Dila
A poética do detalhe
Há artistas plásticos que
impressionam pela maneira de trabalhar o conjunto de suas obras.
Outros fascinam pela capacidade de transformar cada mínimo
detalhe num universo de possibilidades e num primor estético.
Existe ainda um terceiro grupo, que se vale do detalhe bem
realizado para obter um efeito coletivo encantador.
A
pintora maranhense Dila pertence a esse terceiro grupo. Nesse jogo
de saber lidar com o detalhe em benefício da composição do
todo, dois elementos se destacam: a maneira como trabalha as
folhagens das árvores e o resultado plástico alcançado pela
forma apurada de reprodução dos azulejos das paredes de
ambientes como bordéis ou bares antigos.
Dila,
cujo nome completo é Dileusa Dinis Rodrigues, nasceu em Humberto
Campos, Maranhão, em 1939, e iniciou a carreira de pintora em
1968, quando já residia em São Paulo. Naquele mesmo ano,
realizou as duas primeiras exposições individuais. A partir dos
anos 1970, mostrou seu trabalho em importantes exposições
coletivas em diversos países. Retornou ao seu Estado natal,
residindo agora em São Luiz.
Essa
vivência faz com que a artista domine tanto o mundo urbano como
rural. Por um lado, é capaz de pintar atmosferas como do corte de
cana ou da colheita de algodão, enfatizando os jogos cromáticos,
respectivamente, de verde e amarelo, e de branco e verde com
presenças dispersas e bem colocadas de cores mais quentes como
vermelho e laranja.
Há
ainda outro aspecto enriquecedor da arte de Dila: o universo da
cidade. Visões que mesclam o lirismo e a sensualidade apontam
para composições em que uma árvore é colocada do lado direito
e uma residência, à esquerda, com mulheres de fartos seios
sugeridos em amplos decotes observam atentamente.
O
tratamento pictórico dado às paredes dessas casas revela
refinamento, paciência e consciência do que significa o ofício
de pintar. Cada detalhe é feito sem se perder a noção do
conjunto da tela. O resultado revela-se harmônico e lírico. O
observador não pode, se realmente gostar de pintura, se ater
apenas à cena retratada, mas é sutilmente convidado a verificar
a forma pela qual Dila responde pictoricamente ao desafio que se
dispôs enfrentar.
Se as
paredes são um primor em termos de resultado estético, as
folhagens das árvores são um capítulo à parte. Trata-se não só
de observar os detalhes de cada composição, mas as tonalidades
de verde que a artista atinge. Há ainda mais um elemento a
valorizar essas obras. Muitas vezes, figuras humanas, do tronco
para cima, surgem entre as árvores apanhando frutas como pitomba
ou manga rosa.
A
pintora Dila estabelece o seu lugar na arte brasileira justamente
pela maneira como trabalha seus temas. Une o detalhe delicado e
precioso a um senso de equilíbrio global, que torna cada quadro
uma festa para os olhos e uma delícia para os sentidos. Isso é
atingido pela maneira elaborada de compor cores e formas, num
resultado que cativa desde o primeiro momento e gera uma admiração
que só aumenta a cada olhar mais atento.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor
naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo).