por Oscar D'Ambrosio


 

 


Desenhos varzianos dos Matuck

 

            A arte contemporânea, entendendo-se esta como aquela que é feita em nosso tempo, anda muito séria. Há mais discurso do que ação significativa e textos de parede buscam justificar, com o discurso geralmente incompreensível e cifrado da semiótica, conceitos nada inovadores ou a mera falta de talento disfarçada de sabedoria intelectual.

            Nesse contexto pouco animador, em que o discursar supera o fazer, com as exceções de praxe, os irmãos Carlos e Rubens Matuck realizam a exposição Desenhos varzianos, que ocupa a Grahias – Casa da Gravura, de 15 de janeiro a 15 de fevereiro de 2007, em São Paulo , SP.

            O título da exposição remete a dois universos cada vez mais esquecidos e, proporcionalmente, necessários. A arte do desenho, até desprezada por alguns, parece viver uma fase de renascimento. Estaria nessa atividade, talvez uma das mais viscerais do ser humano, uma expressão que permite visualizar, quase de imediato, o que o artista tem por dentro. É o que ocorre nos cadernos de artista, prática sempre valorizada no discurso, mas à espera de um reconhecimento maior enquanto legítima expressão plástica do ato de estar e participar no mundo.

            A arte da várzea tem uma conotação evidente, que é aquela de estar à margem do processo e do chamado circuito das artes. Praticar sistematicamente o desenho inclui-se nessa categoria de valorizar essa expressão artística como forma de se relacionar com a chamada realidade.

            Ao lado dos rios e ribeirões em que o mercado segue o seu caminho para lá de discutível, Carlos e Rubens Matuck trabalham na várzea, área cultivável, fértil, própria para o aproveitamento agrícola, no universo da geografia econômica, e rica em criatividade, húmus essencial da arte, no mundo plástico.

            Os trabalhos da exposição são feitos a “oito olhos”. Isso se dá, num primeiro sentido, pelo fato de os irmãos usarem óculos, mas, principalmente, pelo poder de ambos de se apropriarem do mundo para criar uma saga de personagens paralelos. Os desenhos que surgem do contato entre os dois apresentam duas características que faltam à maioria das exposições contemporâneas: a liberdade e o humor.

            Sem a primeira, a arte parece definhar. Estabelecer um padrão para vender ou para estar em harmonia com algum modismo significa a própria morte do que mobiliza o criador, a sua potencialidade de ir aonde os outros não vão, tecendo pontes entre o real e o imaginário que proporcionam entender melhor o que nos rodeia, no sentido de perceber a pequenez de cada um perante a jornada existencial a ser percorrida.

            Sem o humor, a arte fica aborrecida pretensamente intelectual. As universidades vêm sistematicamente ensinando, antes nas pós-graduações e hoje, já nas graduações, que ser sério e competente significa assumir uma austeridade castradora, caracterizada pelo vocabulário rebuscado e pela necessidade de falar para ser compreendido somente por uma elite vazia de conteúdo e plena de discursos.

            Carlos e Rubens Matuck colocam a sua técnica apurada, desenvolvida ao longo dos anos, neste projeto amadurecido pela convivência de três semanas, em 2006, em Brande, Dinamarca, durante um workshop de artes visuais. O resultado plástico é, acima de tudo, uma defesa da imagem em si mesma.

            Enquanto ainda existe em boa parte das mostras uma desestetização da arte, ou seja um processo em que falar sobre a arte é mais importante do que a estética e o poder de admirar o trabalho plástico em si mesmo, Carlos e Rubens Matuck defendem a liberdade de rir de si mesmos e do mundo. Com seus personagens e situações humanas se divertem do mercado de arte, dos curadores e afirmam que, diante do talento, não há discurso que resista.

A boa arte é para ser absorvida em sua grandeza. Não há discurso que a justifique ou que a valorize. Ela simplesmente é – e encanta enquanto mais sincera se apresenta. Instaura um mundo que dialoga com outros e, acima de tudo, fascina pelo poder de estabelecer parâmetros e paradigmas próprios.

Os desenhos varzianos dos Matuck são assim um fértil campo de imagens e de idéias que, se frutificarem, podem inspirar uma geração a oferecer repostas cada vez mais originais, competentes e menos pseudo-intelectualizadas aos dilemas da existência. Mas isso pode – e deve – ser feito, como eles conseguem, com um sorriso nos lábios e com liberdade total nos traços.

 

            Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, é jornalista e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA-Seção Brasil).

           

 

 

 



 

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