Dalvan
Um pintor de seu tempo
"A pintura naïf
se impõe por sua autenticidade, ou seja, pela veracidade do seu
discurso, síntese entre a cultura popular e a visualidade urbana
brasileira". As palavras do crítico de arte João Spinelli,
do Comitê de História, Teoria e Crítica da Arte da Associação
Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (Anpap) se aplicam
à obra pictórica de Dalvan.
Nascido no bairro de
Marechal Hermes, no Rio de Janeiro, RJ, em 6 de dezembro de 1966,
Dalvan da Silva Filho começou a pintar em agosto de 1986. Ele
descobriu a arte naïf ao levar o trabalho de dois amigos para o
colecionador Lucien Finkelstein, presidente-fundador do Museu
Internacional de Arte Naïf (Mian), com quem seu pai trabalhava.
A história é curiosa.
Tudo começou em 1986, com Olegário de Lima, amigo do futuro
pintor. Ele trabalhava com artesanato, utilizando a técnica do
repuxado em metal, e junto com seu sócio, Ubirajara Duque
Estrada, pintor, queriam realizar algo mais artístico. Dalvan
decidiu ajudá-los e levou os trabalhos de ambos para um pintor,
amigo de seu pai, e depois para Finkelstein, que não os apreciou.
Foi assim que Dalvan
tomou conhecimento do que era arte naïf. "Na primeira vez,
Lucien explicou rapidamente o que significava ser naïf, mas não
entendi. Na segunda, para que eu compreendesse melhor do que ele
estava falando, foi ao escritório e pegou um quadro", conta.
"Quando vi, senti um impacto, porque me lembrei dos meus
desenhos. Me senti então estimulado a tentar fazer algo naquele
estilo."
Por uma questão de ética,
já que fora conversar com o Lucien para ajudar os amigos, Dalvan
pediu permissão ao Olegário e ao seu sócio para se aventurar no
mundo da arte. Seu primeiro quadro foi a cópia de uma cena
campestre. Depois, não parou mais. "A partir de agosto
daquele ano, fiz uns 14 quadros, fotografei e levei os três que
achei melhores ao Lucien. Ele, ao analisar o trabalho me disse que
eu levava jeito e que tinha que trabalhar muito", conta.
Com esse estímulo,
Dalvan decidiu continuar. "Lucien também me deu um livro
sobre o Miranda, pintor que ele havia lançado. Fiquei todo
satisfeito. Mais tarde, vendi meus primeiros trabalhos ao
Lucien", lembra. "Como foi ele que me apresentou a arte
naïf e me estimulou a continuar pintando, passei a lhe mostrar
tudo o que fazia."
Técnico em mecânica e
inspetor de qualidade, Dalvan deixou um emprego numa plataforma de
petróleo para pintar. Embora diga que prefere a crítica social,
uma de suas principais temáticas pode ser encontrada nas
paisagens urbanas cariocas, principalmente diversos quadros sobre
a fachada do Teatro Municipal e suas imediações, onde ocorrem
manifestações folclóricas e rodas de capoeira.
Um marco foi Quebra-quebra na Cinelândia,
interpretação pessoal e inconfundível dos atos de violência
que lá ocorreram em 30 de junho de 1987. Ficou, já desde então,
evidente o talento de Dalvan para transformar sua arte num libelo
pela liberdade de expressão e num documento de reivindicações
sociais, mostradas de maneira clara e contundente, sem o
rebuscamento e a simbologia que caracteriza a arte acadêmica.
Além de ter
participado de diversas exposições coletivas, como a Bienal Naïfs
do Brasil de 1996, em Piracicaba, SP, e da Trienal de Arte Naïf,
em Bratislava, na Eslováquia, ele realizou exposições
individuais no Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil (Mian),
que o revelou, e no Espaço Cultural dos Correios, ambas no Rio de
Janeiro, em 1997. No ano anterior, havia protagonizado a I Exposição
na Internet de um Pintor Naïf Brasileiro. Além disso, diversos
de seus trabalhos estão em coleções particulares na França,
Alemanha e na Itália.
Dalvan diz que seu
objetivo é realizar "um trabalho bom e com bastante
ingenuidade, sem querer ser pretensioso". Com isso em mente,
criou, por exemplo, diversas obras sobre capoeira, em que são
ressaltados os movimentos nas figuras centrais, enquanto as que
estão ao redor são desenhadas batendo palmas em posições simétricas.
Os corpos e rostos aparecem de frente ou de perfil. A cena é
mostrada tanto sobre o asfalto como sobre um chão quadriculado.
Há também telas
engajadas em defesa do meio ambiente, como a série Não enterrem
a natureza. O confronto entre os homens, com suas serras elétricas,
e as indefesas árvores, é mostrado sob uma ótica crítica e
bem-humorada. Os animais surgem realizando um protesto, com faixas
e tudo, em torno de uma árvore morta – com rosto e tudo –
dentro de um caixão; ou se colocam, com lágrimas nos olhos, em
posição de confronto perante os seres humanos, as grandes ameaças
da vegetação que resta.
Uma tela muito
significativa do trabalho de Dalvan é Caos urbano. As figuras
coloridas mostram o cotidiano de uma grande cidade, com a vida
desarmônica entre automóveis e pedestres e a violência social,
que inclui a imagem de um assalto e a figura de um pedinte.
O artista realiza, portanto, uma crônica
pictórica de uma realidade adversa, em que a qualidade de vida
piora, massacrada pela miséria, pelo desemprego e pela falta de
perspectivas de boa parte da população. Nesse aspecto, a pintura
de Dalvan funciona como uma voz de denúncia, um grito num momento
em que a sociedade brasileira clama justamente por ética,
transparência e paz.
A tela Um homem de verdade, ontem e
hoje revela os ideais de Dalvan para uma sociedade mais justa. Em
seis imagens justapostas no mesmo quadro aparecem crianças e
jovens envolvidos em tarefas que dignificam o ser humano, como a
leitura e o plantio de árvores. A idéia central é justamente
que as sementes de bom comportamento plantadas hoje gerarão
verdadeiros cidadãos amanhã.
Esse tipo de quadro justifica a visão
que Finkelstein tem de Dalvan: "Nada esta aí por acaso. Tudo
foi bem pensado. Não com um pensamento hermético, com mensagem
secreta, mas um pensamento bem ingênuo, claro, fácil de
interpretar. Acredito que, apesar da dramaticidade e do pessimismo
aparente de muitos de seus temas, sua pintura é cheia de amor e
de esperança."
A crítica social mais explícita também
se faz presente em quadros como Morte de Chico Mendes, em que é
mostrado o funeral do líder ecológico e líder dos seringueiros
do Estado do Acre, assassinado em 1988. Destaca-se a imagem da viúva
junto ao caixão e as seringueiras com rostos, chorando, enquanto
despejam sua valiosa seiva.
Dalvan também pinta a seleção
brasileira de futebol com a Copa do Mundo de 1994, inclusive com o
camisa oito, Dunga, à frente, erguendo a cobiçada taça. Os
jogadores levantam ainda uma faixa lembrando o falecimento de
Ayrton Senna, numa imagem que une duas das maiores paixões
nacionais: o futebol e a idolatria em torno do piloto brasileiro,
tragicamente morto nas pistas.
Integrante da Igreja Missionária
Evangélica Maranata, Dalvan retrata um pouco de sua fé em telas
como Segundo Aniversário da Rádio El Shadday. Perante um palco
erguido em praça pública, em que está a frase "Jesus é
Deus", uma multidão, de costas e roupas bem coloridas
observa o show musical que se desenvolve em clima de ordem, devoção
e fé.
Por sua convicção religiosa, que não
acredita em santos, o artista carioca não pinta certos temas,
como Céu, Inferno, santos, igreja, carnaval, e festas religiosas,
como juninas e festas de reis. Em compensação, considera temas
para pintar as crianças marginalizadas, ditos populares e provérbios,
folclore, manchetes, inventos, belezas, alegrias, terrores e
tristezas do século XX.
Analogamente, há um quadro, Misericórdia,
que, realizado a partir de tema bíblico, impressiona pela composição.
Centenas de pessoas, das quais vemos apenas o corpo inteiro
daquelas que estão na primeira fila, posicionam-se, de pé,
formando um arco, algumas com pedras na mão ou cobrindo os olhos,
para agredir uma mulher desesperada, provavelmente Maria Madalena,
com um vestido vermelho, símbolo da sexualidade e do pecado.
De costas, Jesus, de branco, de cócoras,
enfrenta a cena. A tela evoca o célebre episódio do Novo
Testamento "Atire a primeira pedra" e alerta para a
capacidade de perdoar que deve caracterizar todo ser humano.
Afinal, somente poderá atirar a primeira pedra aquele que nunca
pecou e quem, de maneira arrogante, acredita estar livre dessa
possibilidade.
Some-se a isso, que o ato de jogar a
primeira pedra significa não ter misericórdia ou capacidade de
aceitar e compreender os erros alheios, justamente quando uma das
maiores virtudes ensinadas por Jesus é a capacidade de perdoar os
homens que o condenaram e crucificaram.
Como diz Spinelli, neste tipo de tela
naïf, "pinturas vigorosas, ricas de colorido, traduzem,
sensivelmente, o imaginário do povo" ou ainda "o raciocínio
espacial, a intensidade colorística e o próprio ato lúdico de
pintar conduzem o artista naïf a composições esquemáticas,
construtivas, comuns a todos os povos desde o período Neolítico."
Além de realizar críticas
sociais e originais enfoques religiosos, Dalvan retrata temas históricos
e pontos turísticos do Rio de Janeiro. Isso inclui, entre outros,
o Largo do Boticário, em que são realizadas representações
teatrais; o calçadão próximo aos posto 2, com dezenas de
pessoas correndo e caminhando; os edifícios do bairro de Ipanema,
com sua feira de arte; a orla marítima, vista do Forte de
Copacabana, com dezenas de surfistas no mar; e o Hotel Copacabana
Palace.
Há ainda muito mais. Com cores fortes
e telas com cartazes ou informações visuais que localizam o
local são pintadas as exposições de arte no Museu Chácara do Céu;
o Centro Cultural Banco do Brasil; o Museu de Arte Popular Casa do
Pontal; e o Palácio do Catete e o Museu da República, mostrados
em uma tela de um ângulo bem elevado, como se o observador
estivesse num helicóptero.
Uma das mais belas telas de Dalvan,
seja pelo uso das cores amarelo e verde ou pela forma utilizada na
distribuição das dezenas de pessoas sentadas nas mesas, é a que
mostra a célebre Confeitaria Colombo, reduto de artistas e
intelectuais cariocas. Os dois andares são vislumbrados de um ângulo
alto, destacando-se a decoração do teto, os espelhos nas
paredes, o garçom na entrada e as pessoas comendo ou aguardando
os seus pedidos.
Quanto ao futuro,
Dalvan está repleto de projetos, mas só revela um: o de realizar
o menor quadro do mundo. "Devido aos temas que gosto de
abordar, como a crítica social e a história, sempre acompanho as
reportagens dos noticiários. Vi no programa semanal Fantástico
uma reportagem da Nanotecnologia e vi que seria possível fazer
esse quadro", afirma.
Ao buscar quem pudesse
proporcionar acesso a essa tecnologia, Dalvan encontrou Rodrigo
Priole, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro (PUC-RJ), que se interessou pela idéia. "Ele me
informou que pesquisadores alemães já fizeram uma réplica de um
quadro de Picasso que mede 10 x 10 microns. Queremos bater esse
recorde". O objetivo é um grande desafio, já que cada
micro, unidade de medida microscópica, corresponde a milésima
parte de um milímetro.
Para Spinelli, "a
arte naïf documenta novas formas e maneiras de aprender e
expressar os mistérios insondáveis da vida com extraordinária
vitalidade, espontaneidade e beleza". Dalvan atinge esse
ideal em várias frentes. Ao tratar do combate entre ecologia e
tecnologia, da violência urbana ou das belezas da cidade do Rio
de Janeiro atinge um resultado expressivo.
A arte de Dalvan não
se enquadra numa simples temática de crítico social ou na definição
de cronista pictórico do Rio de Janeiro. Suas telas e cores estão
à serviço de um movimento de ebulição interno que conduz a
obras que primam pela autenticidade. Nada em seus quadros é
artificial ou realizado com segundas intenções. É no talento
com que explicita suas verdade artísticas que Dalvan, atento a
tudo que ocorre ao seu redor, na sociedade e na época em que lhe
cabe viver, destaca-se como um nome importante no panorama da arte
naïf brasileira contemporânea.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).