Dolores
Branco
A senhora de dois mundos
A poética do trabalho artístico
de Dolores Branco apresenta duas vertentes igualmente ricas,
ligadas a dois universos. De um lado, o lirismo e a afetividade de
suas raízes em Santos. Do outro, a técnica aprendida e
desenvolvida em Londrina. Na junção dos falares da alma com os
do conhecimento artístico, surge um trabalho de densidade emotiva
e domínio de materiais.
A série
intitulada Palafitas é a concretização desse andar pelos
mundos da emoção e da razão. Inspiradas nas habitações
construídas sobre estacas em Santos e Cubatão, SP, Dolores
chegou a um resultado de cunho universal. Há nessas obras muito
mais que a mera denúncia social. A maneira como desenvolve sua
pintura evoca inclusive a
forma como trabalha as suas gravuras.
Algumas
soluções pictóricas, como os traços bem definidos e a predominância
de alguns tons de negro e marrom, assim como a construção dos
fundos, são técnicas que cabem perfeitamente no universo da
gravura. Acima de tudo, cada tela revela a sensibilidade de
enfocar um tema de grande magnitude e complexas relações de
maneira direta.
As
palafitas de Dolores mostram uma condição social degradante. A
artista soube como construir essa fragilidade na tela, de modo a
causar grande impacto. Não é necessário mostrar as pessoas
sofrendo. É evidente que seres humanos que vivem naquelas condições
passam por momentos difíceis.
Nascida
em Santos, SP, em 10 de abril de 1939, estudou pintura, em São
Paulo, SP, com Hamilton Pereira em 1968. A partir de 1977, recebe
orientação do artista Paulo Menten e reside em Londrina, PR,
desde o início dos anos 1980. Nos anos 1990, sua obra começa a
ganhar destaque nacional e internacional, com trabalhos
desenvolvidos em técnicas como pintura, diversos tipos de
gravura, inclusive sobre alumínio, desenho, xilogravura,
serigrafia, aquarela, escultura, cerâmica e trabalho com sucatas
e latas amassadas.
A
diversidade estética de Dolores Branco é uma de suas riquezas. A
maior, porém, está na temática das palafitas, tratada com
originalidade e lirismo. O aprofundamento plástico,
principalmente pelo diálogo com outras técnicas, leva à construção
de imagens inesquecíveis, dignas de uma artista de dois mundos: o
da memória afetiva e o da técnica cada vez mais apurada.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes
da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando
a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo