por Oscar D'Ambrosio


 

 


Cotidiano visual das metrópoles

 

            O que há de comum entre São Paulo e Curitiba? Como esses dois ambientes metropolitanos são vistos por jovens artistas que vivenciam as suas realidades das mais diversas maneiras? Essas duas questões motivam a observação atenta das páginas da publicação independente 100cotidiano, de Alex Hornest e Valerio Cicqueira.

            O ponto de partida é a produção de cem imagens, 50 de cada artista sobre esse universo urbano. Alex se debruça sobre São Paulo, e Valério sobre Curitiba sem a preocupação de fazer um mapeamento geográfico ou arquitetônico dos municípios, mas sim um diário íntimo visual da experiência de estar numa grande cidade.

            Hornest vale-se de uma caligrafia visual mais figurativa. Numera cada um de seus trabalhos, incorporando os algarismos arábicos às suas criações. Obtém os resultados mais expressivos ao mostrar figuras como um político discursando e uma mendiga.

            Com um traço livre, em grossos contornos pretos, mas caracterizado pelo vigor na construção dos personagens, o artista coloca em evidência numerosas situações e mesmo objetos que podem passar despercebidos de quem mergulha no cotidiano paulista de olhos bem fechados, sem a disposição para ver o que às vezes está evidente, mas não é fácil ou politicamente correto olhar.

            Uma bituca de cigarro, um corpo morto estendido no chão, diversas situações envolvendo bebida, um skate partido e um táxi são exemplos de fragmentos escolhidos na crônica visual de Hornest, onde tambémespaço para críticas à Igreja e à polícia, assim como para interpretações visuais de um feirante, motoboy ou de carrocinhas de cachorro-quente.             

            A poética de Cicqueira é distinta. Ele se vale somente do azul ou dessa cor somada ao vermelho para apresentar formas que funcionam perfeitamente como se estivesse num muro da metrópole curitibana. Também utiliza alguns trocadilhos verbais comocura” e “procura” na sua interpretação do mundo cotidiano.

            Os rostos, quando surgem, aparecem de maneira expressionista, bem ao gosto dos mestres alemães do gênero, com deformações. Há ainda imagens que se assemelham a jardins submersos e monstros que parecem engolir a cidade. Destaca-se um personagem que funciona como um devorador de concreto, que se torna uma metáfora da própria destruição externa e interna que uma grande cidade gera. 

            A sobreposição de figuras e a complexidade e o aspecto propositalmente caótico de algumas composições contrasta com o maior equilíbrio de certas criações, como a de um beija-flor saindo de uma espécie de peixe arredondado e a construção de olhos dentro de janelas, em momentos sutis e de grande delicadeza.

            Com desenhos realizados entre julho e dezembro de 2005, o livro constitui uma abordagem diferenciada do que significa passar o dia-a-dia numa metrópole. O fato de ser São Paulo ou Curitiba é o menos importante, pois a essência está na visão que Hornest e Cicqueira tem da diversidade e da experiência metropolitana, única e diferenciada, por ser, nos dois casos, igualmente sincera e autêntica.         

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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