Dieter
Ruckhaberle
O
universo da expressão
“Qualquer
que seja a coisa que se quer dizer, só há uma palavra para
exprimi-la, um verbo para animá-la e um adjetivo para qualificá-la”.
As palavras do escritor francês Maupassant (1850-1893), em Pedro
e João, aplicam-se perfeitamente ao impacto visual e estético
que as imagens do artista plástico alemão Dieter Ruckhaberle
provocam.
É
impossível ficar indiferente. Sente-se a necessidade de dizer
alguma coisa, mas as palavras fogem justamente por que aquilo
que vimos é pleno em expressividade. Uma obra chamada Um
quadro vermelho, por exemplo, nos surpreende com manchas
verdes, azuis, cinzas e pretas em combinações muito pessoais.
O
universo do artista alemão, nascido em Sttugart, em 1938,
apresenta, em linhas gerais, traços expressionistas. Mas essa definição
soa simplista perante o seu conjunto de obras. Se Flores,
detalhe do jardim convida ao diálogo entre imagens mais
figurativas à esquerda da tela e traços abstratos à direita, Morto
gera uma reflexão existencial sobre os limites da vida.
O
termo expressionista pode ser aplicado sem receio à obra de
Ruckhaberle se o pensarmos no seu sentido mais amplo, como reverência
a um artista que expressa na tela uma visão interior e própria
do mundo. Assim, vem aos nossos olhos imagens como Um outro
detalhe do Jardim do Paraíso, no qual o verde e o azul
predominam para criar uma atmosfera em que a harmonia parece possível.
Nessa
mesma linha, Composição trabalha com diferentes
tonalidades de azul para transmitir uma certa calma de espírito,
um contraponto com Jardim do Paraíso, em que o amarelo
salta aos olhos como um impulso solar definitivo. Lado a lado,
as criações do artista alemão mostram duas facetas: o azul
denso do lago do existir e o amarelo instintivo e solar do
desejo de viver.
Entre
a reflexão filosófica do azul e a energia vital do amarelo,
Ruckhaberle compõe a sua obra pictórica. Nele, a célebre
rigidez germânica ganha um tempero especial, principalmente nas
figuras humanas. Plenas de sentimento, surgem com expressões
firmes, às vezes em tons azulados. Encaram o espectador de
frente numa postura ambígua: ora indagadora, ora melancólica.
Ao
serem pintadas sentadas em sofás, essa duplicidade aumenta. Por
um lado, mostram-se passivas, como se estivessem inertes perante
uma televisão; por outro, com uma fascinante força em potência,
apresentam uma energia insuspeita. Se fascinam, assustam. Se
interrogam, cativam. E, ao fazer tudo isso, comprovam o talento
de Ruckhaberle, que já organizou workshops com artistas
brasileiros e alemães nas cidades de São Paulo (1988), Rio de
Janeiro, João Pessoa e Maceió (1994).
Essas
tensões ricas e muitas vezes contraditórias são expressas
numa obra-prima chamada Paisagem. O azul e o negro
interagem pictoricamente com maestria. O céu parece brotar do
painel de madeira e a tinta a óleo surge para nos buscar. Ele
nos convida a voar, enquanto a silhueta da paisagem em preto
segura os nossos pés no chão.
É
no uso do azul profundo, do vermelho agressor e do amarelo denso
que o artista alemão atinge seus melhores momentos. Consegue
assim provocar três movimentos nos que contemplam o seu
trabalho, respectivamente, a reflexão existencial, uma visão
plena do peso da trajetória humana à Francis Bacon e a busca
da alegria de viver.
No
azul, está a certeza de que a vida só vale a pena quando nos
obriga a pensar melhor sobre as célebres perguntas existenciais
sobre de onde viemos, o que somos e para onde vamos. Muitas
vezes usado próximo ao cinza, a cor aponta para a busca de
respostas para as grandes indagações do existir.
No
vermelho, a densidade de saber que é dessa cor o sangue por
onde flui a nossa vida, mas que interrompe o seu movimento com a
morte. É no volume e no tom escuro dessa cor que Ruckhaberle
apresenta o seu programa estético: agride pela confiança que
demonstra no manejo das cores e em uma proposta bem definida,
que oscila entre o abstrato e o concreto, mas não abre concessões
para soluções fáceis.
No
amarelo, a explosão de cada dia, a alegria de acordar toda manhã
em busca do Paraíso, seja ele em palavras, sons ou imagens. A
cor grita e explode em intensidade, alertando que a vida é só
uma e necessita ser aproveitada. Cada momento existe com uma
intensidade impossível de ser repetida e, por isso, digna de
ser usufruída ao máximo.
Uma
imagem de Ruckhaberle que ilustra bem a importância do vermelho
e do amarelo em seu trabalho é a de uma mulher nua sobre um sofá
justamente com essas cores, as mesmas da bandeira da Catalunha.
Muito mais do que sexualidade, há aqui sensualidade e amor à
vida num grau difícil de expressar com vocábulos.
O
patrimônio nacional alemão Goethe (1749-1832), em Os anos
de aprendizado de Wilhelm Meister, alerta para um erro grave
do ser humano: “julgar-se mais do que se é, estimar-se menos
do que se merece”. Ruckhaberle não incorre nesses equívocos.
Sua arte surge na medida certa entre o impulso divino de criar e
a convicção racional de que sua produção não é gratuita ou
fruto de forças do além.
Há
em sua poética a marca estética do trabalho árduo, da
pesquisa contínua e do aperfeiçoamento como meta constante,
atributos que se somam num resultado estético de impacto que,
como alerta Maupassant, palavras, verbos e adjetivos são
incapazes de expressar em todo o seu esplendor.
Oscar
D’Ambrosio integra a Associação Internacional de Críticos
de Artes (Aica – Seção Brasil) e é autor de Contando a
arte de Ranchinho e Contando a arte de Maroubo
(Editora Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra
do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo)