por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Deraldo Clemente

 

O universo caipira

 

O ato de desvendar o mundo rural é o ponto de partida da arte de Deraldo Clemente. Seus quadros, que já foram expostos na Bienal Naïfs do Brasil 2000, organizada pelo Serviço Social do Comércio (Sesc), em Piracicaba, SP, apresentam o mérito de tratar o universo do interior com uma técnica bem especial.

Telas como A casa da fazenda, por exemplo, ilustram as principais características da pintura do artista. Nascido em 1958, em Neves Paulista, cidade próxima a São José do Rio Preto, SP, onde reside, Deraldo utiliza pinceladas grossas e repletas de tinta para criar imagens sem perspectiva em que retrata elementos essenciais do mundo caipira.

As copas das árvores que se mesclam com o céu, aves espalhadas pela tela e casas típicas do interior ajudam a compor o ambiente, no qual geralmente há a figura de um ou mais caipiras, com roupas e chapéus típicos, geralmente com as mãos para o alto, numa atitude que colabora para transmitir alegria aos quadros.

A ausência de perspectiva e as cores intensas são as peculiaridades que tornam os quadros de Deraldo Clemente documentos da vida no Interior paulista. Predominam neles a horizontalidade, sendo comum a demarcação de dois planos que praticamente não se relacionam em termos imagéticos, mas que interagem tematicamente.

Uma sede de fazenda, nessa óptica, surge ao lado de trabalhadores da roça, enquanto, embaixo de uma linha horizontal preta, surge um carro de boi junto a um poço. A forma simples como é tratada a roda do veículo exemplifica a beleza da arte naïf, que deve ser estudada e analisada dentro dos seus critérios intrínsecos, ou seja, a espontaneidade de artistas autodidatas que têm apenas a si mesmos como mestres.

A pincelada grossa de Deraldo Clemente espalha uma energia marcante, que se expressa na tela por intermédio de imagens campestres, mas não bucólicas. Isso significa que o tema do campo está presente, mas não de maneira idealizada como num paraíso terrestre. As situações levadas à tela são cotidianas e não apresentam glamour, mas sim cores que compõem um mosaico que cativa logo à primeira vista.

O universo caipira que surge nas imagens de Deraldo não é para ninguém se envergonhar de ter nascido no Interior. Muito pelo contrário, a sua escolha visual, ao privilegiar verdes, azuis e vermelhos, e temática combate o preconceito de que tudo aquilo que nasce do povo não pode ter status de obra de arte.

Com o artista de São José do Rio Preto ocorre o contrário. Suas telas são manifestações de como a arte popular é inimitável, pois brota da autenticidade. O formato das casas, os rostos dos caipiras e a mencionada horizontalidade constituem um modelo que Deraldo não aprendeu com ninguém, mas realiza por si mesmo, já que tem o seu talento como único paradigma.

As cercas de fazenda preenchidas com pinceladas simétricas, o retrato de situações do dia-a-dia do homem do campo e a busca de cenas significativas do trabalho na roça são o que diferenciam a obra de Deraldo. Com sua arte primitivista plena de sensibilidade, ele oferece trabalhos que brotam do fundo de sua alma interiorana e fascina a todos aqueles que os sabem observar em seus ricos detalhes e plenitude de diálogo entre as cores.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Artes (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).

 

 

 

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"O trabalho"

A.S.T -  40 x 50 cm 2000   

Deraldo Clemente 

 

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