Da
vanguarda ao pós-moderno
A discussão
de conceitos como vanguarda e pós-moderno ganha, para o espanhol
Eduardo Subirats (1), uma dimensão às vezes esquecida. Ele aponta
como as vanguardas, radicais em suas propostas, gradualmente perderam
seu poder de contestação e subversão tornando-se um “ritual
tedioso e perfeitamente conservador” (página 1). A energia
renovadora e o radicalismo inicial das vanguardas, portanto, seria
progressivamente “domesticado”.
O pensador
espanhol considera, com certo exagero, que “a expansão dos poderes
técnicos da indústria” (página 2) está associada à fome, à miséria
e a um “processo destrutivo de culturas históricas, de
potencialidades artísticas e de comunidades tradicionais” (idem).
O fato é
que as vanguardas e o movimento moderno a ela associado estariam
inseridos numa dinâmica em que a utopia social e cultural
transforma-se, pouco a pouco, numa forma coercitiva de exercitar um
poder cultural. Para ele, o atual vazio da chamada “crise da
modernidade” seria resultado justamente do fato dos objetivos
daquelas vanguardas terem perdido a energia, erodindo-se
progressivamente.
Restaria
aos pós-modernos trabalhar com os componentes formais modernos, mas já
sem o espírito e a postura questionadora das vanguardas. O resultado,
muitas vezes, é um excesso de retórica para uma obra estética pífia.
O curioso é que o esvaziamento das vanguardas gera então um exercício
geralmente conceitual, em que se discute o fazer artístico em si
mesmo, em numerosas ocasiões de maneira estéril.
No momento
em que a vanguarda abre mão de seu poder subversivo e questionador, o
universo da arte começa a se ver dominado por uma burocracia acadêmica,
ligada à elite econômica, capaz de elaborar os mais complexos
conceitos para
justificar, em diversas obras de arte, as mais estapafúrdias idéias
sob o signo de uma “falsa modernidade”.
Os ideais
vanguardistas de ruptura com o passado, de progresso e de busca de
liberdade individual e de paz social foram substituídos, com a perda
de força da idéia de moderno, pela angústia, insegurança e
sentimento de não-liberdade. Essa constatação de Subirats aponta
para um momento em que a arte se volta sobre si mesma sem nem mesmo
saber por quê.
Se o
conceito de modernidade nasce com Baudelaire apresentando a metáfora
do artista-esgrimista, duelando com o mundo hostil, carregado do
romantismo, que torna o artista um herói, a pós-modernidade vive um
momento de questionamento sobre si mesma, já que, com as vanguardas
sem poder de renovação, mergulhando na mesmice, resta pouco a
idolatrar.
O caminho
adotado por boa parte dos críticos e dos artistas é justamente o de
se fechar num discurso ensimesmado, quase impenetrável, que afasta o
público e boa parte daqueles que não compartilham de uma certa arte
pseudo-conceitual que ganha espaço cada vez maior nas galerias.
Crítica
originalmente negativa aos movimentos anteriores e posteriormente
positiva em termos de delimitação de espaços e nomenclaturas, as
vanguardas (palavra, como Subirats aponta, ligada à estratégia
militar) geraram escândalo, funcionando como uma tropa de choque.
O protesto
e a violência, porém, no lugar de criar, como prometiam, um universo
melhor, recheado de novos valores, com características utópicas e até
proféticas de esperança, perderam o poder de destruição e de
subversão. O surpreendente é como elas se tornaram, conforme o
professor espanhol, “um agrupamento revolucionário de caráter
antecipador e normativo” (página 52).
Subirats
acredita que foi o ideal de criação de um novo estilo que uniu os
filiados a nomes como expressionismo, cubismo, neoplasticismo, purismo
e construtivismo. Nesse aspecto, eles se veriam como integrantes de um
espírito coletivo, com a função de formar e educar gerações
presentes e futuras.
As
vanguardas, num espectro que varia da negação dadaísta às proposições
expressionistas, encontrariam no chamado pós-modernismo uma situação
paradoxal, pois este último é dominado pelo International Style, ou
seja, a subversão dos primeiros seria trocada pela “posição
impositiva legitimadora e acrítica” (página 63) dos segundos.
Um dos
pontos mais interessantes do pensamento de Subirats é a sua proposta
de uma “estética cartesiana”, inexistente no pensamento do filósofo
francês, mas que poderia ser concebida como marcada pelo racionalismo
da “composição visual como uma ordem suscetível de ser
determinada de acordo com esquemas ou categorias estritas” (página
62). Negava-se assim a realidade sensível e mimética em nome de
formas e cores, num universo racionalista em que o abstrato ocupa uma
função das mais importantes.
A
filosofia cartesiana, ao valorizar a geometria e a matemática pela
sua racionalidade, gerando uma base sólida que permite determinar um
pensamento lógico, autônomo e absoluto, pode ser relacionada com
facilidade com boa parte da arte contemporânea, que encontra
justificativas muito bem elaboradas para explicar os mais variados
trabalhos.
Sem
oferecer novidades ou ter uma utopia a vender, as vanguardas definham.
Sua única alternativa é manter o poder pela tradição, tornando-se
um novo status quo. Mesmo
assim, a falta de renovação abre espaço para o chamado pós-modernismo,
que se insere no vácuo deixado pelas vanguardas para oferecer as suas
respostas, não estruturadas baseadas em releituras ou simplesmente
num “vanguardismo requentado”.
O
problema é que esse vanguardismo sem viço, pleno de contradições
estruturais, no sentido de perda da juventude, tem sua falta de conteúdo
muitas vezes escondido em belos discursos racionalistas à Descartes,
em que a retórica e a lógica falam mais alto que a paixão
alimentadora das vanguardas e seu romantismo revolucionário cada vez
mais difícil de encontrar.
(1)
SUBIRATS, Eduardo. Da vanguarda ao pós-moderno. São Paulo:
Nobel, 1986. Todas as citações são dessa edição.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA – Seção Brasil).