por Oscar D'Ambrosio


 

 


Diálogo salutar

 

A atividade desenvolvida entre a Orquestra Filarmônica de São Bernardo do Campo, dirigido por Paulo Rydlewski, e o pintor H. Hammler pode servir como ponto de reflexão sobre os pontos de contato entre a música e as artes plásticas. Enquanto ela interpreta o seu amplo repertório, o artista plástico realiza as suas telas às vistas do público.

Essa atividade, que resulta em trabalhos de grande intensidade, nos lembra que os elos entre a atividade musical e a plástica se perdem ao longo dos séculos. Basta lembrar que o pintor russo Wassily Kandinsky, ao ouvir, em 1911, pela primeira vez a música de Arnold Schönberg, recebeu tamanho impacto, que buscou conhecer o compositor. Os dois trocaram informações e romperam, em seus respectivos campos, com normas da tradição e se influenciaram mutuamente.

Bem antes deles, numerosos elos foram estabelecidos entre as artes plásticas e a música. O pintor Arcimboldo, no século XVI, o padre Marin Mersenne (1588-1648) e os compositores François Couperin (1688-1733), Rimsky-Korsakov (1844-1908) e Alexander Scriabin (1872-1915) são apenas alguns dos que tratam, cada qual à sua forma, a classificação acadêmica que divide as artes em espaciais ou visuais (arquitetura, escultura e pintura), temporais ou da audição (música, poesia e prosa) e do movimento (dança, teatro e cinema).

O fato é que, na tradição da música ocidental, a audição sempre esteve estreitamente ligada à visão. Os dois sentidos, afinal, trabalham, a seu modo, com elementos semelhantes como a temporalidade, a improvisação e a abstração. Isso se comprova mais ainda nos quadros que o pintor H. Hammler realiza enquanto as notas se sucedem, num autêntico balé de cores e gestos que se materializa na transformação da tela em branco em obra acabada.

No decorrer dessa atividade de pintar enquanto as mais diferentes músicas são executadas, Hammler comprova a sua versatilidade artística e a sua coragem de correr riscos e de enfrentar novas temáticas e técnicas. Comprova assim que o artista digno desse nome não se esquiva de desafios. Enfrenta-os sempre com a certeza que cada música ouvida pode gerar uma tela ainda melhor.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

 

 

 


 

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