Davi
O poder das flores
Machado de Assis dizia que “a natureza é simples; a arte
é atrapalhada”. O Bruxo de Cosme velho, com seu habitual estilo
conciso em conteúdo e repleto de ironia lançava assim sua crítica
àqueles que, ao tentarem ser artistas, apenas conseguiam piorar
os modelos naturais já existentes no universo.
O pintor Davi parece ter sempre em mente esse princípio.
Sua pintura floral se caracteriza pela composição harmoniosa,
precisão de cores e intensa luminosidade. As flores são o mundo
desse artista que sabe levar para a tela as nuances de cada flor e
suas colorações variadas, nunca atrapalhando a natureza, mas
extraindo dela o que oferece de melhor em termos de possibilidade
de criação artística.
Nascido
no Rio de Janeiro, em 5 de abril de 1950, Dagoberto Vito, que
assina suas telas Davi, começou a estudar pintura aos 13 anos.
Foi nessa idade, já em São Paulo, SP, que tomou conhecimento da
pintura floral com o mestre Roncoleto Lubra. Seis anos depois,
ingressou na Faculdade Paulista de Belas Artes, Associação
Paulista de Belas Artes e Academia Paulista de Belas Artes.
Nos anos 1980, a carreira de Davi se consolidou. De 1983 a
1985, recebeu menções honrosas em salões de artes plásticas de
Rio Claro, Piracicaba, Araras e Casablanca, no Estado de São
Paulo e, em 1987, foi escolhido pela Missão Cultural Francesa,
por intermédio da Riotur, para representar o Brasil no setor de
Artes Plásticas de Paris.
Premiado
com uma bolsa de estudos na capital francesa, teve a oportunidade
de expor na Galeria Lafayete. Aproveitou então a oportunidade
para aprimorar seus conhecimentos do impressionismo e visitar
museus e galerias. Inquieto como deve ser todo artista, Davi também
viajou, em busca de novas pesquisas sobre flores agrestes e
paisagens, em 1989, ao Norte e Nordeste,
Seja num copo de leite, num girassol ou numa rosa, Davi
consegue captar aquilo que a natureza tem de mais próprio: a
simplicidade e a naturalidade. Suas composições têm o mérito
de eternizar o efêmero de cada flor. Se as pétalas murcham e
caem, as imagens de seus quadros permanecem.
A pintura floral é uma arte que exige muito domínio técnico.
A recriação das tonalidades de cores e da diversidade das formas
existentes na natureza parte de um elevado poder de observação e
amplo conhecimento do material com o qual se trabalha. Somente
assim, ela pode ser apreciada em sua plenitude.
A grande questão está em observar atentamente como cada pétala
da pintura de Davi é um mundo inteiramente à parte. Não existem
duas iguais, porque a natureza também trata diferentemente cada
um de seus integrantes. Seja pela criação divina ou pelas
maravilhas da genética, não há duas flores exatamente iguais.
Analogamente, as pinturas de Davi obrigam sutilezas que
podem passar em branco a olhares apressados. Sucessivos tons róseos,
por exemplo, se acumulam no ato de mostrar as flores, assim como
uma intensa variedade na posição e no grau de abertura de cada pétala,
havendo desde os botões de rosa àquelas mais abertas.
O escritor Marques Rebelo, autor do clássico A estrela
sobe, dizia que não conseguia “sentir a natureza sem a
presença humana, muito mais rica em imperfeições”. Esse é
justamente o enigma da arte de Davi. Ao ter como matéria-prima a
perfeição da natureza, ele pode até cometer alguma imperfeição,
mas é justamente nela que está o que ele tem de melhor, ou seja,
sua capacidade humana e o talento de transformar em arte tudo
aquilo que vê, inclusive o poder encantatório de cada flor que a
natureza lhe oferece.
Oscar D’Ambrosio é jornalista, integrante da Associação
Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os pincéis
de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp).