por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Os cinco dilemas do artista

 

Romancistas, poetas, ensaístas, pintores, músicos, atores e professores em sala de aula enfrentam o mesmo desafio: cativar seu público. Palavras, cores e formas, notas musicais ou gestos tornam-se meios de atingir o mesmo objetivo. No entanto, a utilização desses recursos arrosta alguns dilemas. Supera-los significa o primeiro passo rumo a uma manifestação que possibilite interação com o público.

Cinco dilemas parecem ganhar relevância nessa relação entre criador, criatura e fruidor. O primeiro trata da escolha entre o CORAÇÃO e o INTELECTO. Embora existam os defensores da arte formal fria e calculista, a história prova que as maiores realizações provém do coração. O artista só deve escrever, pintar, esculpir ou representar se isto lhe for absolutamente essencial, se cada gesto seu equivale ao ar que respira; e cada pincelada, ou palavra, à água que bebe. O artista burocrático cumpre horários; o verdadeiro não conhece tempo ou espaço limitadores.

Os grandes artistas transformam cada segundo ou espaço em um infinito de emoções e cativam o público porque o transportam além das rígidas medidas de um palco ou de uma tela. Criam então um tempo próprio que manipulam livremente, conduzindo a imaginação e os sonhos dos espectadores por lugares aparentemente inimagináveis.

O segundo dilema é uma decorrência do primeiro. Trata da relação entre o SENTIR e o PESQUISAR. Se o coração domina a razão, os sentimentos prevalecem sobre a pesquisa. Por mais intelectual que seja um trabalho, a empatia com o público só é alcançada se houver uma harmonia de sentimentos. Isto significa uma sintonia entre o que o artista nos oferece e o que o público espera.

Assim como uma pesquisa de mercado é frágil perante o sentimento cotidiano das ruas, uma pesquisa acadêmica é pobre se seu autor não sentir o como e o porquê de uma determinada obra. Por isso, cabe ao artista escolher bem o tema antes de desenvolvê-lo. Se aquilo não lhe for essencial, a temperatura de sua obra será gélida, sem vida. E, sem paixão, sem sentimento, o próprio talento permanece congelado no “freezer” da mediocridade.

A escolha entre o OUVIR e o FALAR comporta um terceiro dilema. Parece paradoxal, mas ouvir encerra um grande talento. Ser receptivo às críticas é o ideal da sabedoria no Oriente, simbolizada pelo elefante, animal com vastas orelhas e ínfima boca. A boa arte fala pouco e se faz ouvir ou sentir. É simples, mas provoca discussão. Causa polêmica por abordar o óbvio de forma inusitada. O artista não deve justificar sua obra, mas ser uma caixa de ressonância. Ouvindo muito, pacientemente, saberá os melhores caminhos a seguir. Seu coração e sentimentos o orientarão. Quem fala muito pode ser por ter receio de ouvir os apelos e lamentos do próprio coração amargurado.

Como quarto dilema, há a escolha entre o FAZER e o DIZER. Poucos resistem à tentação de explicar o que fazem. Basta fazer. Cabe ao público analisar. Explicar a própria obra é como ditar uma receita de bolo. Nada substitui saboreá-lo. Existe sempre um toque pessoal na obra de cada artista.

Fazer somente quando for essencial diferencia o artista autêntico do esporádico. Arte não é produção em série com hora marcada e período de criação determinado. Surge quando brota de uma necessidade interior inadiável. Ter algo autêntico para fazer é o primeiro passo para fazê-lo honestamente. Por isso, os modismos passam, e a grande arte permanece.

Finalmente, o dilema entre o EXEMPLIFICAR e o EXPLICAR. A teoria em si mesma é estéril. Só vale a pena quando faz encruzilhada com o mundo concreto. Basta ler Shakespeare pela primeira vez, para reconhecer seu talento ou ver Picasso, mesmo que seja de relance, para sentir a presença de algo excepcional. Explicá-los, ajuda a compreendê-los melhor, mas o primeiro impacto é o que fica. E este provém do coração, do sentimento e da obra feita, não do intelecto, da pesquisa e da crítica de arte.

Ler Drummond, Mario de Andrade, Bandeira ou Machado de Assis, e contemplar Michelangelo, El Greco, Goya, Salvador Dalí ou Jackson Pollock basta. Eles atingem, assim como todo artista competente, cada qual à sua maneira, o grande ideal da realização artística: criam palavras e imagens que o coração capta e transforma em esperanças e ilusões.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).


 

 

 

 

 

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