por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Cristina Crispin Leite

 

            A arte de vencer o tempo

 

            O jornalista norte-americano Ambrose Bierce (1842-1914) dizia que pintura é “a arte de proteger superfícies planas contra o tempo e de expô-las ao crítico”. A frase, repleta de ironia, presente em Dicionário do diabo, mostra com plenitude o universo poético e criativo que envolve a arte de compor um quadro.

            As telas de Cristina Crispin Leite, se observadas nessa perspectiva, revelam grande vitalidade, pois são o retrato de uma artista em permanente evolução devido à busca de soluções imagéticas e técnicas para expressar a sua verdade artística, atingível apenas num processo contínuo de pesquisa e aprimoramento.

            Filha de mãe brasileira e pai norte-americano, Cristina Crispin Leite nasceu em Los Angeles, Califórnia, EUA, em 1º de março de 1955, mudou para o Havaí, e cresceu em São Paulo, SP. Fez curso de pintura em porcelana e passou a morar em Assis, SP, depois de casada. Aos 44 anos, após duas décadas de dedicação à família, a sua paixão pelo desenho reapareceu, levando-a a ter aulas de pintura a óleo com a professora Marta Hanschkow.

            A grande inspiração da artista está no cotidiano, nos fatos simples da vida, como a contemplação de flores ou de uma paisagem. O desafio é dar a esses elementos uma visão pessoal, diferenciadora, plena de vida, rica em conhecimento interior, aquele que mescla os pensamentos e emoções à contemplação crítica da realidade exterior.

A tela Sonho e realidade, por exemplo, é a concretização dessa busca. A imagem trata de pintura, pois observamos os tubos de tinta a óleo e os pincéis sobre uma mesa. No entanto, é o fundo que nos chama mais a atenção, pois há nele aridez, anunciando que o momento da criação é mágico e, nele, o artista se coloca aquém ou além do mundo sensível.

Esse mesmo quadro pode ser interpretado como os tubos e pincéis colocados no chão, com o mesmo fundo servindo como paredes. Senso assim, a arte permanece no chão, sendo, quem sabe?, a base de uma nova sociedade, de um mundo em que pensar e criar tenham um status semelhante ao de outras atividades mais lucrativas.

Quadros como O banco, em que o jogo de luz é fundamental, Sol da manhã, no qual plantas em vasos têm seu valor estético ressaltado pelo uso de um fundo com características levemente impressionistas, e uma série de plumérias de várias cores, indicativa da versatilidade no uso da cor e da composição, assinalam os principais caminhos de uma artista que revela com maior intensidade o seu potencial quando trabalha com cores quentes.

É o que ocorre em telas como Cristinas’ Apples, um trabalho em que um caixote de maçãs é mostrado por um ângulo diferenciado, Hibiscos com sol, em que o uso da cor contagia o observador, e Voz do Brasil, em que o fragmento de uma cena (uma casa, uma cerca de madeira, um orelhão) compõem um painel do cotidiano de muitas cidades do País.

Cristina Crispim Leite sabe da capacidade da arte de vencer o tempo e, à medida em que desenvolve o seu trabalho, oferece uma pintura consistente em que o ato de pintar torna-se cada vez mais importante do que a imagem expressa, num amadurecimento que a levará a vôos cada vez mais altos e densos na arte que aprendeu a amar e a praticar.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).
 

 

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  Cristinas' Apples 

óleo sobre tela 40 cm x 50 cm - 2003

Cristina Crispin Leite

 

 

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