus seguidores.
Entre os diversos mestres que costuma
mencionar, Drenkow considera Leonardo da Vinci, Ticiano e Rubens,
respectivamente, os maiores em inteligência, influência e
realizações técnicas bem-sucedidas. O título de maior de
todos, todavia, é concedido a Rembrandt, pela capacidade de
conciliar os aspectos internos aos externos de seus retratados.
A escolha não é surpresa levando em
conta que o artista norte-americano, a partir de 1996, dedicou-se
à arte do retrato. O fato que marcou essa mudança em sua vida
foi a inesperada morte da mãe. Após a perda, repleto de dor, ele
passou a olhar os álbuns de família e a valorizar as imagens –
fusão visível entre corpo e alma – daqueles que amava.
Visitas a Jardins Botânicos, que
recria assim como fazia Henri Rousseau, que se inspirava em
parques parisienses para imaginar florestas tropicais, a museus e
a centenas de sites na internet são algumas das fontes de
informação que Drenkow utiliza em seus trabalhos para atingir um
resultado que foge ao tradicionalismo do retratismo.
O grande dilema do especialista em
retratos é captar o espírito interno daquele que coloca na tela.
Isso significa que as obras do pintor norte-americano buscam dar
à imagem um sopro divino. Essa procura se torna ainda mais
presente quando o artista vive imerso em arte 24 horas diárias,
seja pintando, estudando ou pesquisando na internet como editor do
Portrait Painters no Open Directory Project.
A mente e os olhos de Drenkow
permanecem sempre atentos para aprimorar a sua técnica do
retrato. Nesse esforço construtivo de oferecer sempre o melhor,
algumas de suas telas apresentam dúzias de veladuras (camadas
translúcidas de tinta), numa técnica empregada por Ticiano.
Embora também admire a Alta
Renascença, o retratista não esconde a sua devoção aos
artistas barrocos, lembrando que a Igreja, durante a
Contra-Reforma, patrocinou diversos deles, esperando que,
impregnados de valores cristãos, combatessem o protestantismo.
Preenchendo altares, tetos, paredes e telas, eles transmitiam, com
o poder de sua arte, drama, cor e vida às igrejas.
Católico, o pintor utiliza, como
fonte de inspiração e proteção, a medalha de São Lucas,
considerado o patrono dos artistas, pois, segundo reza a
tradição, teria realizado retratos – até hoje não
encontrados – de Jesus e da Virgem Maria. Embora crítico em
relação aos dogmas da Igreja, Drenkow acredita que todo artista
busca a Verdade e, nesse sentido, cada retrato é, em última
análise a imagem de Deus.
Entre os retratistas, o artista
norte-americano se diferencia de seus contemporâneos por uma
maior liberdade estética em relação ao jogo entre a figura e o
fundo. Seu estilo neo-Barroco cria uma relação em que o
retratado e a paisagem interagem, dando vida à pessoa e movimento
à natureza.
Drenkow mostra que a arte do retrato
está no decifrar das almas, obtendo uma composição final que
agrada aos olhos, pelo resultado estético, e ao coração, pelo
sucesso no árduo desafio de transmitir, na dimensão plana da
tela, os mais diversos estados de alma de um retratado.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)
e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp).