por Oscar D'Ambrosio


 

 


As dimensões dos cadernos

 

            “Às vezes, enquanto o professor falava, ela, intensa, nebulosa, fazia riscos simétricos no caderno”. As palavras de Clarice Lispector, certamente uma das maiores bruxas da palavra que já escreveram em língua portuguesa, ilustra boa parte das ocorrências ao longo da disciplina “Oficinas Bidimensional e Tridimensional I”, ministrada no segundo semestre de 2005.

            A proposta de projeto final do curso foi a elaboração e entrega de um caderno ou objeto que reunisse os principais temas enfocados, que incluíram desde as afinidades eletivas de cada um dos participantes até noções de história da escultura e reflexões sobre mitos gregos como Eros e Psiqué.

            O conceito de “Oficina” engloba justamente a realização de algum objeto artístico. E isso foi feito, dentro de uma proposta que buscava reunir os conteúdos apresentados dentro da maior liberdade possível, mas sempre levando em conta a idéia de Clarice da relação mágica entre o professor que fala e o aluno que anota, recriando nesse processo duas visões ( a do professor e a do aluno) para gerar uma terceira.

            Assim, o conceito de caderno extrapola o do dicionário de uma reunião de folhas de papel cosidas, coladas ou grampeadas de maneira a servir como livro de apontamentos e exercícios escolares para atingir uma esfera em que predomine a luta de cada indivíduo para superar, com o seu engenho e arte, os próprios limites da representação real, concebendo esse esforço como a diferença entre aquilo que o mundo oferece e aquilo que cada um deseja.

            Desse embate entre realidade e sonho, brota a arte. Assim, o grupo chegou a dez trabalhos. Em termos de avaliação objetiva do resultado alcançado, foram utilizados cinco critérios: criatividade (forma de apresentar o trabalho final); fluência (condições de manuseio do material tendo em vista o receptor); coerência interna (diálogo entre as linguagens utilizadas para mostrar o trabalho); empatia (comunicabilidade com aquele que lerá o trabalho); e adequação (respeito ao tema proposto).

            Tendo isso em vista, cada trabalho será objeto de um breve comentário no qual esses critérios serão discutidos e apresentadas sugestões para que o trabalho com os cadernos possa ser cada vez mais instigante para cada integrante do grupo. Em termos da avaliação final, serão levados ainda em conta dois critérios: vitória no desafio da “Máfia escultórica”, na última aula do curso, e pontualidade na entrega.

            Adriana Emiliano, vencedora da jornada da ‘Máfia escultórica”, lúdico desafio pelo universo de artistas e trabalhos bidimensionais, optou pela entrega de um envelope pardo com a escrita da palavra “Coisa” em vários idiomas. Dentro, sempre com giz de cera sobre papel, onze folhas de sulfite, relativas a diversos aspectos do curso.

            As folhas soltas permitem maior mobilidade que o caderno, gerando uma leitura sem uma direção previamente estabelecida. Em contrapartida, podem gerar no receptor a equívoca tentativa de tentar encontrar nelas uma seqüência. Tecnicamente, o uso do mesmo material revela coerência na apresentação, mas corre o risco de dificultar pontos de união entre as pranchas apresentadas.

            A temática proposta foi respeitada, levando em conta o plano bidimensional. Restou apenas a indagação do potencial da proposta apresentada por Adriana com a função de elementos tridimensionais. O conjunto mostra, sem dúvida, quais as principais questões que permaneceram em sua mente e alma após jornada pelo mundo da arte e da escultura. Talvez o uso de alguma forma de manifestação verbal/escrita tivesse iluminado melhor algumas das indagações que a produção deixa em aberto, principalmente para quem não acompanhou o dia-a-dia da disciplina e não pode realizar certas interferências.

            Ana Luisa Sirota de Azevedo, com seu caderno em tiras que homenageia explícita e implicitamente Giacometti oferece uma solução criativa em termos de formato. Discute diversos aspectos importantes para as obras tridimensionais como a sua colocação no espaço e as diversas possibilidades de leitura.

            Os desdobramentos do trabalho são tão numerosos quanto as formas de olhar que podemos jogar sobre ele. Jesús Soto e Matisse, nas artes visuais, e Cortazar e Borges, nas da palavras, são alguns dos homenageados, assim como Henry Moore. Figuras como janelas e colibri se inserem tanto na temática como na sua plasticidade, construindo  uma integração entre cores e técnicas em que a forma do caderno alongado à Giacometti torna-se um amplo campo de experimentação de ilimitadas possibilidades.

Como observação construtiva, vale ressaltar que o recurso da dobradura dos textos talvez pudesse ser suprimido em função do uso do texto na própria forma alongada do caderno, que exige um discurso diferenciado, pronto a ser questionado, inclusive, como suporte da palavra escrita de uma forma tradicional.

Ana  Luiza Guarnieri Christ optou pelo caderno em formato de espiral com significativa capa, inicia a jornada pela escolha de Matisse e prossegue a viagem por Henry Moore, Gaudí e diversos outros artistas. Uma questão a ser discutida é a utilização de legendas explicativas dos artistas escolhidos no verso das páginas e do uso nem sempre de um recurso consistente nesse mesmo espaço.

A partir da visita da artista plástica Eliane Góes foram produzidos dois dos trabalhos mais significativos do conjunto. Com o uso de técnicas diversificadas de amplo impacto visual. A escolha por deixar as páginas em branco, talvez como forma de dizer que o trabalho será ininterrupto também pode ser motivo de maior investigação e pesquisa no  futuro.

            Betina Raquel de Carvalho Bossan valorizou o trabalho, também num caderno de forma espiral, com duas primeiras páginas de alto impacto visual, em que a composição, o colorido e a integração entre imagem e texto alcançam elevada empatia com o observador. O fato de deixar as páginas do verso em branco, porém, contribui para a quebra de ritmo, assim como a presença às vezes preponderante do texto em alguns momentos.

            A certa altura, o trabalho perde o fôlego, sendo retomado em seguida, como na leitura bem-humorada de Afrodite e Eros no Palácio Encantado. Talvez se o  caderno como um todo tivesse acompanhado o teor plástico das primeiras páginas, o resultado do conjunto poderia ter sido mais significativo, principalmente pela capacidade de Betina de oferecer novas soluções para assuntos aparentemente repetitivos.

            Cindy Quaglio, com o seu caderno “Minhas afinidades eletivas” limitou sua abordagem a uma parte do conjunto proposto. Optou-se por uma versão mais discursiva marcada pelas escolhas pessoais. A presença de ícones como Artaud, Rogério Sganzerla, Butô, Teatro Nô, Oiticica e Lígia Clark demonstra um universo bem definido de pensamento.

            Cabe ressaltar, nesse universo, apenas alguma frases que mereceriam maior discussão antes de colocadas com tamanha veemência, como chamar pintura e escultura de “velhas categorias de arte”. Uma argumentação mais sólida deveria ser utilizada antes de consolidar esse pensamento.

            De fato, para ser coerente com essa postura, o próprio caderno apresentado deveria ter um formato que pusesse em choque e xeque a visão bidimensional e tridimensional até hoje utilizada. É curioso, nesse aspecto, que o trabalho tenha uma prevalência do discursivo  -- com alguns erros de língua portuguesa – e que se valha de um suporte tradicional, com um grande número de citações e, proporcionalmente, poucos textos da própria lavra.

            Fátima Barreira Costa Lima realizou um trabalho que superou em alguns aspectos as expectativas, embora tenha problemas de adequação com o tema proposto. Inicialmente, ela não fez um caderno dentro da acepção aqui proposta, mas um livro de extrema competência técnica, funcionalidade de leitura (no mínimo em suas direções) e simbolismo.

            A utilização de basicamente duas cores (preto e branco) gerou a criação de um clima de dramaticidade e lirismo que se realiza a cada página. Existe uma grande coerência em termos da unidade proposta pela fusão entre texto e imagem e mesmo na escolha de um suporte mais resistente.

            Como objeto estético, embora tenha fugido em diversas facetas ao proposto, surge como uma obra acabada, pronta a ser exposta em diversos contextos, muito mais como objeto e como livro do que como caderno, com uma reunião de conotações em que vida, morte e seus caminhos/descaminhos norteiam uma reflexão sobre o ser humano e sua agonia de andar sozinho ou acompanhado pela existência.

            Fernanda Sanchez Fernandes construiu uma série de conjuntos de pequenos cadernos. Entregues na criativa e até esplendorosa forma de um grande pacote, constituem blocos das atividades desenvolvidas durante o semestre. Há até um índice e cada grupo de pranchas – cada uma em trabalho diferenciado – refere-se a um tópico.

            A utilização de imagens com o uso freqüente de textos que funcionam como grafismo apresentam grande relevância estética, mas podem não ser bem-sucedidos quando se pensa em mostrá-los para alguém que não conhece os conteúdos que os motivaram. O inegável impacto visual, nesse sentido, perde um pouco o seu vigor.

            Outro problema estrutural é que, ao se desfazer o pacote, tirando os laços de cada conjunto, torna-se praticamente impossível reconstruir o todo. Seria obra de uma única leitura? Penso que essa questão deveria ser repensada para permitir renovadas leituras do objeto. Talvez pistas à Cortazar, indicando caminhos e possibilidades recomendáveis pudesse ser uma alternativa.

O ritmo estético também foi quebrado pela entrega à parte, via e-mail, de textos e imagens de três escultores selecionados. Essa parte do trabalho não se integrou ao conjunto e prejudicou o resultado final em termos de um objeto a ser mostrado como um universo plástico internamente coerente

            Maira Cristina Cussolim inicia o seu caderno, em espiral, dobrado na forma vertical, com uma delicada e lírica capa. Sua jornada, na qual utiliza frente e verso, vale-se, no começo, de imagens e textos que dialogam entre si. Progressivamente, a imagem vai desaparecendo e cedendo espaço apenas ao texto.

            Talvez tenha faltado um pouco de ousadia na composição do conjunto, embora o caderno seja marcado por opiniões diretas e sinceras, o que não é pouco no panorama hipócrita e de “igrejinhas” da arte contemporânea, onde muitos fingem que fazem e a maioria finge que entende.

            O recurso de deixar páginas em branco aponta para a possibilidade de continuidade do trabalho, o que pode render várias surpresas, pois Maira apresenta o perfil de um vulcão em potencial erupção, do qual pode sair lava e pedras preciosas em diversos tipos de manifestações.

            Roberta Fialho de Abreu escolheu o caminho mais simples e mais perigoso. Não decidiu por um novo caderno, mas entregou, como trabalho final, o próprio espaço visual que utiliza para a suas anotações. Isso traz vantagens e desvantagens. Se dá autenticidade ao trabalho, por ter o frescor da naturalidade daquilo que foi feito durante o processo, traz, em contrapartida, uma não observância de certos requisitos, como um mergulho mais denso nas afinidades eletivas.

            Embora presentes, é evidente que Roberta poderia tê-las explorado em toda a sua potencialidade. De fato, o caderno atinge um nível adequado na fusão de textos e imagens, mas fica aquém como registro plástico, inclusive pela possibilidade do uso de textos anexos que integraram o curso e não surgem com toda a sua potencialidade de elementos geradores de reflexão no caderno.

            Como convidada especial, Glaucia Gomes entregou a sua caixinha de memórias. Parte de seu cérebro da qual se alimenta, contém imagens recortadas feita pela tia e imagens dos mais variados artistas, como Portinari, Farnese de Andrade, Oscar Niemayer, Tomie Ohtake, Pancetti, Moore e Tolaouse-Lautrec.

            No ato de olhar essas imagens, surge a nutrição de trabalhos passados, futuros e presentes. São elas que indicam caminhos já percorridos, trilhas às vezes perigosas e sendas ainda não desvendadas, que podem resultar em obras-primas ou instigantes pesquisas. A caixa, apresentada na cor lilás, curiosamente ligada ao sacrifício e à espiritualidade, indica o potencial de Glaucia e boa parte de seu universo mental.

            O que está na caixa está em sua mente e gera a necessidade da produção incessante. Saber selecionar o que, como e quando fazer é uma jornada individual que exige tempo e escolhas. Não é possível estar em todo lugar ao mesmo tempo. Verificar o que será usado de cada caixinha mental é um desafio – e desempenhar-se bem nele torna o trabalho mais rico, denso e maduro.

            Em síntese, a jornada pelos cadernos e suas dimensões é um passeio pelas nossas mentes. Monica Andréa Teixeira de Barros e Elizabeth Firmino Pereira que participaram de parte da jornada e, por motivos diferentes, não a completaram, também construíram os seus próprios cadernos mentais.

            Afinal, em última análise, como alertava Clarice Lispector, construir o caderno em si mesmo talvez seja o mais simples. Saber ler o que está nele é um segundo momento. E refletir sobre a potencialidade de cada pessoa que decide levar esses dois passos à frente oferece um desafio ainda maior. Passar por ele pode ou não ter alguma função pedagógica e artística, mas, tenho certeza, de uma forma ou de outra, engrandece a quem o cria, a quem o lê e aquém o interpreta em termos de uma atividade passada, que revela um presente e pode ajudar a ler um futuro.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

 

 

 

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