por Oscar D'Ambrosio


 

 


Claudio Gonçalves: Deus e o Diabo na terra do agreste

 

            Um dos mecanismos mais determinantes do processo criativo são os primeiros anos de vida e de trajetória visual. No caso de Cláudio Gonçalves, cabe ressaltar o prazer de desenhar, na infânciacenas de filmes de faroeste e, mais tarde, o impacto, na Capital paulista, de ter assistido ao filme Deus e o Diabo na terra do sol.

            O filme de Glauber Rocha, feito em 1964, ressalta o conflito entre o beato Sebastião, que conduz seus fiéis ao Monte Santo para esperar a vinda do Messias, e Antonio Conselheiro, matador de cangaceiros. Em meio a isso tudo, está o pistoleiro Antônio das Mortes, contratado para massacrar o religioso e seus devotos.

            Esse universo das lutas entre homens e destes com a natureza alimenta Gonçalves a desenvolver uma série de imagens que tratam o mundo do cangaço nordestino com forte impacto. Embora parta de cenas do filme ou de fotografias, consegue recriá-las para obter o resultado desejado.

            A maneira como são tratados os fundos com uma divisão de aéreas bastante marcadas, assim como a forma de combinar as cores em áreas aparentemente menos importantes dos quadros, revela o domínio da técnica da pintura a óleo e uma consciência de ocupação do espaço.

            O quadro que mostra uma vaquejada, por exemplo, apresenta um resultado ímpar, pela forma como é estabelecido o movimento. Efeito também de destaque é alcançado ao mostrar trabalhadores cortando cana.  É instaurado um diálogo tenso entre a estrutura dos facões e dos pés da planta, numa espécie de luta muda.

            Adepto de assuntos históricos, com projetos de realizar  séries sobre Canudos e o Contestado, Gonçalves tem em artistas como Pedro Américo ou Victor Meirelles referências. Sabe, como ambos, que os dados documentais  são apenas o ponto de partida  para uma criação que valoriza, acima de tudo, a pintura em si mesma.

            O agreste de Cláudio Gonçalves não é apenas um tema. Ele viajou para duas vezes e conheceu não ambientes como pessoas que vivenciaram os anos do cangaço. O resultado de sua pintura é, portanto, uma competente somatória de experiências, que inclui memórias de infância, filmografia e vivência no local.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da Unesp, câmpus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica - Seção Brasil).

 

           

           

             

 

 



 

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