por Oscar D'Ambrosio


 

 



Da Paz

 

O esmero dos jogos infantis

 

Quem vê os quadros da série “Jogos Infantis” da pintora Da Paz pode se iludir com a ingenuidade e a simplicidade do universo que elas retratam. De fato, a leveza e o caráter singelo dessas telas escondem um refinado senso estético e são o resultado de uma intensa pesquisa com formas e cores. Dessa combinação entre as pueris brincadeiras retratadas e o talento da artista plástica surgem quadros de vigorosa expressividade do mundo infantil.

Nascida em 13 de agosto de 1944, em São Paulo, SP, Rosa Maria da Paz reside desde os dez dias de idade em Mauá, SP. Desde criança, sentiu o impulso primordial de pintar e de mostrar os seus desenhos, talvez por ser a atividade artística uma forma de tira-la do mundo e colocá-la em outra dimensão, mais próxima das próprias emoções.

O passo natural, a partir desse contato solitário do pintor com seu íntimo no ato da criação, foi colocar o mundo interior nas telas. Nesse exercício, sem dúvida mais gratificante intimamente do que no exercício do magistério de História, atividade que também exerceu Da Paz desenvolveu o seu trabalho, que já foi elogiado por críticos como Enock Sacramento, Malvina Gelleni e Dalva de Abrantes.

Sua pintura, voltada atualmente para as brincadeiras de criança, revela uma visão social no sentido mais amplo possível. Não há o engajamento político simplista ou as soluções artísticas fáceis do realismo socialista, mas a retomada de um passado não tão distante em que as crianças brincavam inocentemente nas ruas sem o risco de serem atropeladas, assaltadas ou de sofrerem coisa pior.

O estilo de Da Paz dialoga com Picasso, Portinari e Di Cavalcanti pela riqueza cromática, deformações dos personagens e utilização do fundo das telas. As soluções que ela encontra, porém, tem uma característica bem própria: o rico uso dos olhos como elemento de composição.

Ora abertos, ora fechados, os olhos criados pela artista, além de intensos, oferecem chaves interpretativas para o observador. A direção desses olhares orienta e desperta indagações existenciais sobre quem são aqueles seres nas telas, o que eles estão fazendo e com que intenções.

Como o universo enfocado é o da criança, a singeleza das atividades ganha novas conotações. São metáforas da vida. Os inocentes jogos de infância abrem portas para um rico mundo de relações humanas em que algumas crianças parecem se bastar com a própria brincadeira enquanto há também aquelas que surgem prontas a conversar com as outras.

É o que ocorre na tela “Bolhas de sabão”, na qual uma das crianças está absolutamente isolada na própria brincadeira, enquanto a do meio parece querer travar contato com uma terceira, que igualmente parece imersa em seu mundo. Situação semelhante ocorre em “Jogando bafo”, na qual a figura da direita aparenta estar satisfeita consigo mesma.

No painel “Brincadeiras de criança”, esse fato é ainda mais evidente, pois cada atividade lúdica compõe uma parte da obra. Já em “Jogando cama de gato”, dois rostos contorcidos à Picasso encaram o observador da tela, enquanto o personagem da direita, de perfil, tem o olho visível vazado. No entanto, as calças de cor azul deles favorecem um ambiente de interação.

“Barquinhos de papel” acrescenta ao intenso uso dos olhos, o uso de colinas verdes ao fundo, recurso que valoriza os tons de azul presentes na tela. Mecanismo semelhante ocorre em “Pipas”, no qual o mar verde e o céu, entremeados por uma pipa amarela, uma ave vermelha e um barco de velas brancas, constituem o pano de fundo para o ludismo das crianças. Especificamente nessa tela, os olhos fechados dos retratados conferem certa melancolia à cena.

“Carrinhos de madeira” parece coadunar todas essas qualidades. O fundo cubista e as formas expressionistas das crianças, com destaque para a de camisa amarela do lado esquerdo, brincam com olhares perdidos de uma inocência que o tempo se encarregou de destruir nos seres humanos.

Os carrinhos passam de mão em mão e são protegidos como bebês por cinco crianças em variadas posições. Todas agachadas, elas oferecem uma síntese do trabalho de Da Paz com as formas e os volumes. A luminosidade da camisa amarela se articula ao boné da mesma cor da criança que ocupa o centro, enquanto tons entre o azul e o verde preenchem a tela, que conta ainda com toques de massas brancas, nas roupas, e vermelhas, no piso.

Da Paz traz às telas brincadeiras de criança com uma consciência pictórica adquirida pela maturidade adquirida ao longo da carreira. Cada menino ou menina é um universo de detalhes de composição muito bem articulado como elemento autônomo e como parte do todo.

As telas de Da Paz são uma festa para os olhos e um deleite para os amantes das artes visuais. Em seu talento para retratar jogos de criança, a artista comprova a própria habilidade técnica de lidar com cores variadas. Ao harmonizá-las, obtém o mérito de transmitir a pureza do mundo infantil, algo que a televisão e a internet minam todos os dias. Com os novos meios – já não tão novos assim – ganha-se muito em informação, mas talvez se perca em humanidade, algo que a pintora paulista oferece de sobra em suas telas.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (APCA) e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

   

 


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"Carrinhos de Madeira"

 - Série Jogos Infantis - AST -  70X140 - 2001 - 

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