Nuno
Ramos no SESC: cortante
como
lâmina
O
fascínio
maior da
arte é o
seu
poder de
gerar
perguntas
sem
oferecer repostas
simples. Uma
série de
trabalhos constitui uma
espécie de
sonho
individual,
que se materializa na
forma de uma
obra,
com o
uso dos
mais variados
materiais e
suportes,
que dão
sustentação
àquilo
que se imaginou.
A
série de 11
obras
que formam o
conjunto
Só
lâmina, de Nuno
Ramos,
criado
especialmente
para o SESC, trazem
questões
fundamentais
não
só
em
termos de
resultado
estético,
mas
principalmente da
mescla de
materiais,
cada
um deles inserindo
um
questionamento.
O
poema “Uma
faca
só
lâmina (Serventia das
idéias fixas)”, de 1957, de João Cabral de
Melo
Neto, é uma
referência
por
aquilo
que tem de
mais
indispensável: o
conceito de
que a
lâmina da
faca traz
em
si
mesma,
sem o
cabo,
toda a
sua
essência, na “...
imagem de
faca / reduzida à
sua
boca;”.
Há o
uso de
elementos
como
alumínio,
pelúcia,
espelho,
acrílico e
tinta a
óleo.
Cada
um deles
comporta
um
conhecimento e
um
pensar do
material. Existem variações de
cor,
que incluem o
azul, o
verde, o
lilás e o
amarelo,
assim
como
fragmentos do
texto cabralino
em
cada
obra,
com
medidas de 75 x 155 cm.
A
pelúcia,
tecido
que
geralmente tem
um
lado
felpudo e
outro
liso,
com
pêlos
mais
longos e
ralos
que o
veludo, oferece, no
fundo de
cada
trabalho, a
idéia de
algo
inacabado, solto e
livre,
como uma
superfície rasgada,
cortada e
aberta. Despedaçada
em
sua
aparência, parece
receber a
ação da
lâmina
que
tudo corta.
Metal
branco
prateado,
leve,
mole,
dúctil e resistente à
corrosão, o
alumínio surge
sobre a
pelúcia
como
um
contraponto e
como a
presença do
elemento
mais
próximo de
tudo
aquilo
que tem o
poder de
desfazer e de
destruir.
Sobre
esse
metal, estão as
letras
que trazem
fragmentos de
versos do
poeta
pernambucano
não
inteiramente
legíveis.
O
espelho,
superfície refletora, aparece
como
alusão ao
brilho
que a
lâmina dá. Há
ainda
seu
poder simbólico de
revelar
aquilo
que a
pessoa é ilusoriamente,
pois
ele é
sempre uma
visão invertida daquilo
que chamamos de
realidade.
Sua
presença
alerta
para o
poder da
imagem e das
palavras de
nos
enganar
sempre
sob uma
aura de
verdade.
Polímero de metacrilato de metila, o
acrílico é a
presença de
um
simulacro.
Seu
poder é o da
própria
onipresença no
mundo
contemporâneo. Está
em
quase
todo o
universo da
arte, seja na
forma de
múltiplos
ou
tintas. Traz
consigo a
idéia de
certa artificialidade e
representação
que afasta do
mundo visceral.
A
tinta a
óleo, considerada
um
material
nobre e de
alta valorização no
mercado da
arte,
comporta o
conceito de
hierarquia, conferindo
status ao
processo de
pintura.
Sua
existência é
um
vínculo
com os
mestres e ao
mesmo
tempo uma
coragem de
trazer essa
tradição
para o
contato
com
materiais
mais
recentes e
menos considerados.
A
jornada de Nuno
Ramos
pelos
textos de João Cabral de Melo
Neto está
repleta de
vasos comunicantes
com a
obra dele
mesmo e
com a
própria
história da
arte. Existe uma
caminhada pelas
maneiras de
pensar
diferentes
suportes de
modo a
estabelecer
imagens
que se cravam
em nossas
mentes.
Elas cortam
nosso
interior
com a
forma e a
violência de uma
lâmina
dentro do
diálogo do
artista
com a
literatura,
expressa
em outras
criações
plásticas e literárias. Essa
mescla de
linguagens indica a
construção de uma
individualidade marcada
pela
procura da materialização de
atingir ao
máximo o
potencial
expressivo de
cada
técnica.
Trata-se de
um
trajeto desafiador e
caracterizado
pela
coragem de
correr
riscos. Busca-se
promover o
encontro de
diferentes
meios de
manifestação no
processo de
construção de
um
resultado
final
uno,
pelo
uso dos
recursos propostos, e
múltiplo,
pela
sua
capacidade de
gerar
perguntas incisivas e
cortantes
que levem o
trabalho a
reverberar.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da Unesp, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).