Débora Bolsoni
Trilogia combinatória
Muito se fala no fenômeno da apropriação, que consiste,
basicamente, em tomar algum objeto já existente e colocá-lo em um novo
contexto. Nesse exercício, a função original sempre é alterada,
permitindo o estabelecimento de novas relações entre as pessoas e
aquilo que estão vendo.
Débora
Bolsoni apresenta, no Centro Universitário
da USP, na rua Maria Antonia, em 2006, em São Paulo, SP, conjuntos que
trabalham justamente com o conceito de tomar objetos do universo
cotidiano, dando-lhes novas expressões plásticas e conotativas,
capazes de gerar reflexões que conduzem a um novo olhar sobre o
dia-a-dia.
Os
conjuntos são: uma porta com uma medalha, um florete mesclado com uma
haste de pebolim e um montinho de confete próximo
a uma arapuca. Cada elemento mencionado ganha um novo significado ao ser
posto em uma situação inesperada. O surpreendente indaga e motiva a
rever conceitos cristalizados e dominados pela preguiça do pensar.
Cabe
ao observador verificar como essas aproximações ou diferenças são
trabalhadas no sentido de questionar a própria relação entre os
objetos, deles com o mundo e, ainda, deles com os seres humanos. O ludismo
predomina numa prática multifacetada de re-significações.
No caso específico
da porta com medalha, o estático e duro do material aponta para a própria
posição hierática do universo militar ou amparado pelo status quo.
Ter uma medalha no peito
valoriza justamente a idéia de que o estabelecido é aquilo que vale a
pena. A porta condecorada alerta que o maior perigo de se ter uma
medalha no peito é parar de raciocinar, vendo uma patente ou uma premiação
como uma resposta em si mesma para as indagações existenciais que nos
acompanham.
A porta fechada
ilustra a incapacidade para
o diálogo, e o prêmio instaura o isolamento. Como o mítico Narciso,
encantado por si mesmo, virou vegetal ao se confrontar com a própria
imagem, um prêmio pode paralisar a pessoa impedindo que atinja o seu
processo psicológico e emocional.
A mistura do florete
com o pebolim traduz o encontro dos limites
tênues entre o esporte e o jogo. Ambos fascinam, mas também matam no
sentido de que o amor por ser uma dessas atividades humanas, se
exacerbado, pode resultar num progressivo isolamento e alienação de
outras atividades.
É no esporte e no
jogo que a pessoa pode parar de viver a própria vida para vivenciar a
do outro, numa viagem, às vezes sem retorno, para a alienação.
Atingir o adversário com o florete ou marcar um gol também pode ser
visto como uma vitória, pois a
derrota do outro é um caminho para a afirmação de si mesmo.
O confete, índice do
carnaval, da alegria, do júbilo e da sensualidade, colocado junto a uma
arapuca, prestes a ter sua haste derrubada e se fechar evoca como a
liberdade de expressão está sempre ameaçada. Ultrapassar as normas,
criando um volume de confete talvez exagerado para outrem, pode levar ao
cair da arapuca e ao aprisionamento das idéias.
Estar alerta para os
excessos carrega em si mesmo o medo do risco. Temer o futuro pode ser
– e geralmente é – limitador enquanto processo criativo. O ato
criativo, visto como arapuca, pode se limitar ao ponto de nada permitir
pela censura que a mente pode trazer ao próprio indivíduo criativo,
dominado pela alegria que o confete comporta.
Os três trabalhos da
exposição dialogam pelo poder de perseguir dualidades que persuadem o
repensar do mundo numa trilogia combinatória de ambivalências. A falta
de elasticidade da porta, o caráter austero da medalha, a ameaça do
florete, o ludismo do pebolim,
a carnavalização do confete e a ameaça da arapuca instauram um mundo
imaginário.
Débora
Bolsoni o instaura esteticamente pleno de
contradições e maravilhosamente interrogados em sua capacidade de nos
estimular a rever o que achamos óbvio, repensando cada objeto como uma
– ou várias – das complexas e infinitas emoções do labirinto da
mente humana.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pela
UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica
– Seção Brasil).