Poética
do esforço
Somente quem
contempla o trabalho de pintura de um corpo ao vivo pode ter uma
plena dimensão do que significa o esforço de começar a
trabalhar sobre um corpo nu (a tela em branco). O exercício
exige um mínimo de planejamento, alguns conceitos visuais bem
definidos e muito diálogo com os modelos. Dias 9 e 10 de julho
de 2005, na exposição Corpos Pintados, na Oca, em São Paulo,
a artista plástica Roberta Fialho enfrentou essa maratona.
Dia
9 de julho, o tema foi a tempestade. Após mais de 4 horas de
exercício pictórico, físico e mental, um belo raio em branco,
desenhado com precisão e emoção, orienta o leitor na parte da
frente da modelo, onde a silhueta de uma metrópole gera um
progressivo encantamento pela combinação de cores. As costas
da modelo, com um pôr-do-sol (ou seria um amanhecer) que parece
uma aquarela do Sul do País, complementam o trabalho.
No
dia seguinte, o trabalho foi dobrado, pois dois modelos (um
homem e uma mulher) foram pintados. Ela teve em seu corpo uma
paisagem oriental, em branco e cor-de-rosa, com uma composição
de uma paisagem em poucos traços e numerosos ideogramas em
preto.
A
figura criada no modelo masculino, com predominância de cores
quentes, exigiu a colaboração dos próprios modelos para a
pintura das áreas maiores. Roberta fez os retoques, como
detalhes do rosto e o comando das mesclas colorísticas, assim
como os grafismos que surgem a partir da influência oriental
que caracteriza o trabalho da artista.
Em
seus corpos pintados, a artista conciliou esforço físico com
três temáticas (a tempestade, a paisagem e os grafismos
orientais e um trabalho com cores mais terrosas, próximas do
universo indígena nacional). Dessa mescla, surgem três corpos
que interagem pelo cromatismo, pelo esforço físico e pela
busca constante de soluções criativas perante os mais variados
desafios.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de
Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).