por Oscar D'Ambrosio


 

 



David Sobral

O universo da sátira

Em Literatura, chama-se sátira o texto que censura ou ridiculariza defeitos ou vícios dos seres humanos. O termo é usado, por extensão, para qualquer representação artística maldizente ou crítica, principalmente em relação aos costumes. Onde há troça e zombaria, há sátira e, por isso, o pintor primitivista David Sobral é um mestre do gênero.

A vida do artista já tem elementos romanescos. David Augusto Sobral nasceu em 1930, quando seus pais viajavam para a Europa. Filho de um motorneiro da Light, ele foi registrado em Beira Alta, Portugal, onde viveu seus primeiros cinco anos, mudando para São Paulo, Brasil, sete anos depois.

David contabiliza seu primeiro quadro aos 17 anos, no qual mostrava uma rua do bairro em que morava, a Penha. Autodidata, ele aperfeiçoou sua técnica com um artista local, conhecido como Alemão, aprimorando o estilo, que se concentrou na representação gráfica de frases e ditados populares.

Essa veia satírica chamou a atenção, por exemplo, do Museu de Arte Naïf, em Figueras, Espanha, que já adquiriu 25 trabalhos do artista. Ao expor seus quadros na Praça da República, em São Paulo, ele também costuma ter bastante repercussão, principalmente entre os turistas estrangeiros, que ficam fascinados com a riqueza de cores e, principalmente, de idéias, que David apresenta.

Figuras fantásticas e motivos folclóricos são encontrados em numerosas imagens. Animais que tocam instrumentos musicais com cores bem fortes, por exemplo, são uma constante, assim como imagens próximas ao surrealismo, em sua irreverência e capacidade ilimitada de subverter e surpreender.

Se os quadros de maiores dimensões apresentam um trabalho mais aprimorado, com predominância de grandes figuras colocadas em situações inusitadas; nas telas de dimensões menores, lendas, ditados e frases populares são representados muitas vezes literalmente, gerando situações cômicas. Um exemplo é a pintura de um hot dog ilustrado com um cachorro rodeado de fogo, num trocadilho simples, mas bem rico em termos visuais, com a língua inglesa.

Surgem assim figuras como o célebre caipira Jeca Tatu, considerado uma representação da preguiça do homem do interior, além de outras telas que ilustram, geralmente de modo literal, o que causa estranhamento e graça, frases que as pessoas repetem sem prestar atenção em seu autêntico significado.

O artista escreve em muitas de suas telas para ampliar o efeito crítico. O recurso propicia o efeito cômico exatamente por gerar o diálogo entre o texto e a imagem. Dessa maneira, muitos trabalhos do artista funcionam praticamente como uma história em quadrinhos ou um grafite.

Em telas, como Um dia da caça, outro dia do caçador, selecionada pelo júri na Bienal Naïfs do Brasil 1998, em Piracicaba, SP, David Sobral confirmou seu talento. Um homem é mostrado de cabeça para baixo na boca de uma onça, enquanto o cão do caçador carrega, de forma obediente, a espingarda, submisso perante a força do felino. As pinceladas largas e as cores quentes do fundo contribuem para o resultado final, pleno de vida, mesmo no branco do cabelo do caçador, que é do mesmo tom que as manchas da onça, do cão negro e da superfície da água.

Na Bienal de 2000, classificou dois trabalhos. A fuga do caçador acrescenta ironia ao mesmo tema anterior. Desta vez, o caçador, com o rifle na mão e o seu cão pulam um rio perseguidos pela onça, enquanto a legenda diz: "Hoje eu não estava com boa pontaria. Acabou [sic] as balas que eu tinha. Agora vou tentar me livrar dessa fera dando um pulo igual [sic]das Olimpíadas."

O outro, Banho com roupa é mais divertido, pois, sob a frase "Incrível banho preguiçosos com roupa. Chame o fantástico", uma equipe de televisão realiza uma reportagem mostrando pessoas totalmente vestidas penduradas em varais, secando junto com as roupas, enquanto uma mulher de esfregão limpa um rapaz com os sabões "Lava tudo" e "Tira cascão". O fundo repleto de casas interioranas com pequenas imagens de pessoas compõe a cena, carregada de um intenso verde, uma das cores mais e melhor utilizadas pelo pintor.

David Sobral realiza assim uma censura jocosa das falhas da sociedade. Domina o universo da sátira ao mostrar caçadores derrotados em sua tentativa de destruir a natureza, gordos que desejam ficar magros, baixos que desejam ser altos e feias que ambicionam a beleza a qualquer custo, entre outros personagens ridicularizados em telas bem humoradas que alertam, com cores quentes e humor corrosivo, para nossas falhas e vaidades cotidianas.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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"Banho com Roupa"

O.S.T - 50X70 - 2000

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