O
dramaturgo e romancista suíço Frank Dürrenmatt, ao se referir
ao Dom Quixote, de Cervantes, disse que “Quixotes
devemos ser todos, se temos o coração no lugar certo e um
pouco de inteligência dentro do crânio”. A frase vale
perfeitamente para a exposição coletiva “Dom Quixote – 400
anos depois”, que abriu dia 19 de setembro na Panamericana
Escola de Arte e Design.
A
mostra reúne diversos artistas, professores e alunos para
interpretarem livremente um dos principais livros da história
da humanidade, cuja publicação da primeira parte celebra 400
anos em 2005. A partir da intenção explicita de ridicularizar
a moda dos romances de cavalaria, o escritor Miguel de Cervantes
construiu uma sátira que constitui uma metáfora da aventura
humana.
A
oposição e complementaridade entre Dom Quixote (a imaginação,
o idealismo aventureiro e o herói repleto de sonhos) e o fiel
escudeiro Sancho Pança (a concretude, o realismo burguês e o
bom senso prático) motivaram os participantes da exposição a
trabalhar os múltiplos temas presentes na obra do mestre
espanhol de diversas formas e com numerosas técnicas.
Como
o próprio Cervantes, no Capítulo XXI da Parte Primeira do Dom
Quixote, já alertava: “Sê breve em teus raciocínios, que a
ninguém agrada seres longo”, seria impossível comentar todos
os trabalhos. Fizemos então uma seleção de 12 deles, sobre os
quais faremos breves comentários.
Maurício
de Souza, por exemplo, realiza, em tela, um quadrinho, no qual
ironiza e relativiza o papel da própria literatura, pois a
questão que surge é sobre o próprio ato de narrar. Seria
Cervantes que coloca em Quixote as mais diversas facetas humanas
ou nós, leitores, que vemos em Quixote as nossas próprias histórias,
que Cervantes soube captar?
Ronaldo
Capaz, por sua vez, estabelece um elo entre o mundo da informática
e os personagens de Cervantes. A figura alongada de Quixote
corresponde ao um, enquanto o gordinho Sancho Pança, ao zero.
Na vida e na linguagem computacional, um necessita do outro para
sobreviver.
Massimo
Picchi faz a sua crítica social ao transformar a luta de
Quixote contra os moinhos de vento no combate entre um migrante
nordestino com tudo que o cerca numa metrópole. Além do
impacto visual, a obra carrega consigo os sonhos dos milhões de
Quixotes espalhados pela cidade.
Mario
Gruber, numa linha mais literal, oferece um trabalho pictórico
primoroso na imagem criada de Quixote e Pança. As figuras
brancas patinam pelo fundo preto e oferecem uma reflexão sobre
o eterno caminhar humano, sem ponto de partida ou de chegada
precisos.
O
mesmo dualismo surge em Kazuo Wakabayashi na forma de uma diálogo
entre oriente e ocidente. Os heróis espanhóis e ocidentais
recebem um tratamento pictórico oriental, no que diz respeito
ao uso das cores quentes, num encontro entre culturas
intrigante, pois Quixote e Sancho são postos numa cordilheira,
próximos ao despenhadeiro.
Gregório
Gruber coloca o “cavaleiro de triste figura” com o mundo
urbano ao fundo. Impossível deixar de imaginar qual seria o
comportamento do nobre personagem se tivesse que conviver com o
centro financeiro da Avenida Paulista ou com a multiplicidade
cultural e étnica de Manhattan.
Cazarré,
num raciocínio semelhante, trabalha a técnica do grafite sobre
compensado para mostrar Quixote em luta contra o símbolo do átomo,
numa alusão ao potencial de destruição das armas atômicas.
Mais do que isso, a expressividade
da cena revela que todos somos Quixotes no enfrentamento de um
mundo cada vez mais caótico.
Aprofundando
essa idéia, Rogério Martins faz um close do rosto do Quixote.
As cores vermelha e preta ganham espaço e são responsáveis
por um resultado em que a emoção salta aos olhos. O sangue do
personagem espanhol e o caminho das trevas em que todos estamos
imersos geram dramaticidade e dinamismo.
Fabio
Ferrero, com tinta hidrográfica e técnicas digitais, oferece a
oportunidade de conhecer um traço nervoso na criação de
diversas facetas do herói espanhol e universal. Sua silhueta e
expressividade surgem às vistas do espectador de diversas
maneiras, todas plenas de vivacidade e vigor plástico.
Giovanni
Bagnoli, ao colocar Quixote e Sancho no Rio de Janeiro revela
habilidade no lidar com as cores. A sua resposta ao desafio
proposto pelos organizadores revela, mais do que criatividade,
uma construção bastante preocupada com a forma da composição,
em que a temática fica quase em segundo plano perante uma busca
estética.
Marcos
F. Marinheiro, com a técnica da colagem, traz à tona um
Quixote que lembra algumas figuras de Salvador Dali ou
Giacometti. O esquálido cavaleiro mal é visto entre dezenas de
imagens, mas, ao mesmo tempo que se perde entre elas, ganha
relevância por estabelecer um domínio visual bem resolvido
sobre aquilo que o rodeia.
Finalmente,
mas não por isso menos importante, estão as esculturas com
chapas de aço de Antonio Vivancos. Interpretações diversas do
cavaleiro da “triste figura” e do seu cavalo Roncinante
ganham materialidade em jogos visuais que acentuam a
dramaticidade do personagem de Cervantes, que luta contra os
imaginários moinhos de vento de sua própria consciência.
No
Capítulo XXII da Parte Primeira do Quixote, Cervantes escreve
que “é de gente bem-nascida agradecer os benefícios
recebidos e um dos pecados que mais ofendem a Deus é a ingratidão”.
Assim, cabe a todos que freqüentarem a exposição na
Panamericana Escola de Arte ser gentil com os artistas que ali
mostram os seus trabalhos. Afinal, como alertava Dürrenmatt,
todos, cada qual a seu modo, apresentam os seus “benefícios”,
mostrando – principalmente os aqui citados – o que tem de
melhor em termos de coração e inteligência.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte
(AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a
arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp
e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).