por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Diane Tremblay

 

O dinamismo da vida

 

Shakespeare já escreveu que entre o céu e a terra há muito mais do que a razão humana conhece. Parodiando o dramaturgo inglês, pode-se dizer que entre o simbolismo e o expressionismo existe a obra da canadense Diane Tremblay, plena de nuanças que desafiam uma visão rápida de suas obras. Cada uma está repleta de elementos que demandam uma atenção muito peculiar.

Se o simbolismo é tradicionalmente considerado uma vertente artística que pressupõe uma certa intencionalidade dos elementos que compõem uma obra de arte no sentido de transmitir uma determinada mensagem, o expressionismo geralmente é visto com uma força motriz que vem de dentro do artista, plena de sentimento, passando o mínimo possível pelo crivo da razão.

No cruzamento dessas vertentes, surge a obra de Diane. Ela mescla ambas tendências com elementos do surrealismo, principalmente pelo uso de imagens fantásticas e surpreendentes. Ao contrário do que pregava Salvador Dalí, porém, há pouco nelas de inconsciência e muito mais da proposta de atingir um determinado resultado estético.

Um exemplo é a tela The end of a life, de 1999. Pintada logo após Diane saber que a mãe sofria de um câncer, inclui, segundo a própria artista, um número oito, símbolo do infinito, e uma mão, ao fundo, que, para ela, alude aos primeiros sinais deixados por humanos em cavernas, que indicam que presente, passado e futuro estão interligados em todos os momentos da vida, em formas fluidas que ultrapassam as barreiras do tempo.

A existência seria justamente essa continuidade entre aquilo que foi feito, as ações presentes de cada um e as suas conseqüências futuras. Nesse sentido, o artista é, de certa forma, um privilegiado, porque se alimenta de diversas influências (passado), realiza sua obra (o momento da criação) e tem a capacidade de ser o ponto de partida de novas reflexões (deixa um legado para o futuro).

Nascida em Chicoutimi, Quebec, Canadá, em 6 de janeiro de 1957, Diane Tremblay confessa que a influência mais importante que recebeu foi a de um professor de arte do ensino médio que, além de ser artista, teve o importante papel de fazê-la descobrir os mundos de Dalí, do surrealismo, de Klimt, Munch e do expressionismo de modo geral.

Diane, que vem de uma família de artistas, acredita que a influência mais forte de sua infância vem da mãe – escultora. Depois, ela estudou Artes na Universidade de Quebec, em sua cidade natal, e leciona essa disciplina no ensino médio desde 1979. Por volta de 1997, porém, a necessidade de produzir profissionalmente e não apenas de orientar trabalhos se fez mais forte.

O clima fantástico resulta da interação de forças entre as imagens criadas pela artista. Tons de verde, azul e lilás se concentram num clima fantástico marcado pela presença de numerosas figuras femininas. Os cabelos compridos de diversas delas evocam a sensualidade e a passagem do tempo.

Os diferentes elementos oferecem uma ampla visão de como a pintura pode se tornar uma excelente maneira de indagar o ser humano sobre seus próprios limites. Morte e vida adquirem novas conotações, transformando-se numa espécie de moto-contínuo, onde a única certeza é que a arte pode, de fato, contribuir para derrubar dogmas e construir um mundo de indagações que, com artistas de talento, transforma-se num universo de prazer estético.

No trabalho de Diane Tremblay, a imaginação exibe um poder infinito de superação. Os símbolos colocados em cada tela são imagens que expressam um estado de espírito, uma posição perante o mundo em que tudo é concebido numa esfera além do real, essencialmente dinâmica e transformadora.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

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"The end of Life"

A.S.T -   30X25 cm - 1999

Diane Tremblay

 

 

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