por Oscar D'Ambrosio


 

 


Deli Ribeiro

 

            A conquista da aquarela

 

            Há muitos caminhos para se chegar à arte. Alguns passam pelo desejo de desenhar desde a infância, outros por uma necessidade primordial que só se manifesta na adolescência. Existem ainda os que somente enquanto adultos observam que tinham um desejo adormecido desde há anos e, até na terceira idade, surgem talentos até então insuspeitos.

            As aquarelas de Deli Ribeiro, cujo nome completo é Valdeli Ribeiro Vergnhanini,  são uma mescla de todas essas jornadas existenciais, tão particulares e, ao mesmo tempo, tão próximas em sua essência. Nascida em Pompéia, SP, em 8 de junho de 1945, veio para São Paulo, com os pais, em 1960, trazendo na mala recordações do passado e a esperança de construir um futuro melhor.

            Seu início formal foi no curso de aquarela do Clube Pinheiros, sob a orientação da professora Silvia Fairbanks. Os papéis e cores começaram como uma forma de saída da depressão pela perda repentina do marido, a quem conhecia desde os 15 anos. Pouco a pouco, conquistaram espaço cada vez maior em sua vida.

            A chegada a São Paulo foi tão marcante, que explica por que o seu grande momento profissional até o momento foi a participação, em 2004, da mostra Uma viagem de 450 anos. Com a curadoria de Radha Abramo, o objetivo era dar a cada artista uma mala para que trabalhasse com ela da forma que achasse melhor.

            Deli não estava entre as artistas selecionadas, mas mantinha contato diário com os organizadores para conseguir uma das malas para decorar. No último dia, como um dos convidados não retirou a sua, teve a autorização para realizar o trabalho. O que fez então foi uma retomada do passado.

            Ampliou um cartão postal de São Paulo de 1906 que o avô do seu marido havia recebido do irmão dele, que morava no Brasil na época, colou-o no fundo da mala e colocou um espelho para que a imagem se refletisse. Estavam ali mesclados, nesse jogo de signos, a busca de dias de felicidades dos primeiros espanhóis que chegaram ao Brasil e também dos moradores do interior que vêm para a Capital.

            A imagem não poderia ser outra: a Estação da Luz, local que recebeu imigrantes e gente de todo o Brasil para ajudar a construir São Paulo. A poética do trabalho de Deli pauta-se justamente por essa retomada de valores do passado, mas sem ignorar o poder da arte de retratar o momento presente, seja de uma cidade ou de uma flor.

            Seus trabalhos apresentam várias temáticas, incluindo até uma série sobre Oswald de Andrade, um dos marcos do modernismo nacional. O mais importante, porém, está na forma plástica como busca solucionar os desafios técnicos que se impõe. O trabalho torna-se mais interessante à medida que se preocupa mais em indagar do que em responder.

            Explicando melhor, quanto mais livre e longe das técnicas consagradas, mais parece ficar à vontade para dar saltos quantitativos. Nesse sentido, imagens como Galerias I e II parecem exemplares. Cria-se um clima de mistério e de reflexão que conquista o observador rapidamente.

            Enquanto os temas mais tradicionais como flores e paisagens podem ser realizados com uma competência técnica lentamente apurada pela prática constante, os trabalhos mais ousados devem, simultaneamente, ser estimulados para que se tornem uma prática cada vez mais presente. Da somatória do exercício lento em busca da perfeição com o desejo de inovar a cada instante, o resultado final pode caminhar cada vez mais rumo a uma obra corajosa, capaz de gerar surpresa.

Deli Ribeiro tem justamente o potencial de mesclar os sentimentos da infância aos maturidade da vida da presente e à necessidade constante de se relacionar com o mundo por meio de uma arte difícil, que exige, ao mesmo tempo, em suas manifestações mais sublimes, arrojo e delicadeza: a aquarela.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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Galerias I e II
Técnica mista: colagem e aquarela sobre papel
42 cm x 29 cm - sem data


Deli Ribeiro

 

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