por Oscar D'Ambrosio


 

 


Dila

 

            A poética do detalhe

 

            Há artistas plásticos que impressionam pela maneira de trabalhar o conjunto de suas obras. Outros fascinam pela capacidade de transformar cada mínimo detalhe num universo de possibilidades e num primor estético. Existe ainda um terceiro grupo, que se vale do detalhe bem realizado para obter um efeito coletivo encantador.

            A pintora maranhense Dila pertence a esse terceiro grupo. Nesse jogo de saber lidar com o detalhe em benefício da composição do todo, dois elementos se destacam: a maneira como trabalha as folhagens das árvores e o resultado plástico alcançado pela forma apurada de reprodução dos azulejos das paredes de ambientes como bordéis ou bares antigos.

            Dila, cujo nome completo é Dileusa Dinis Rodrigues, nasceu em Humberto Campos, Maranhão, em 1939, e iniciou a carreira de pintora em 1968, quando já residia em São Paulo. Naquele mesmo ano, realizou as duas primeiras exposições individuais. A partir dos anos 1970, mostrou seu trabalho em importantes exposições coletivas em diversos países. Retornou ao seu Estado natal, residindo agora em São Luiz.

            Essa vivência faz com que a artista domine tanto o mundo urbano como rural. Por um lado, é capaz de pintar atmosferas como do corte de cana ou da colheita de algodão, enfatizando os jogos cromáticos, respectivamente, de verde e amarelo, e de branco e verde com presenças dispersas e bem colocadas de cores mais quentes como vermelho e laranja.

            Há ainda outro aspecto enriquecedor da arte de Dila: o universo da cidade. Visões que mesclam o lirismo e a sensualidade apontam para composições em que uma árvore é colocada do lado direito e uma residência, à esquerda, com mulheres de fartos seios sugeridos em amplos decotes observam atentamente.

            O tratamento pictórico dado às paredes dessas casas revela refinamento, paciência e consciência do que significa o ofício de pintar. Cada detalhe é feito sem se perder a noção do conjunto da tela. O resultado revela-se harmônico e lírico. O observador não pode, se realmente gostar de pintura, se ater apenas à cena retratada, mas é sutilmente convidado a verificar a forma pela qual Dila responde pictoricamente ao desafio que se dispôs enfrentar.

            Se as paredes são um primor em termos de resultado estético, as folhagens das árvores são um capítulo à parte. Trata-se não só de observar os detalhes de cada composição, mas as tonalidades de verde que a artista atinge. Há ainda mais um elemento a valorizar essas obras. Muitas vezes, figuras humanas, do tronco para cima, surgem entre as árvores apanhando frutas como pitomba ou manga rosa.

            A pintora Dila estabelece o seu lugar na arte brasileira justamente pela maneira como trabalha seus temas. Une o detalhe delicado e precioso a um senso de equilíbrio global, que torna cada quadro uma festa para os olhos e uma delícia para os sentidos. Isso é atingido pela maneira elaborada de compor cores e formas, num resultado que cativa desde o primeiro momento e gera uma admiração que só aumenta a cada olhar mais atento.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

 

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  Apanhadores de pitomba 
óleo sobre tela 80 x100 cm sem título


Dila

 

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