Darcy
Cruz
A
versatilidade das tintas
Há
pintores impressionistas e expressionistas, figurativos e abstratos e
primitivistas e acadêmicos. Existe, entretanto, um tipo de artista
muito especial, que reúne o raro talento de pintar aquilo que deseja
no estilo que acha mais apropriado. É o caso de Darcy Fernandes da
Cruz, que surpreende pela versatilidade no manejo das mais variadas técnicas
e na abordagem de diversos temas.
Nascido
em Avaí, a cerca de 30 km de Bauru, SP, em 1931, e falecido em Mogi
das Cruzes, SP, em 5 de fevereiro de 2007, Darcy começou a gostar de
arte com o avô, que era construtor e tinha um hotel, fazendo a decoração
com estilo naïf. O jovem o acompanhava no trabalho e o ajudava a
misturar as tintas, ficando maravilhado ao ver como numa parede branca
iam surgindo vacas, bois, casinhas e pés de frutas.
Darcy
reconhece que aquilo foi um incentivo para que ele gostasse de
desenhar e pintar. Em 1929, com a crise da Bolsa de Nova York, a região
de Avaí, produtora de café, entrou em decadência. O tio, que morava
em São Paulo, convidou a família para ir para a Capital, onde eles,
pouco a pouco, conseguiram se adaptar.
A primeira
incursão mais séria de Darcy no mundo das artes aconteceu quando
trabalhava numa oficina de conserto de veículos. Com os funileiros,
conseguiu tábuas e, principalmente, tintas a óleo, que devido ao preço,
por serem importadas, lhe eram inacessíveis. Em São Paulo, trabalhou
com tapeçaria, mas também pintava trabalhos para alguns clientes,
como objetos para decoração de casas, letreiros, salões de carnaval
e, posteriormente, painéis para carros alegóricos de escolas de
samba ou letreiros.
Darcy
estudou e trabalhou nos bairros paulistanos do Belém e Tatuapé. Em
1953, logo após seu casamento, foi para Mogi das Cruzes, interior de
São Paulo. Tinha oficina como tapeceiro, no Brás e, começou a
sofrer de problemas gástricos por comer apenas lanches, sem horário
fixo. No interior, podia trabalhar perto de casa e organizar melhor a
sua alimentação. Quando surgiu a chance numa empresa que precisava
de um funcionário especializado, mudou para lá. Depois, montou a própria
oficina.
Darcy
F. Cruz se manteve em Mogi, sempre se aperfeiçoando no ato de pintar.
Autodidata, quando morava em São Paulo, ia a uma galeria por semana.
Ficava horas analisando os quadros e aprendendo com o trabalho dos
outros. Não olhava o conteúdo, mas como a obra tinha sido feita,
como era dada a pincelada, como o artista tinha conseguido dar aquele
brilho e criar determinado jogo de cores.
Mesmo
sem nunca ter estudado, o estilo de Darcy varia conforme a sua
vontade. Preferia pintar naïf, mas sempre dizia que é mais fácil
ele fazer um quadro acadêmico do que um pintor mais tradicional e
conservador pintar as festas populares como ele as fazia. Para
comprovar essa afirmação, bastava visitar a casa em que mora. Pelas
paredes, havia, por exemplo, retratos de negros realizados em admirável
estilo acadêmico.
Com
sua facilidade de manobrar estilos e técnicas, Darcy, que pintava
desde os 12 anos, mas só começou a expor na década de 1950, diz que
prefere o naïf. Acreditava que era uma maneira de pintar espontânea,
que nasce com a pessoa. Enquanto o acadêmico se limitaria ao que vê,
o primitivista veria a realidade e poderia criar em cima, com
liberdade para voar, que seria o mais gostoso do processo criativo.
O contato
com naïfs em exposições coletivas, salões e bienais também é
considerado por Darcy uma importante forma de diálogo. Para ele,
“os pintores naïfs, geralmente, vêm das classes mais simples e não
têm um orgulho vazio. Quando se encontram tratam-se de igual para
igual. Todos conversam e trocamos idéias sobre temas, técnicas e
efeitos. Aprendo muito com eles e espero que eles possam dizer o
mesmo.”
Um exemplo
desse intercâmbio salutar foi a passagem de Darcy da tinta a óleo
para a acrílica. “Vários pintores me disseram que era melhor
pintar com tinta acrílica, porque a tela ficava mais brilhante. Disse
que tinha receio, porque nunca havia experimentado essa técnica. Eles
me estimularam e gostei. Hoje, posso dizer que domino as duas”,
avaliava.
Quanto
aos temas, Darcy preferia os folclóricos. “Eles têm muitas cores,
movimento e um profundo sentido. Quando vejo uma procissão, sinto
aquilo que estou vendo e percebo que as pessoas que participam estão
envolvidas”, afirmava. “Quando vejo uma cena interessante, faço
alguns rabiscos ou esboços, esquematizando a tela, mas os detalhes,
que demoram mais, deixo para fazer na hora.”
Um
exemplo do processo de criação de Darcy é o quadro Movimento
de Fé. “Tinha ido pescar em Alfenas, MG, e paramos, no caminho
de volta, no bar de uma pequena cidade. Vi então uma procissão. Fiz
o esboço, cheguei em casa e recriei a cena, colocando, por exemplo,
belos vitrais naquela pequena cidadezinha. A tela se transformou em
cartão de Natal da Federação das Entidades Assistenciais de
Campinas e hoje está na
Itália”, relatou.
Nessa
procissão, assim como em outras, é possível observar uma das
características mais marcantes do pintor: a ausência de rostos.
“Em procissões, só pinto o rosto do santo. As pessoas que
participam surgem sem os traços da face, porque não são as
protagonistas”, disse.
As
festas populares são o ponto forte da produção do artista.
Destacam-se, por exemplo, duas cenas da Bandeira do Divino, uma à
noite e outra de dia. Colocadas lado a lado, revelam o controle do
pintor sobre nuances de cores e de sombras, criando duas atmosferas
distintas a partir da mesma situação.
Além
de pintar festas católicas, Darcy trabalhava com cenas de candomblé
e terreiros de umbanda, todos repletos de cor, que salta aos olhos.
“O artista naïf é o que mais representa a nossa cultura. Se um
estrangeiro vem para o Brasil, deseja levar algo típico, não um vaso
de flores ou uma tela acadêmica”, dizia o pintor. “Muitas vezes,
somos a memória de um tempo, como acontece comigo, quando retrato
igrejas, capelinhas, casas ou edifícios que não existem mais.”
O
processo de criação de Darcy é baseado justamente nesse processo
fascinante de olhar uma realidade e recriá-la com o livre uso da
imaginação. É o caso de Vila
feliz. O artista conta que, certa vez, em Rondônia, viu, do alto
de uma colina, uma vila e fez um esboço. “A partir daí, fiz o
quadro, deixando a vila muito mais bonita do que era na realidade. Se
fosse uma artista acadêmico, não poderia fazer isso. Ao pintar naïf,
ganho uma liberdade infinita.”
Entre
os pintores, Darcy não esconde a admiração por Portinari.
“Conheci o trabalho dele quando vi uma foto na antiga revista O
Cruzeiro do mural que ele fez para a ONU, em Nova York. Aquilo me
emocionou”, declarou. “Comecei a analisar o trabalho dele e a
compará-lo com o meu. Numa exposição de Portinari no MASP, fiquei
ainda mais admirado, olhando detalhadamente cada quadro. Há mesmo
semelhanças entre o jeito de ele trabalhar e o meu. Os nossos estudos
tem método, uma rotina, que uso principalmente quando estou
preparando material para uma exposição importante.”
Capaz
de pintar paisagens e flores em estilo acadêmico e casarios das
cidades históricas de Minas Gerais ou de Parati, RJ, Darcy também
gosta de pintar circos e outras festas populares. Na III Bienal Naïfs
do Brasil, em 1996, apresentou justamente dois quadros, um sobre cada
tema, e teve suas obras selecionadas.
Dois
anos depois, na Bienal de 1998, Darcy classificou a tela O
vendedor de cocada, em que é possível ver uma cidade ao fundo
com o protagonista em primeiro plano. Há, no quadro, dezenas de
figuras, quase em miniatura, que mostram crianças brincando, um bar e
uma escola, num retrato, idealizado e pleno de cores e de detalhes, da
vida numa comunidade simples do interior.
Na
V Bienal Naïfs do Brasil, em 2000, o artista de Avaí continuou a dar
mostras do seu talento, classificando dois quadros. Ambos vendidos
logo no dia de abertura da exposição. Num deles, Violeiro
do Divino, a cor dominante é o amarelo, que preenche a figura
central. No outro, Festa de São
Benedito surgem imagens muito caras ao pintor, como o pau-de-sebo,
as mencionadas figuras diminutas sem rosto, balões e o céu azul.
Ainda
em 2000, Darcy participou da XV Mostra Afro-Brasileira Palmares, em
Londrina, PR, com a tela Doceira
da festa do Divino. Novamente, a protagonista aparece em tamanho
maior e no centro do quadro. Desta vez, com um instrumento apropriado,
move um tacho, preparando comida. As figuras do fundo aparecem sem
rosto e as cores quentes, como o amarelo, ajudam a criar o ambiente de
alegria, que se espalha pela barracas da festa.
Darcy
explica que o pintor deve ter um olho especial. “Uma pincelada ao
lado de uma sombra sempre significa alguma coisa em arte. Quando vejo
a natureza, uma paisagem ou uma cena cotidiana, observo o efeito das
sombras e vejo mil cores. Converso com muitos que não as vêem”,
afirmava. “Para pintar, é preciso uma combinação de conhecimento
do assunto e memória fotográfica da cena a ser retratada. Por isso,
gosto de viajar.”
Com
telas na Alemanha, França, Itália, Espanha e Japão e nos acervos
dos museus das cidades paulistanas de Assis e de Mococa e nas
Pinacotecas de Mogi das Cruzes e de Matão, Darcy F. Cruz já mereceu
as seguintes palavras elogiosas do conceituado artista plástico Zé
Cordeiro: “Ele procura ser o mais fiel possível ao transpor para a
tela toda a manifestação de fé e orgulho de nossas tradições
folclóricas. Há uma pureza contagiante e um equilíbrio
aparentemente natural em seus quadros, mas que demonstram um labor
intenso de muitos anos de dedicação.”
Ao
longo de sua carreira, Darcy F. Cruz foi muito mais do que um
primitivista. Se suas telas sobre folclore, principalmente as que
enfocam procissões, o tornaram mais conhecido, isso se deve à falta
de conhecimento da versatilidade do artista. Ao pintar com óleo e
tinta acrílica, sobre tela ou sobre cascas de árvores e num estilo
acadêmico ou naïf, o artista não escolhe meios ou formas.
“Trabalho muito. Por isso não tenho tempo de envelhecer”, diz.
A
extrema delicadeza do trabalho do artista radicado em Mogi é visível
em suas pinceladas. Suas festas e
procissões são naïfs justamente porque brotam da alma e expressam o
sentimento de um povo que ele conhece muito bem. Em suas melhores
telas, ele se vale da versatilidade para construir o diálogo entre as
imagens que cria, sempre a partir da realidade que ele conhece, e do
universo mental sedento de sonhos do espectador. Somente artistas da
qualidade de Darcy Cruz conseguem preencher essa lacuna.
Oscar
D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
UNESP).