por Oscar D'Ambrosio


 

 


Dolores Branco

 

            A senhora de dois mundos

 

            A poética do trabalho artístico de Dolores Branco apresenta duas vertentes igualmente ricas, ligadas a dois universos. De um lado, o lirismo e a afetividade de suas raízes em Santos. Do outro, a técnica aprendida e desenvolvida em Londrina. Na junção dos falares da alma com os do conhecimento artístico, surge um trabalho de densidade emotiva e domínio de materiais.

            A série intitulada Palafitas é a concretização desse andar pelos mundos da emoção e da razão. Inspiradas nas habitações construídas sobre estacas em Santos e Cubatão, SP, Dolores chegou a um resultado de cunho universal. Há nessas obras muito mais que a mera denúncia social. A maneira como desenvolve sua pintura evoca inclusive  a forma como trabalha as suas gravuras.

            Algumas soluções pictóricas, como os traços bem definidos e a predominância de alguns tons de negro e marrom, assim como a construção dos fundos, são técnicas que cabem perfeitamente no universo da gravura. Acima de tudo, cada tela revela a sensibilidade de enfocar um tema de grande magnitude e complexas relações de maneira direta.

            As palafitas de Dolores mostram uma condição social degradante. A artista soube como construir essa fragilidade na tela, de modo a causar grande impacto. Não é necessário mostrar as pessoas sofrendo. É evidente que seres humanos que vivem naquelas condições passam por momentos difíceis.

            Nascida em Santos, SP, em 10 de abril de 1939, estudou pintura, em São Paulo, SP, com Hamilton Pereira em 1968. A partir de 1977, recebe orientação do artista Paulo Menten e reside em Londrina, PR, desde o início dos anos 1980. Nos anos 1990, sua obra começa a ganhar destaque nacional e internacional, com trabalhos desenvolvidos em técnicas como pintura, diversos tipos de gravura, inclusive sobre alumínio, desenho, xilogravura, serigrafia, aquarela, escultura, cerâmica e trabalho com sucatas e latas amassadas.

            A diversidade estética de Dolores Branco é uma de suas riquezas. A maior, porém, está na temática das palafitas, tratada com originalidade e lirismo. O aprofundamento plástico, principalmente pelo diálogo com outras técnicas, leva à construção de imagens inesquecíveis, dignas de uma artista de dois mundos: o da memória afetiva e o da técnica cada vez mais apurada.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

 
 

 

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 Palafitas após incêndio 

acrílica sobre tela 60 x 40 cm sem data
Dolores Branco 

 

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