por Oscar D'Ambrosio


 

 


Da vanguarda ao pós-moderno

 

            A discussão de conceitos como vanguarda e pós-moderno ganha, para o espanhol Eduardo Subirats (1), uma dimensão às vezes esquecida. Ele aponta como as vanguardas, radicais em suas propostas, gradualmente perderam seu poder de contestação e subversão tornando-se um “ritual tedioso e perfeitamente conservador” (página 1). A energia renovadora e o radicalismo inicial das vanguardas, portanto, seria progressivamente “domesticado”.

            O pensador espanhol considera, com certo exagero, que “a expansão dos poderes técnicos da indústria” (página 2) está associada à fome, à miséria e a um “processo destrutivo de culturas históricas, de potencialidades artísticas e de comunidades tradicionais” (idem).

            O fato é que as vanguardas e o movimento moderno a ela associado estariam inseridos numa dinâmica em que a utopia social e cultural transforma-se, pouco a pouco, numa forma coercitiva de exercitar um poder cultural. Para ele, o atual vazio da chamada “crise da modernidade” seria resultado justamente do fato dos objetivos daquelas vanguardas terem perdido a energia, erodindo-se progressivamente.

            Restaria aos pós-modernos trabalhar com os componentes formais modernos, mas já sem o espírito e a postura questionadora das vanguardas. O resultado, muitas vezes, é um excesso de retórica para uma obra estética pífia. O curioso é que o esvaziamento das vanguardas gera então um exercício geralmente conceitual, em que se discute o fazer artístico em si mesmo, em numerosas ocasiões de maneira estéril.

            No momento em que a vanguarda abre mão de seu poder subversivo e questionador, o universo da arte começa a se ver dominado por uma burocracia acadêmica, ligada à elite econômica, capaz de elaborar os mais complexos conceitos  para justificar, em diversas obras de arte, as mais estapafúrdias idéias sob o signo de uma “falsa modernidade”.

            Os ideais vanguardistas de ruptura com o passado, de progresso e de busca de liberdade individual e de paz social foram substituídos, com a perda de força da idéia de moderno, pela angústia, insegurança e sentimento de não-liberdade. Essa constatação de Subirats aponta para um momento em que a arte se volta sobre si mesma sem nem mesmo saber por quê.

            Se o conceito de modernidade nasce com Baudelaire apresentando a metáfora do artista-esgrimista, duelando com o mundo hostil, carregado do romantismo, que torna o artista um herói, a pós-modernidade vive um momento de questionamento sobre si mesma, já que, com as vanguardas sem poder de renovação, mergulhando na mesmice, resta pouco a idolatrar.

            O caminho adotado por boa parte dos críticos e dos artistas é justamente o de se fechar num discurso ensimesmado, quase impenetrável, que afasta o público e boa parte daqueles que não compartilham de uma certa arte pseudo-conceitual que ganha espaço cada vez maior nas galerias.

            Crítica originalmente negativa aos movimentos anteriores e posteriormente positiva em termos de delimitação de espaços e nomenclaturas, as vanguardas (palavra, como Subirats aponta, ligada à estratégia militar) geraram escândalo, funcionando como uma tropa de choque.

            O protesto e a violência, porém, no lugar de criar, como prometiam, um universo melhor, recheado de novos valores, com características utópicas e até proféticas de esperança, perderam o poder de destruição e de subversão. O surpreendente é como elas se tornaram, conforme o professor espanhol, “um agrupamento revolucionário de caráter antecipador e normativo” (página 52).  

            Subirats acredita que foi o ideal de criação de um novo estilo que uniu os filiados a nomes como expressionismo, cubismo, neoplasticismo, purismo e construtivismo. Nesse aspecto, eles se veriam como integrantes de um espírito coletivo, com a função de formar e educar gerações presentes e futuras.

            As vanguardas, num espectro que varia da negação dadaísta às proposições expressionistas, encontrariam no chamado pós-modernismo uma situação paradoxal, pois este último é dominado pelo International Style, ou seja, a subversão dos primeiros seria trocada pela “posição impositiva legitimadora e acrítica” (página 63) dos segundos.     

            Um dos pontos mais interessantes do pensamento de Subirats é a sua proposta de uma “estética cartesiana”, inexistente no pensamento do filósofo francês, mas que poderia ser concebida como marcada pelo racionalismo da “composição visual como uma ordem suscetível de ser determinada de acordo com esquemas ou categorias estritas” (página 62). Negava-se assim a realidade sensível e mimética em nome de formas e cores, num universo racionalista em que o abstrato ocupa uma função das mais importantes.

            A filosofia cartesiana, ao valorizar a geometria e a matemática pela sua racionalidade, gerando uma base sólida que permite determinar um pensamento lógico, autônomo e absoluto, pode ser relacionada com facilidade com boa parte da arte contemporânea, que encontra justificativas muito bem elaboradas para explicar os mais variados trabalhos.

Sem oferecer novidades ou ter uma utopia a vender, as vanguardas definham. Sua única alternativa é manter o poder pela tradição, tornando-se um novo status quo. Mesmo assim, a falta de renovação abre espaço para o chamado pós-modernismo, que se insere no vácuo deixado pelas vanguardas para oferecer as suas respostas, não estruturadas baseadas em releituras ou simplesmente num “vanguardismo requentado”.

O problema é que esse vanguardismo sem viço, pleno de contradições estruturais, no sentido de perda da juventude, tem sua falta de conteúdo muitas vezes escondido em belos discursos racionalistas à Descartes, em que a retórica e a lógica falam mais alto que a paixão alimentadora das vanguardas e seu romantismo revolucionário cada vez mais difícil de encontrar.

 

(1) SUBIRATS, Eduardo. Da vanguarda ao pós-moderno. São Paulo: Nobel, 1986. Todas as citações são dessa edição.

               

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA – Seção Brasil).

 
 



 

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