por Oscar D'Ambrosio


 

 


Da galinha d’Angola de Lia Aleixo para a linha de todos nós

 

            Serviço de preta na Casa Caiada 35 pode ser visitada apenas como uma exposição de artes plásticas, na qual, de 4 a 18 de agosto, estão reunidos diversos trabalhos que integram a pesquisa visual de Lia Aleixo. No entanto, um exercício de observação mais atento permite que a mostra seja absorvida, deglutida e discutida por outros prismas.

Um deles está no próprio título, que remete, é claro, para a questão do preconceito e, ainda, para as linhas de conduta que nos pautam nas complexas relações do cotidiano. Ver o “serviço de preta” implica em se relacionar de nova maneira com o mundo.

Esses elos são alimentados visualmente por um forte tema central, a galinha de Angola, e, acima de tudo, um dos principais recursos disponíveis ao artista plásticos: a linha, enquanto forma de expressão que denuncia não só uma poética, mas, principalmente, uma forma de concepção da realidade circundante.

Enquanto assunto, a galinha d’Angola, também conhecida no Brasil como galinhola, angolinha, pintada ou guiné, foi trazida da África na época da escravidão, e preserva ainda alguns de seus hábitos selvagens, como o de andar em bandos e ser muito barulhenta, o que leva o animal a ser utilizado como guarda, pois, ao perceber a presença de estranhos ou qualquer anormalidade, põe-se a gritar.

Criada ainda como ave ornamental e como produtora de carne – cuja consistência firme e sabor leva a comparações com a do faisão – e ovos, a galinha d’Angola, na culinária francesa, é ingrediente de pratos sofisticados e, em termos ecológicos, colabora com o equilíbrio biológico, pois devora lagartas, formigas e carrapatos.

            A matriz do trabalho de Lia está num pequeno caderno, de 17 cm x 13 cm, realizado em 2005, para o curso de Educação Artística do Instituto de Artes da UNESP. Na capa e no seu interior, são trabalhadas imagens realizadas com as cores (vermelho, branco e preto), muito importantes na cultura afro pelo seu vínculo com a criação.

            Apontada como elemento fundamental das cerimônias e da mitologia da criação, como oferenda que propicia axé e equilíbrio pessoal, ela é retratada ainda em serigrafia de Aldemir Martins, pelas célebres figureiras da cidade de Taubaté, SP, seja sozinha ou na forma de chuva, em Minas Gerais, no Nordeste e em Cuiabá.

            Os trabalhos em fundo branco da exposição mostram bem o senso e ocupação do espaço de Lia. Esse mesmo atributo plástico se faz presente nas obras sobre tecido, em que o bordar e costurar explorar o pano, que funciona como grande tela a receber as impressões visuais da artista.

            Enquanto local expositivo, a Casa recebe um espaço próprio para que as pessoas tracem as suas próprias linhas na parede. Estabelece-se assim a oportunidade de interação e de uma reflexão sobre como cada um constrói a própria linha da vida. Seja como galinha ou como outra forma de expressão qualquer, o visitante estabelece com o entorno um vínculo.

A galinha passa a ser menos importante do que o trabalho plástico feito com a linha sobre o espaço. As imagens, seja a criada pelo público, seja a oferecida pela artista em vários suportes, dialogam com respeito mútuo. Instaura-se, assim, um espaço em que o serviço de preta caminha rumo a um novo estágio, onde o saber ver é tão importante quanto o saber fazer. E a galinha de Angola, graças a Lia Aleixo, passa a ser a linha de todos nós.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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