As
dimensões dos cadernos
“Às vezes, enquanto o professor
falava, ela, intensa, nebulosa, fazia riscos simétricos no caderno”.
As palavras de Clarice Lispector, certamente uma das maiores bruxas da
palavra que já escreveram em língua portuguesa, ilustra boa parte das
ocorrências ao longo da disciplina “Oficinas Bidimensional e
Tridimensional I”, ministrada no segundo semestre de 2005.
A proposta
de projeto final do curso foi a elaboração e entrega de um caderno ou
objeto que reunisse os principais temas enfocados, que incluíram desde
as afinidades eletivas de cada um dos participantes até noções de
história da escultura e reflexões sobre mitos gregos como Eros e Psiqué.
O conceito
de “Oficina” engloba justamente a realização de algum objeto artístico.
E isso foi feito, dentro de uma proposta que buscava reunir os conteúdos
apresentados dentro da maior liberdade possível, mas sempre levando em
conta a idéia de Clarice da relação mágica entre o professor que
fala e o aluno que anota, recriando nesse processo duas visões ( a do
professor e a do aluno) para gerar uma terceira.
Assim, o
conceito de caderno extrapola o do dicionário de uma reunião de folhas
de papel cosidas, coladas ou grampeadas de maneira a servir como livro
de apontamentos e exercícios escolares para atingir uma esfera em que
predomine a luta de cada indivíduo para superar, com o seu engenho e
arte, os próprios limites da representação real, concebendo esse
esforço como a diferença entre aquilo que o mundo oferece e aquilo que
cada um deseja.
Desse embate
entre realidade e sonho, brota a arte. Assim, o grupo chegou a dez
trabalhos. Em termos de avaliação objetiva do resultado alcançado,
foram utilizados cinco critérios: criatividade (forma de apresentar o
trabalho final); fluência (condições de manuseio do material tendo em
vista o receptor); coerência interna (diálogo entre as linguagens
utilizadas para mostrar o trabalho); empatia (comunicabilidade com
aquele que lerá o trabalho); e adequação (respeito ao tema proposto).
Tendo isso
em vista, cada trabalho será objeto de um breve comentário no qual
esses critérios serão discutidos e apresentadas sugestões para que o
trabalho com os cadernos possa ser cada vez mais instigante para cada
integrante do grupo. Em termos da avaliação final, serão levados
ainda em conta dois critérios: vitória no desafio da “Máfia escultórica”,
na última aula do curso, e pontualidade na entrega.
Adriana
Emiliano, vencedora da jornada da ‘Máfia escultórica”, lúdico
desafio pelo universo de artistas e trabalhos bidimensionais, optou pela
entrega de um envelope pardo com a escrita da palavra “Coisa” em vários
idiomas. Dentro, sempre com giz de cera sobre papel, onze folhas de
sulfite, relativas a diversos aspectos do curso.
As folhas
soltas permitem maior mobilidade que o caderno, gerando uma leitura sem
uma direção previamente estabelecida. Em contrapartida, podem gerar no
receptor a equívoca tentativa de tentar encontrar nelas uma seqüência.
Tecnicamente, o uso do mesmo material revela coerência na apresentação,
mas corre o risco de dificultar pontos de união entre as pranchas
apresentadas.
A temática
proposta foi respeitada, levando em conta o plano bidimensional. Restou
apenas a indagação do potencial da proposta apresentada por Adriana
com a função de elementos tridimensionais. O conjunto mostra, sem dúvida,
quais as principais questões que permaneceram em sua mente e alma após
jornada pelo mundo da arte e da escultura. Talvez o uso de alguma forma
de manifestação verbal/escrita tivesse iluminado melhor algumas das
indagações que a produção deixa em aberto, principalmente para quem
não acompanhou o dia-a-dia da disciplina e não pode realizar certas
interferências.
Ana Luisa
Sirota de Azevedo, com seu caderno em tiras que homenageia explícita e
implicitamente Giacometti oferece uma solução criativa em termos de
formato. Discute diversos aspectos importantes para as obras
tridimensionais como a sua colocação no espaço e as diversas
possibilidades de leitura.
Os
desdobramentos do trabalho são tão numerosos quanto as formas de olhar
que podemos jogar sobre ele. Jesús Soto e Matisse, nas artes visuais, e
Cortazar e Borges, nas da palavras, são alguns dos homenageados, assim
como Henry Moore. Figuras como janelas e colibri se inserem tanto na temática
como na sua plasticidade, construindo
uma integração entre cores e técnicas em que a forma do
caderno alongado à Giacometti torna-se um amplo campo de experimentação
de ilimitadas possibilidades.
Como
observação construtiva, vale ressaltar que o recurso da dobradura dos
textos talvez pudesse ser suprimido em função do uso do texto na própria
forma alongada do caderno, que exige um discurso diferenciado, pronto a
ser questionado, inclusive, como suporte da palavra escrita de uma forma
tradicional.
Ana
Luiza Guarnieri Christ optou pelo caderno em formato de espiral
com significativa capa, inicia a jornada pela escolha de Matisse e
prossegue a viagem por Henry Moore, Gaudí e diversos outros artistas.
Uma questão a ser discutida é a utilização de legendas explicativas
dos artistas escolhidos no verso das páginas e do uso nem sempre de um
recurso consistente nesse mesmo espaço.
A
partir da visita da artista plástica Eliane Góes foram produzidos dois
dos trabalhos mais significativos do conjunto. Com o uso de técnicas
diversificadas de amplo impacto visual. A escolha por deixar as páginas
em branco, talvez como forma de dizer que o trabalho será ininterrupto
também pode ser motivo de maior investigação e pesquisa no
futuro.
Betina
Raquel de Carvalho Bossan valorizou o trabalho, também num caderno de
forma espiral, com duas primeiras páginas de alto impacto visual, em
que a composição, o colorido e a integração entre imagem e texto
alcançam elevada empatia com o observador. O fato de deixar as páginas
do verso em branco, porém, contribui para a quebra de ritmo, assim como
a presença às vezes preponderante do texto em alguns momentos.
A certa
altura, o trabalho perde o fôlego, sendo retomado em seguida, como na
leitura bem-humorada de Afrodite e Eros no Palácio Encantado. Talvez se
o caderno como um todo
tivesse acompanhado o teor plástico das primeiras páginas, o resultado
do conjunto poderia ter sido mais significativo, principalmente pela
capacidade de Betina de oferecer novas soluções para assuntos
aparentemente repetitivos.
Cindy
Quaglio, com o seu caderno “Minhas afinidades eletivas” limitou sua
abordagem a uma parte do conjunto proposto. Optou-se por uma versão
mais discursiva marcada pelas escolhas pessoais. A presença de ícones
como Artaud, Rogério Sganzerla, Butô, Teatro Nô, Oiticica e Lígia
Clark demonstra um universo bem definido de pensamento.
Cabe
ressaltar, nesse universo, apenas alguma frases que mereceriam maior
discussão antes de colocadas com tamanha veemência, como chamar
pintura e escultura de “velhas categorias de arte”. Uma argumentação
mais sólida deveria ser utilizada antes de consolidar esse pensamento.
De fato,
para ser coerente com essa postura, o próprio caderno apresentado
deveria ter um formato que pusesse em choque e xeque a visão
bidimensional e tridimensional até hoje utilizada. É curioso, nesse
aspecto, que o trabalho tenha uma prevalência do discursivo
-- com alguns erros de língua portuguesa – e que se valha de
um suporte tradicional, com um grande número de citações e,
proporcionalmente, poucos textos da própria lavra.
Fátima
Barreira Costa Lima realizou um trabalho que superou em alguns aspectos
as expectativas, embora tenha problemas de adequação com o tema
proposto. Inicialmente, ela não fez um caderno dentro da acepção aqui
proposta, mas um livro de extrema competência técnica, funcionalidade
de leitura (no mínimo em suas direções) e simbolismo.
A utilização
de basicamente duas cores (preto e branco) gerou a criação de um clima
de dramaticidade e lirismo que se realiza a cada página. Existe uma
grande coerência em termos da unidade proposta pela fusão entre texto
e imagem e mesmo na escolha de um suporte mais resistente.
Como objeto
estético, embora tenha fugido em diversas facetas ao proposto, surge
como uma obra acabada, pronta a ser exposta em diversos contextos, muito
mais como objeto e como livro do que como caderno, com uma reunião de
conotações em que vida, morte e seus caminhos/descaminhos norteiam uma
reflexão sobre o ser humano e sua agonia de andar sozinho ou
acompanhado pela existência.
Fernanda
Sanchez Fernandes construiu uma série de conjuntos de pequenos
cadernos. Entregues na criativa e até esplendorosa forma de um grande
pacote, constituem blocos das atividades desenvolvidas durante o
semestre. Há até um índice e cada grupo de pranchas – cada uma em
trabalho diferenciado – refere-se a um tópico.
A utilização
de imagens com o uso freqüente de textos que funcionam como grafismo
apresentam grande relevância estética, mas podem não ser
bem-sucedidos quando se pensa em mostrá-los para alguém que não
conhece os conteúdos que os motivaram. O inegável impacto visual,
nesse sentido, perde um pouco o seu vigor.
Outro
problema estrutural é que, ao se desfazer o pacote, tirando os laços
de cada conjunto, torna-se praticamente impossível reconstruir o todo.
Seria obra de uma única leitura? Penso que essa questão deveria ser
repensada para permitir renovadas leituras do objeto. Talvez pistas à
Cortazar, indicando caminhos e possibilidades recomendáveis pudesse ser
uma alternativa.
O
ritmo estético também foi quebrado pela entrega à parte, via e-mail,
de textos e imagens de três escultores selecionados. Essa parte do
trabalho não se integrou ao conjunto e prejudicou o resultado final em
termos de um objeto a ser mostrado como um universo plástico
internamente coerente
Maira
Cristina Cussolim inicia o seu caderno, em espiral, dobrado na forma
vertical, com uma delicada e lírica capa. Sua jornada, na qual utiliza
frente e verso, vale-se, no começo, de imagens e textos que dialogam
entre si. Progressivamente, a imagem vai desaparecendo e cedendo espaço
apenas ao texto.
Talvez tenha
faltado um pouco de ousadia na composição do conjunto, embora o
caderno seja marcado por opiniões diretas e sinceras, o que não é
pouco no panorama hipócrita e de “igrejinhas” da arte contemporânea,
onde muitos fingem que fazem e a maioria finge que entende.
O recurso de
deixar páginas em branco aponta para a possibilidade de continuidade do
trabalho, o que pode render várias surpresas, pois Maira apresenta o
perfil de um vulcão em potencial erupção, do qual pode sair lava e
pedras preciosas em diversos tipos de manifestações.
Roberta
Fialho de Abreu escolheu o caminho mais simples e mais perigoso. Não
decidiu por um novo caderno, mas entregou, como trabalho final, o próprio
espaço visual que utiliza para a suas anotações. Isso traz vantagens
e desvantagens. Se dá autenticidade ao trabalho, por ter o frescor da
naturalidade daquilo que foi feito durante o processo, traz, em
contrapartida, uma não observância de certos requisitos, como um
mergulho mais denso nas afinidades eletivas.
Embora
presentes, é evidente que Roberta poderia tê-las explorado em toda a
sua potencialidade. De fato, o caderno atinge um nível adequado na fusão
de textos e imagens, mas fica aquém como registro plástico, inclusive
pela possibilidade do uso de textos anexos que integraram o curso e não
surgem com toda a sua potencialidade de elementos geradores de reflexão
no caderno.
Como
convidada especial, Glaucia Gomes entregou a sua caixinha de memórias.
Parte de seu cérebro da qual se alimenta, contém imagens recortadas
feita pela tia e imagens dos mais variados artistas, como Portinari,
Farnese de Andrade, Oscar Niemayer, Tomie Ohtake, Pancetti, Moore e
Tolaouse-Lautrec.
No ato de
olhar essas imagens, surge a nutrição de trabalhos passados, futuros e
presentes. São elas que indicam caminhos já percorridos, trilhas às
vezes perigosas e sendas ainda não desvendadas, que podem resultar em
obras-primas ou instigantes pesquisas. A caixa, apresentada na cor lilás,
curiosamente ligada ao sacrifício e à espiritualidade, indica o
potencial de Glaucia e boa parte de seu universo mental.
O que está
na caixa está em sua mente e gera a necessidade da produção
incessante. Saber selecionar o que, como e quando fazer é uma jornada
individual que exige tempo e escolhas. Não é possível estar em todo
lugar ao mesmo tempo. Verificar o que será usado de cada caixinha
mental é um desafio – e desempenhar-se bem nele torna o trabalho mais
rico, denso e maduro.
Em síntese,
a jornada pelos cadernos e suas dimensões é um passeio pelas nossas
mentes. Monica Andréa Teixeira de Barros e Elizabeth Firmino Pereira
que participaram de parte da jornada e, por motivos diferentes, não a
completaram, também construíram os seus próprios cadernos mentais.
Afinal, em
última análise, como alertava Clarice Lispector, construir o caderno
em si mesmo talvez seja o mais simples. Saber ler o que está nele é um
segundo momento. E refletir sobre a potencialidade de cada pessoa que
decide levar esses dois passos à frente oferece um desafio ainda maior.
Passar por ele pode ou não ter alguma função pedagógica e artística,
mas, tenho certeza, de uma forma ou de outra, engrandece a quem o cria,
a quem o lê e aquém o interpreta em termos de uma atividade passada,
que revela um presente e pode ajudar a ler um futuro.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, é
mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus
de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a
arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).