por Oscar D'Ambrosio


 

 


Dalvan

        Um pintor de seu tempo

        "A pintura naïf se impõe por sua autenticidade, ou seja, pela veracidade do seu discurso, síntese entre a cultura popular e a visualidade urbana brasileira". As palavras do crítico de arte João Spinelli, do Comitê de História, Teoria e Crítica da Arte da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (Anpap) se aplicam à obra pictórica de Dalvan.

        Nascido no bairro de Marechal Hermes, no Rio de Janeiro, RJ, em 6 de dezembro de 1966, Dalvan da Silva Filho começou a pintar em agosto de 1986. Ele descobriu a arte naïf ao levar o trabalho de dois amigos para o colecionador Lucien Finkelstein, presidente-fundador do Museu Internacional de Arte Naïf (Mian), com quem seu pai trabalhava.

        A história é curiosa. Tudo começou em 1986, com Olegário de Lima, amigo do futuro pintor. Ele trabalhava com artesanato, utilizando a técnica do repuxado em metal, e junto com seu sócio, Ubirajara Duque Estrada, pintor, queriam realizar algo mais artístico. Dalvan decidiu ajudá-los e levou os trabalhos de ambos para um pintor, amigo de seu pai, e depois para Finkelstein, que não os apreciou.

        Foi assim que Dalvan tomou conhecimento do que era arte naïf. "Na primeira vez, Lucien explicou rapidamente o que significava ser naïf, mas não entendi. Na segunda, para que eu compreendesse melhor do que ele estava falando, foi ao escritório e pegou um quadro", conta. "Quando vi, senti um impacto, porque me lembrei dos meus desenhos. Me senti então estimulado a tentar fazer algo naquele estilo."

        Por uma questão de ética, já que fora conversar com o Lucien para ajudar os amigos, Dalvan pediu permissão ao Olegário e ao seu sócio para se aventurar no mundo da arte. Seu primeiro quadro foi a cópia de uma cena campestre. Depois, não parou mais. "A partir de agosto daquele ano, fiz uns 14 quadros, fotografei e levei os três que achei melhores ao Lucien. Ele, ao analisar o trabalho me disse que eu levava jeito e que tinha que trabalhar muito", conta.

        Com esse estímulo, Dalvan decidiu continuar. "Lucien também me deu um livro sobre o Miranda, pintor que ele havia lançado. Fiquei todo satisfeito. Mais tarde, vendi meus primeiros trabalhos ao Lucien", lembra. "Como foi ele que me apresentou a arte naïf e me estimulou a continuar pintando, passei a lhe mostrar tudo o que fazia."

        Técnico em mecânica e inspetor de qualidade, Dalvan deixou um emprego numa plataforma de petróleo para pintar. Embora diga que prefere a crítica social, uma de suas principais temáticas pode ser encontrada nas paisagens urbanas cariocas, principalmente diversos quadros sobre a fachada do Teatro Municipal e suas imediações, onde ocorrem manifestações folclóricas e rodas de capoeira.

Um marco foi Quebra-quebra na Cinelândia, interpretação pessoal e inconfundível dos atos de violência que lá ocorreram em 30 de junho de 1987. Ficou, já desde então, evidente o talento de Dalvan para transformar sua arte num libelo pela liberdade de expressão e num documento de reivindicações sociais, mostradas de maneira clara e contundente, sem o rebuscamento e a simbologia que caracteriza a arte acadêmica.

        Além de ter participado de diversas exposições coletivas, como a Bienal Naïfs do Brasil de 1996, em Piracicaba, SP, e da Trienal de Arte Naïf, em Bratislava, na Eslováquia, ele realizou exposições individuais no Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil (Mian), que o revelou, e no Espaço Cultural dos Correios, ambas no Rio de Janeiro, em 1997. No ano anterior, havia protagonizado a I Exposição na Internet de um Pintor Naïf Brasileiro. Além disso, diversos de seus trabalhos estão em coleções particulares na França, Alemanha e na Itália.

        Dalvan diz que seu objetivo é realizar "um trabalho bom e com bastante ingenuidade, sem querer ser pretensioso". Com isso em mente, criou, por exemplo, diversas obras sobre capoeira, em que são ressaltados os movimentos nas figuras centrais, enquanto as que estão ao redor são desenhadas batendo palmas em posições simétricas. Os corpos e rostos aparecem de frente ou de perfil. A cena é mostrada tanto sobre o asfalto como sobre um chão quadriculado.

        Há também telas engajadas em defesa do meio ambiente, como a série Não enterrem a natureza. O confronto entre os homens, com suas serras elétricas, e as indefesas árvores, é mostrado sob uma ótica crítica e bem-humorada. Os animais surgem realizando um protesto, com faixas e tudo, em torno de uma árvore morta – com rosto e tudo – dentro de um caixão; ou se colocam, com lágrimas nos olhos, em posição de confronto perante os seres humanos, as grandes ameaças da vegetação que resta.

        Uma tela muito significativa do trabalho de Dalvan é Caos urbano. As figuras coloridas mostram o cotidiano de uma grande cidade, com a vida desarmônica entre automóveis e pedestres e a violência social, que inclui a imagem de um assalto e a figura de um pedinte.

O artista realiza, portanto, uma crônica pictórica de uma realidade adversa, em que a qualidade de vida piora, massacrada pela miséria, pelo desemprego e pela falta de perspectivas de boa parte da população. Nesse aspecto, a pintura de Dalvan funciona como uma voz de denúncia, um grito num momento em que a sociedade brasileira clama justamente por ética, transparência e paz.

A tela Um homem de verdade, ontem e hoje revela os ideais de Dalvan para uma sociedade mais justa. Em seis imagens justapostas no mesmo quadro aparecem crianças e jovens envolvidos em tarefas que dignificam o ser humano, como a leitura e o plantio de árvores. A idéia central é justamente que as sementes de bom comportamento plantadas hoje gerarão verdadeiros cidadãos amanhã.

Esse tipo de quadro justifica a visão que Finkelstein tem de Dalvan: "Nada esta aí por acaso. Tudo foi bem pensado. Não com um pensamento hermético, com mensagem secreta, mas um pensamento bem ingênuo, claro, fácil de interpretar. Acredito que, apesar da dramaticidade e do pessimismo aparente de muitos de seus temas, sua pintura é cheia de amor e de esperança."

A crítica social mais explícita também se faz presente em quadros como Morte de Chico Mendes, em que é mostrado o funeral do líder ecológico e líder dos seringueiros do Estado do Acre, assassinado em 1988. Destaca-se a imagem da viúva junto ao caixão e as seringueiras com rostos, chorando, enquanto despejam sua valiosa seiva.

Dalvan também pinta a seleção brasileira de futebol com a Copa do Mundo de 1994, inclusive com o camisa oito, Dunga, à frente, erguendo a cobiçada taça. Os jogadores levantam ainda uma faixa lembrando o falecimento de Ayrton Senna, numa imagem que une duas das maiores paixões nacionais: o futebol e a idolatria em torno do piloto brasileiro, tragicamente morto nas pistas.

Integrante da Igreja Missionária Evangélica Maranata, Dalvan retrata um pouco de sua fé em telas como Segundo Aniversário da Rádio El Shadday. Perante um palco erguido em praça pública, em que está a frase "Jesus é Deus", uma multidão, de costas e roupas bem coloridas observa o show musical que se desenvolve em clima de ordem, devoção e fé.

Por sua convicção religiosa, que não acredita em santos, o artista carioca não pinta certos temas, como Céu, Inferno, santos, igreja, carnaval, e festas religiosas, como juninas e festas de reis. Em compensação, considera temas para pintar as crianças marginalizadas, ditos populares e provérbios, folclore, manchetes, inventos, belezas, alegrias, terrores e tristezas do século XX.

Analogamente, há um quadro, Misericórdia, que, realizado a partir de tema bíblico, impressiona pela composição. Centenas de pessoas, das quais vemos apenas o corpo inteiro daquelas que estão na primeira fila, posicionam-se, de pé, formando um arco, algumas com pedras na mão ou cobrindo os olhos, para agredir uma mulher desesperada, provavelmente Maria Madalena, com um vestido vermelho, símbolo da sexualidade e do pecado.

De costas, Jesus, de branco, de cócoras, enfrenta a cena. A tela evoca o célebre episódio do Novo Testamento "Atire a primeira pedra" e alerta para a capacidade de perdoar que deve caracterizar todo ser humano. Afinal, somente poderá atirar a primeira pedra aquele que nunca pecou e quem, de maneira arrogante, acredita estar livre dessa possibilidade.

Some-se a isso, que o ato de jogar a primeira pedra significa não ter misericórdia ou capacidade de aceitar e compreender os erros alheios, justamente quando uma das maiores virtudes ensinadas por Jesus é a capacidade de perdoar os homens que o condenaram e crucificaram.

Como diz Spinelli, neste tipo de tela naïf, "pinturas vigorosas, ricas de colorido, traduzem, sensivelmente, o imaginário do povo" ou ainda "o raciocínio espacial, a intensidade colorística e o próprio ato lúdico de pintar conduzem o artista naïf a composições esquemáticas, construtivas, comuns a todos os povos desde o período Neolítico."

        Além de realizar críticas sociais e originais enfoques religiosos, Dalvan retrata temas históricos e pontos turísticos do Rio de Janeiro. Isso inclui, entre outros, o Largo do Boticário, em que são realizadas representações teatrais; o calçadão próximo aos posto 2, com dezenas de pessoas correndo e caminhando; os edifícios do bairro de Ipanema, com sua feira de arte; a orla marítima, vista do Forte de Copacabana, com dezenas de surfistas no mar; e o Hotel Copacabana Palace.

Há ainda muito mais. Com cores fortes e telas com cartazes ou informações visuais que localizam o local são pintadas as exposições de arte no Museu Chácara do Céu; o Centro Cultural Banco do Brasil; o Museu de Arte Popular Casa do Pontal; e o Palácio do Catete e o Museu da República, mostrados em uma tela de um ângulo bem elevado, como se o observador estivesse num helicóptero.

Uma das mais belas telas de Dalvan, seja pelo uso das cores amarelo e verde ou pela forma utilizada na distribuição das dezenas de pessoas sentadas nas mesas, é a que mostra a célebre Confeitaria Colombo, reduto de artistas e intelectuais cariocas. Os dois andares são vislumbrados de um ângulo alto, destacando-se a decoração do teto, os espelhos nas paredes, o garçom na entrada e as pessoas comendo ou aguardando os seus pedidos.

        Quanto ao futuro, Dalvan está repleto de projetos, mas só revela um: o de realizar o menor quadro do mundo. "Devido aos temas que gosto de abordar, como a crítica social e a história, sempre acompanho as reportagens dos noticiários. Vi no programa semanal Fantástico uma reportagem da Nanotecnologia e vi que seria possível fazer esse quadro", afirma.

        Ao buscar quem pudesse proporcionar acesso a essa tecnologia, Dalvan encontrou Rodrigo Priole, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), que se interessou pela idéia. "Ele me informou que pesquisadores alemães já fizeram uma réplica de um quadro de Picasso que mede 10 x 10 microns. Queremos bater esse recorde". O objetivo é um grande desafio, já que cada micro, unidade de medida microscópica, corresponde a milésima parte de um milímetro.

        Para Spinelli, "a arte naïf documenta novas formas e maneiras de aprender e expressar os mistérios insondáveis da vida com extraordinária vitalidade, espontaneidade e beleza". Dalvan atinge esse ideal em várias frentes. Ao tratar do combate entre ecologia e tecnologia, da violência urbana ou das belezas da cidade do Rio de Janeiro atinge um resultado expressivo.

        A arte de Dalvan não se enquadra numa simples temática de crítico social ou na definição de cronista pictórico do Rio de Janeiro. Suas telas e cores estão à serviço de um movimento de ebulição interno que conduz a obras que primam pela autenticidade. Nada em seus quadros é artificial ou realizado com segundas intenções. É no talento com que explicita suas verdade artísticas que Dalvan, atento a tudo que ocorre ao seu redor, na sociedade e na época em que lhe cabe viver, destaca-se como um nome importante no panorama da arte naïf brasileira contemporânea.


Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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"Não enterrem a Natureza"e

A.S.T- 46x63  - 1996 -

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