Da Costa Carvalho
A arte da interferência
Interferir
em imagens de propaganda para propiciar novas conotações de sentido e
de apelo visual é o ponto de partida do trabalho de Da Costa Carvalho,
nome utilizado pelos artistas plásticos Matheus Da Costa e Rodrigo
Carvalho para estabelecer uma relação artística com objetos
pré-existentes do mundo da publicidade.
A partir do
recurso da interferência sobre propagandas, com técnicas como pintura,
tinta serigráfica e decalque, a dupla Da Costa Carvalho consegue gerar
os mais variados efeitos a partir de um ponto de partida da sociedade
de consumo, seja o cartaz de um filme de grande sucesso, uma película
cult ou mesmo um anúncio que pode ser encontrado em diversos
locais do universo urbano.
O processo
criativo da dupla tem como princípio primordial o conceito que, dentro
da sociedade de consumo, na qual as pessoas se comportam como se
fossem códigos de barras, sem a menor diferenciação entre uma e outra,
uma interferência poética e artística introduz um elemento surpresa e
lírico, marcado pela idéia de que sempre é possível combater a
mesmice.
Além do
trabalho com imagens icônicas do cinema, a dupla se apropria de outros
elementos. Um deles, por exemplo, é feito a partir de uma propaganda
de preservativos. Ao centro, os artistas interferem, realizando uma
pintura com tinta a óleo e tinta serigráfica, tendo como referência
O retábulo de Ghent, 1432, de Hubbert e Jan Van Eyck. O fundo, por
sua vez, foi construído com decalques de xerox de azulejo português
típico do período joanino, procurando preservar partes da propaganda.
As pinturas
seguem a idéia de transformação/reciclagem de um material antes
considerado acabado como peça publicitária e que, após a
interferência, ganha um novo propósito, discutindo conceitos ligados à
sexualidade. Enquanto o retábulo aponta para questões ligadas à
relação entre a sexualidade e a igreja e entre o carnal e o
espiritual, o azulejo português leva a estabelecer relações com a
religião cristã, que chegou ao Brasil por meio dos colonizadores
europeus.
Adão e Eva, num
invólucro fálico, em posições de pinturas clássicas, estão contidos em
seus respectivos nichos, olham-se, mas separados por ornamentos, por
um espaço que traz referências ao prazer. Trata-se de um trabalho que
questiona o próprio conceito de sedução e traz numerosas implicações
com sensualidade, sexualidade e mesmo os tabus que cercam a sociedade
contemporânea.
Seja sobre propaganda de
algum produto de consumo ou sobre um cartaz de cinema, a filosofia
plástica de Da Costa Carvalho traz consigo a idéia de que a inovação é
sempre necessária. Nesse contexto, o único pecado é não ousar,
limitando a própria criatividade e inibindo a liberdade de pensar como
uma imagem pode ser constantemente recriada e retransformada para o
bem da capacidade humana de questionar e pensar.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de
Artes (AICA – Seção Brasil)