por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Davi com a cabeça de Golias, de Caravaggio

 

            Michelangelo Merisi (1571-1610) nasceu em Milão, mas, ainda menino, devido a uma peste, mudou-se com a família para Caravaggio, cidade da qual adotou o nome. Teve uma existência breve, porém bem agitada, marcada por controvérsias e acontecimentos que muitas vezes deixaram em segundo plano a sua habilidade enquanto artista. A partir do quadro Davi com cabeça de Golias, pintado entre 1606 e 1610, é possível chegar a algumas reflexões.

 

            1 – O risco da biografia

            Caravaggio viveu em diversos locais como Roma, Nápoles, Malta e na Sicília. É geralmente identificado como um artista Barroco, estilo caracterizado pelo contraste entre claro e escuro e pelas sombras. Era considerado enigmático e fascinante, e também perigoso. Em 1606, matou um jovem durante uma luta e fugiu de Roma com a cabeça a prêmio. Em Malta, em 1608, ele envolveu-se em outra luta, e mais outra em Nápoles em 1609, possivelmente um atentado premeditado contra sua vida por inimigos. Ao todo, são uma prisão e duas denúncias por agressão, uma por morosidade, uma prisão e várias denúncias por injúria e duas prisões por porte de armas. Esses fatos geram o risco de sua vida ser, para muitos, mais atrativa do que sua pintura. Um fato curioso no quadro escolhido é que a imagem de Caravaggio mostra Davi, no corpo de um adolescente, segurando a cabeça de Golias, e as feições do gigante são consideradas um auto-retrato do pintor.

 

            2 – Comissões

            O talento de Caravaggio lhe deu bastante sucesso e dinheiro em vida que ele não soube aproveitar. Foi um dos poucos artistas do período que recebia numerosas encomendas. No entanto, era comum que atrasasse os prazos ou que fugisse dos planos previamente traçados, desagradando ao patrão e se envolvendo em brigas judiciais.

 

             3 – Pessoas comuns como modelos

            Caravaggio tomava emprestada a imagem de pescadores, lavradores e prostitutas das ruas de Roma para retratar Maria e os apóstolos. Essa postura era uma novidade para a época. Trouxe numerosos problemas e foi um ato que aproximava a pintura das pessoas comuns do povo. Tal atitude não era bem vista pela igreja e pelos nobres, que também ficavam confusos ao ver, por exemplo, marcas de sujeira das ruas nos pés dos santos e de outras figuras sagradas.

 

            4 – Fundo infinito negro

            Outra marca registrada de Caravaggio foi a maneira de lidar com os fundos. Desenvolveu uma técnica própria, de fundos escuros, negros e infinitos. Retirava assim todo o cenário da imagem pintada, concentrando o olhar do observador nas figuras sacras que retratava a partir da observação de modelos.

 

            5 – Detalhes iluminados

            Ao lado dos fundos infinitos negros, está a escolha da iluminação de detalhes. Trata-se de um recurso que dá grande dramaticidade a cada quadro.  Esse tipo de pintura recebeu o nome de tenebrismo por lidar com o escuro com o aterrador. Em Davi com a cabeça de Golias, há uma intensa dramaticidade, intensificada pela luz. Logo se destaca a forma como Davi olha para o inimigo, morto com uma pedra que atingiu Golias bem no meio da testa.

 

            6 – Autodidata

            Sabe-se que, em Roma, Caravaggio freqüentou diversos ateliês, inclusive o do maneirista Peterzano. Mesmo assim, o pintor milanês gostava de dizer que era autodidata. Manifestava isso com orgulho, como uma forma de auto-afirmação  perante a série de influências que recebeu e que não dava o crédito. Tal postura encontra paralelo em diversos artistas atuais.

 

            7 – Rebeldia

            A postura rebelde de Caravaggio em relação à sociedade, que paradoxalmente lhe encomendava e pagava os quadros, era curiosa e mesmo suicida. Nunca saberemos, por exemplo, se pintar a Virgem Maria ou santas com o rosto de conhecidas prostitutas era provocação ou irresponsabilidade.

 

            8 – Naturalismo dialoga com idealismo renascentista

            Os quadros de Caravaggio erguem a problemática de uma conversa estética entre o naturalismo, ou seja, a pintura do corpo humano e de rostos fiéis aos modelos, e o idealismo renascentista, que tendia a representar os santos de maneira longe do real, como seres sagrados e distantes.

 

            9 – Escorço

            A técnica do tenebrismo levou Caravaggio, pelo uso da luz como recurso plástico, a ser um pioneiro do escorço, ou seja, da criação da ilusão da criação de imagens que aparentemente saem da tela. O efeito disso dentro de uma igreja impressionava muito o público.

 

            10 – Boêmios, bêbados e mendigos

            A observação de pessoas do povo, a sua utilização como modelos e a colocação delas em figuras religiosas gera toda uma mecânica de representação inovadora, que se distingue pela ousadia estética, pela necessidade de ver o modelo real daquilo que estava sendo pintado e também por uma certa irresponsabilidade de um gênio indomável, mas criador de alguns dos principais quadros da pintura ocidental.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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