por Oscar D'Ambrosio


 

 


Débora Bolsoni

 

            Trilogia combinatória

 

            Muito se fala no fenômeno da apropriação, que consiste, basicamente, em tomar algum objeto já existente e colocá-lo em um novo contexto. Nesse exercício, a função original sempre é alterada, permitindo o estabelecimento de novas relações entre as pessoas e aquilo que estão vendo.

Débora Bolsoni apresenta, no Centro Universitário da USP, na rua Maria Antonia, em 2006, em São Paulo, SP, conjuntos que trabalham justamente com o conceito de tomar objetos do universo cotidiano, dando-lhes novas expressões plásticas e conotativas, capazes de gerar reflexões que conduzem a um novo olhar sobre o dia-a-dia.

Os conjuntos são: uma porta com uma medalha, um florete mesclado com uma haste de pebolim e um montinho de confete próximo a uma arapuca. Cada elemento mencionado ganha um novo significado ao ser posto em uma situação inesperada. O surpreendente indaga e motiva a rever conceitos cristalizados e dominados pela preguiça do pensar.

Cabe ao observador verificar como essas aproximações ou diferenças são trabalhadas no sentido de questionar a própria relação entre os objetos, deles com o mundo e, ainda, deles com os seres humanos. O ludismo predomina numa prática multifacetada de re-significações.

            No caso específico da porta com medalha, o estático e duro do material aponta para a própria posição hierática do universo militar ou amparado pelo status quo. Ter uma  medalha no peito valoriza justamente a idéia de que o estabelecido é aquilo que vale a pena. A porta condecorada alerta que o maior perigo de se ter uma medalha no peito é parar de raciocinar, vendo uma patente ou uma premiação como uma resposta em si mesma para as indagações existenciais que nos acompanham.

            A porta fechada ilustra  a incapacidade para o diálogo, e o prêmio instaura o isolamento. Como o mítico Narciso, encantado por si mesmo, virou vegetal ao se confrontar com a própria imagem, um prêmio pode paralisar a pessoa impedindo que atinja o seu processo psicológico e emocional.

            A mistura do florete com o pebolim traduz o encontro dos limites tênues entre o esporte e o jogo. Ambos fascinam, mas também matam no sentido de que o amor por ser uma dessas atividades humanas, se exacerbado, pode resultar num progressivo isolamento e alienação de outras atividades.

            É no esporte e no jogo que a pessoa pode parar de viver a própria vida para vivenciar a do outro, numa viagem, às vezes sem retorno, para a alienação. Atingir o adversário com o florete ou marcar um gol também pode ser visto como uma vitória, pois  a derrota do outro é um caminho para a afirmação de si mesmo.

            O confete, índice do carnaval, da alegria, do júbilo e da sensualidade, colocado junto a uma arapuca, prestes a ter sua haste derrubada e se fechar evoca como a liberdade de expressão está sempre ameaçada. Ultrapassar as normas, criando um volume de confete talvez exagerado para outrem, pode levar ao cair da arapuca e ao aprisionamento das idéias.

            Estar alerta para os excessos carrega em si mesmo o medo do risco. Temer o futuro pode ser – e geralmente é – limitador enquanto processo criativo. O ato criativo, visto como arapuca, pode se limitar ao ponto de nada permitir pela censura que a mente pode trazer ao próprio indivíduo criativo, dominado pela alegria que o confete comporta.

            Os três trabalhos da exposição dialogam pelo poder de perseguir dualidades que persuadem o repensar do mundo numa trilogia combinatória de ambivalências. A falta de elasticidade da porta, o caráter austero da medalha, a ameaça do florete, o ludismo do pebolim, a carnavalização do confete e a ameaça da arapuca instauram um mundo imaginário.

Débora Bolsoni o instaura esteticamente pleno de contradições e maravilhosamente interrogados em sua capacidade de nos estimular a rever o que achamos óbvio, repensando cada objeto como uma – ou várias – das complexas e infinitas emoções do labirinto da mente humana.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

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 Porta com medalha 
instalação (detalhe) latão banhado em prata, esmalte e fita 2006

Débora Bolsoni

 

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