Cotidiano
visual das
metrópoles
O
que há de
comum
entre
São Paulo e Curitiba?
Como
esses
dois
ambientes metropolitanos
são
vistos
por
jovens
artistas
que vivenciam as
suas
realidades das
mais diversas
maneiras? Essas duas
questões motivam a
observação
atenta das
páginas da publicação
independente 100cotidiano,
de Alex Hornest e Valerio Cicqueira.
O
ponto de
partida é a
produção de
cem
imagens, 50 de
cada
artista
sobre
esse
universo
urbano. Alex se debruça
sobre
São Paulo, e Valério
sobre Curitiba
sem a
preocupação de
fazer
um mapeamento
geográfico
ou arquitetônico dos
municípios,
mas
sim
um
diário
íntimo
visual da
experiência de
estar numa
grande
cidade.
Hornest vale-se
de uma
caligrafia
visual
mais figurativa. Numera
cada
um de
seus
trabalhos, incorporando os
algarismos
arábicos às
suas
criações. Obtém os
resultados
mais
expressivos ao
mostrar
figuras
como
um
político discursando e uma
mendiga.
Com
um
traço
livre,
em
grossos
contornos
pretos,
mas
caracterizado
pelo
vigor na
construção dos
personagens, o
artista coloca
em
evidência numerosas
situações e
mesmo
objetos
que podem
passar
despercebidos de
quem mergulha no
cotidiano
paulista de
olhos
bem fechados,
sem a
disposição
para
ver o
que às
vezes está
evidente,
mas
não é
fácil
ou politicamente
correto
olhar.
Uma bituca de
cigarro,
um
corpo
morto estendido no
chão, diversas
situações envolvendo
bebida,
um
skate
partido e
um
táxi
são
exemplos de
fragmentos escolhidos na
crônica
visual de Hornest,
onde
também há
espaço
para
críticas à
Igreja e à
polícia,
assim
como
para
interpretações
visuais de
um
feirante, motoboy
ou de
carrocinhas de
cachorro-quente.
A
poética de Cicqueira é
distinta.
Ele se
vale
somente do
azul
ou dessa
cor somada ao
vermelho
para
apresentar
formas
que funcionam
perfeitamente
como se estivesse num
muro da
metrópole
curitibana.
Também utiliza
alguns
trocadilhos
verbais
como “cura” e “procura”
na
sua
interpretação do
mundo
cotidiano.
Os
rostos,
quando surgem, aparecem de
maneira
expressionista,
bem ao
gosto dos
mestres
alemães do
gênero,
com
deformações. Há
ainda
imagens
que se assemelham a
jardins submersos e
monstros
que parecem
engolir a
cidade. Destaca-se
um
personagem
que funciona
como
um
devorador de
concreto,
que se
torna uma
metáfora da
própria
destruição
externa e
interna
que uma
grande
cidade gera.
A sobreposição
de
figuras e a complexidade e o
aspecto propositalmente
caótico de algumas
composições contrasta
com o
maior
equilíbrio de
certas
criações,
como a de
um
beija-flor saindo de uma
espécie de
peixe arredondado e a
construção de
olhos
dentro de
janelas,
em
momentos sutis e de
grande
delicadeza.
Com
desenhos realizados
entre
julho e
dezembro de 2005, o
livro constitui uma
abordagem diferenciada do
que significa
passar o
dia-a-dia numa
metrópole. O
fato de
ser
São Paulo
ou Curitiba é o
menos
importante,
pois a
essência está na
visão
que Hornest e Cicqueira tem da
diversidade e da
experiência metropolitana,
única e diferenciada,
por
ser,
nos
dois
casos,
igualmente
sincera e
autêntica.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da UNESP, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).